domingo, 22 de dezembro de 2013

outras do pretinho em 22.12.2013


MULHER FORTE

Sou mulher forte
Tive a sorte de nascer
Tirando leite de pedras
Amansando cobras
Levando sovas
Pegando sobras
Na vida bruta
Criei feridas
Curei-as todas
Não sofro mais....
Que a vida é isso
Mostrar serviço
Tocar em frente
Deixar sementes
Do que aprendemos...
Limpar o mal
Lavar o sal
Deixar pra lá
Qualquer veneno...
Fazer crescer
Fazer valer
Acrescentar...
Pois o que resta
No fim das contas
É uma soma
De coisas boas
Nossos valores...
Doces sabores....
Que a vida é simples
A vida é boa....





O BASTARDO

Corria daqui, dali...
Ligeirinho, tinha pressa
Carriola carregada
Tão criança... dura infância
Burro de cargas da família
Foi pêgo aos tres aninhos
Ficou órfão muito cedo
E o casal que o adotou
O fazia de brinquedo
Quanta judiação...surras...
Tundas... nada de dizer não
Era um menino bom
Mas estranho...
Feinho, desarranjado...
Estava sempre suado
Sujinho, desdentado
Mas sorria amiude
Sorriso desajustado
Parecia pedir desculpas
Sem ter culpas...
Sua imagem não me sai
Eu também era criança
Minha mãe o aconselhava
Que tivesse paciência
Ele dizia.... vou ser padre
Ainda vou rezar missa...
Comia aquilo que davam
E as roupas, se eram gastas
Ou se eram apertadas
As usava mesmo assim
Sabia agradecer
Vivia de migalhas
Os tempos eram outros
Quase ninguém se importava
Pelas crianças sofrendo
Elas não tinham direitos
Era assim...crianças,
Só um detalhe...
Elas não tinham vez
E assim se fez com ele...
Soube anos depois
Que tentou ser sacerdote
Mas por ser afeminado
Lá também foi enjeitado....






A FREIRA

Foi bem cedo pro convento
Seus pais assim quizeram
Queriam a filha freira
Porém, ela mesma não queria
Sonhava se casar
E ter filhos de montão
Dizia... teria tido uns oito,
Dez...ah, que desgosto...
Linda, aquela freirinha
Já madura... labutando
Na cosinha do colégio
Sacrilégio o que fizeram...
Enquanto cosinhava, rezava
Eu era curiosa, queria saber
O porque de tanta reza
Que pecados podia ter...
Queria trocar com ela
Dizia...me dê os seus....
Entrego os meus
Ela ria,  respondia ...não queira
Tenho pecados de sobra
Meus pensamentos ardem
A consciência cobra
Entreguei a minha dor
Meu amor, entrego a Deus
Sou feliz... cincoenta anos
Interna nesse lugar
Vim aos quinze
No começo só chorava
Saudade da família
Ah... saudade que me matava...
Todos se foram...
Fiquei eu e os meus tesouros
Meus santos, relicários...
Meu sacrário está em mim
Pensando bem,
Acho que foi melhor assim....





HORIZONTES

Da minha janela olho longe
Vejo tênue o horizonte
O sol esparramando
Se diluindo
Formando cores
Contornando...
Diviso claro as nuvens
Que separam as imagens...
Olho longe... me prendo
Me atenho nas mensagens
Ah... o por do sol
No horizonte...
É Divino...
Me deleito...Me encantam
Nuvens mansas... coloridas
Sol dourando verdes montes
Espetáculo de cores...
Coloco lá meus temores
Faço versos... mais não posso
A beleza está além
Tento encontrar a fonte
Me inspiro...me transporto
Na grandeza do horizonte....



OCEANO

Tenho em mim um oceano
De planos, desejos, sonhos...
E nas águas que me acalmam
Ondas que vão e vêm
Flutuantes, espumando
Branquinhas elas navegam
Como um barco remando
Na sutileza dos lagos
Na gentileza dos rios...
Às vezes me vêm a mil
Deixo que as ondas venham
Me contenho... é preciso
Sei querer... vou lá buscar
Bem no fundo do oceâno
Volto trazendo tudo
Aposto no que acredito
Procuro pensar no bem
Peço só o que mais preciso
Agradeço... me engrandece
Todos os bens recebidos
Sim, tenho em mim um oceâno...
Como todo mundo tem
Nele busco sobretudo
Saber mais do que já sei...
Nas marés, eu me ajeito
Aceito qualquer ajuda...
Quando esbarro na tristeza
Saio logo, não me afogo
Acredito sim, no bem...
Nas ondas que trazem, levam
Num eterno vai- vem...







ENTARDECER

Vejo as tardes chegando
Mansas, prenunciando
A noite calma das estrelas
Companheiras dos meus sonhos...
Chega a tarde, me invade
A vontade do aconchêgo
O desejo de esperar
A chegada de quem vem
Mais um dia que se vai...
Outra noite logo chega
Os cheiros doces rescendem
Dos lares que então preparam
As refeições feito altares
Sagradas, consumidas
Em comunhão de orações
União entre as pessoas
São bênçãos que a noite trás
Entardecer... doce é a tarde
Louvando por mais um dia
Louvada seja a noite
Chegando... vindo
Colhendo preces
Entoando hinos...








O AMOR DE VOCÊ

Você trouxe, me entregou
Eu aceitei de bom grado
Seu agrado, como fosse
Um cesto cheio de flores...
Você chegou desde sempre
E me trouxe tão sómente
Um amor que eu nunca vi
Não sabia que isso existe
Não conhecia tão real...
Verdadeiro amor primeiro
Mas você trás até hoje
Quando chega... quando sai...
Nunca me deixa só
Já que você é capaz
De doar, oferecer
Sem sequer pensar em ter
Recompensa do que fez...
Não espera nada em troca...
Você doa sem reservas
Entrega, e no entregar,
Esquece... nem lembra mais
O que entregou de si
Se vai receber ou não
Gentilezas desse gesto...
Pois seu coração é nobre
Seu amor se manifesta
Todo dia, qualquer hora
Porque amor pra oferecer
Você, querido...
Tem de sobra...






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