domingo, 22 de dezembro de 2013

transpostos do pretinho em 22.12.13


FOFOCA NA ROÇA

Candoca acordava cedo
Fazia tudo correndo
Tanta pressa
Serviço malfeito
Acabava depressa
Tinha a língua afiada
Saia de casa
Rezava  pros santos
Não vão por quebranto
Na sua beleza...
Conversava com todos
Tinha muitas comadres
E não por maldade,
Mas ia dizendo
O que dava na telha
Vi ontem o compadre
João da Belmira
Olhando comprido
Pra sua vizinha
Aquela... a Cidinha
E falava, falava
Que língua é pra isso
Não para na boca...
Cabocla de peitos,
Trejeitos, esgares...
Quem diz que a Candoca
Faria uma troca
Com a vida que tinha...
Diziam na roça
Que era um pitel...
E o seu coronel
Senhor Zé dos Anjos
Caboclo maneiro
Dava tudo pra ela
Vestidos de sêda
Sapatos de saltos
Requebra, requebra,
Ia longe a Candoca
Levando as fofocas
Parando nas casas
Na venda do Tonho
Despejava miúdo
O que nem sabia
Com finta de anjo       
Falava, contava...
Seu Tonho...não liga...
Vai ver é só prosa
O que andam falando
Da comadre Rosa....
E tem a Mercedes
Com cara de santa
Mas mal se levanta
Já fez suas tranças
E vai pra janela....
E a vaca da Zefa
Que vive rezando
Já deu o que tinha
Nem é mais donzela...
Candoca, Candoca
Você tão bonita
Me lembro tão bem
Mas era um perigo
Falavam contigo
Tomando cuidado
Diziam...coitado
Do seu Zé dos Anjos
Tem Mulher sabida
Tão bela e fogosa
Mas tão venenosa....


...

ESPANTALHO

Um assobio estridente
Atravessou pala estrada
Assobio de morte...
Vi a morte atravessada
Pendurada no galho
Balançando o espantalho
Roxo, azul, transfigurado
Desfigurado, esquisito
Aquele apito me fere
Até hoje... nunca mais
Me saiu...Nem sei de onde
Veio forte o assobio
Corri feito mulher doida
Atravessei meu caminho
Nem senti pisar espinhos...
À noite eu acordava
Sonhando...aquele rosto
Tão roxo no corpo mole
Balançando... ventania
Dia, noite...todo dia...
Por favor, meu pai.
Me acode...
Tenho mêdo,
Me liberta daquela corda...
Sufocando, balançando
Agarrada ao homem morto
Me sufoca na garganta
Pai, me acorda....
Me livra daquela corda....




VOCÊ DORMIU

Eu vi chorando a lua
As dores que eram suas
Vi lágrimas caindo
Argentas, brilhantes densas
Clareando a escuridão
Vi chorar seu coração
De tristeza e agonia
Coloquei-me em oração
Esperei raiar o dia
Vi o sol nascendo ao longe
Clareando, iluminando...
Senti pena quando vi
Você ainda chorando
Pela dor que era tanta
Nem dava pra esconder
Então fiz minha promessa
Implorei com minha prece
Dai, Senhor, a hora é essa
Alento e aceitação
Dai a paz da qual precisa
Esse pobre coração
Não o deixe assim sózinho
Nem a deixe sofrer tanto
E chorei, deixei que o pranto
Viesse me acalmar
E então eu vi você
Olhar longe, olhar vazio
Encostei meu corpo exangue
De uma noite sem dormir
E dormi igual um anjo
E você também dormiu...




NASCEU MAIS UM

Quando o dia clareou
Ele foi buscar ajuda
Não podia mais ouvir
Os lamentos da mulher...
Quando o dia amanheceu
E a chuva amainou
Pos a capa rota e velha
E saiu meio abobado
De uma noite sem dormir
Me pediu ficar com ela
Levantei bem sonolenta
Escancarei a janela
Peguei o mais novo ao colo
Que chorava sem parar
Acendi o fogão a lenha
Fervi leite, fiz café
Puxei água da sisterna
Pus no preto caldeirão
Pra ferver, meu pai pediu
Ao sair, sem mais dizer
Mas eu sabia...
Que mais um ia nascer...
Esperei eles chegarem
Minha mãe gemia agudo
E os outros já acordando...
Era tudo feito ás pressas
Só a criança não vinha
Talvez não tivesse pressa
De nascer em tal lugar
E corre daqui, dali...
Nemdeiconta, quando vi,
A parteira segurava
O menino já limpinho...
Muita roupa pra lavar
Muito sangue pra limpar
Mas tudo muito escondido
Camuflado nos caminhos
E a pedido do meu pai,
Matei a galinha gorda
Fiz a canja, dei á ela
Tanto esforço, veio a fome...
Continuei minha lida
E já um tanto perdida
Chorei, nem sei explicar...
Mas acho que de impotência
Tanto pêso em minhas costas...
Mais um irmão nascido
Tinha tanto o que cuidar
Naquele lar sem recursos
Me vi só, me achei cansada
Tão menina... achava abuso...


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