CIRANDA CIRANDINHA
Tanta criança na rua
Solta, livre, em algazarra
Toda noite, era de praxe
Criançada reunida
Brincadeiras tão saudáveis...
Eu sempre estava lá
E na roda me esbaldava
Com Senhora dona Sancha
Coberta em ouro e prata
Atirei o pau no gato
Tinha pena do gatinho
Machucado, escorraçado
Cirandava, declamava
Batatinha quando nasce
Ficava no meio da roda
E me sentia o máximo
Pequenina era eu
Pequeninos sonhos meus...
Quais sonhos sonhava eu?...
Rodava, ria, chorava se caia
Chorona... chora, menina, me diziam
Os grandes...pois crianças me entendiam
Me cercavam, me chamavam
Não chora ...vem pra roda
Vamos todos cirandar
As cantigas eu sabia
Se essa rua fosse minha
O anel que tu me destes
O amor que tu me tinhas
Não...não era pouco
Nem tampouco se acabou...
Brincava de amarelinha
Céu, inferno, pular corda
Passa anel, esconde - esconde
Não via passar o tempo
Mas quando a hora soava
Bastava só uma chamada
Dormia com dor nas pernas
Quem mandou ser avoada...
Sonhava, mistura ingrata
Pesadelos... sonhos bons
Confusão ... tudo girava
Criançada em profusão
E tudo recomeçava...
Nessa rua onde eu vivia
Poucas horas pra brincar
Mas eu sempre aproveitava
Ah, meu Deus... como era bom......
VOLTANDO DA ESCOLA
A estrada era deserta
Tranquila, estreita, incerta
Curta nas curvas e nas retas
Galhos cobriam cercas
As ramagens balançavam
Parecendo, quando lembro
Com fantasmas desgrenhados
Redemoinhos formavam
Na terra solta, vermelha,
Poeira de arder os olhos
Ventanias, quando vinham
Na baixada assobiavam
Um barulho que assombrava
E a meninada gritava, ria
Gargalhava... que doideira
Espantando o gado manso
Abrindo qualquer porteira
Traquinagens, pouco siso
Voltando á tarde da escola
Molecada sem juízo
Jogava pedras nas cobras
Procurava macaúbas
Trepava o jatobazeiro
Brigando por jatobás
Eta fruta mais sem graça...
Fedorenta, disputada a tapas
Que fazer... outra não há...
Peguei oito, Zé Maria
Vou trocar com guaraná
Na classe, com meu colega
Ah... eu também quero trocar
Macaúbas, tenho vinte
Amanhã vou me esbaldar
Troco todas as que tenho
Por um pão com mortadela
E um copo com guaraná...
E você... pegou o que?
Pouco, não vai dar
Junta aquí... trocamos juntos
Negócio não faltará
Tanta gente interessada
Em macaúbas roubadas
E também em jatobás
Tem menino empanturrado
De lanche com mortadela
E de beber guaraná....
( Fiz muito esse tipo de negócio...)
BENDITO É O FRUTO
Bendito seja o seu ventre
Guardando o fruto da vida
Sustentando, alimentando
Nove meses de magia...
Bendito ventre que o fruto
Cresce sugando a fonte
Gerando do mesmo sangue
O fruto que gera a vida
Bendito fruto crescendo
Expandindo, se formando
No ventre que aconchega
O fruto do seu amor...
Bendito ser carregando
O fruto no próprio ventre
Mãe....bendito é o fruto
Da sua própria semente
Bendito seja o fruto
E a alma que o sustenta
E bendito seja o útero
Habitat do seu rebento
Bendito fruto do ventre
Eclodindo para a vida
Nascendo, olhando o mundo
Reconhecendo na alma
O ser do qual ele vem
Bendito fruto é voce
Bendito fruto sou eu
Frutos da mesma fonte
Da árvore onde nasceu
Benditos frutos de Deus...
VI VOCÊ
Vi você... vi seu sofrer
Soluçava a dor sentida
Não chre, minha querida...
Tudo se acerta, vai ver...
Vi você em longo pranto
Vi você em desencanto
Da vida desencantada
Que dor essa, que dói tanto...
Vi você desesperada
Querendo terminar tudo
Sem nenhuma perspectiva
Alheia... longe do mundo
Vi você buscando longe
Tão distante, errando os passos
A você eu enlacei
Envolvi em forte abraço...
Vi você voltando á vida
Tateando...devagar...
Acordando... descobrindo
Reciclando o seu melhor
Vi você se levantando
Se refazendo das cinzas
Se alegrando pouco a pouco
Curando suas feridas...
Vi voc6e forte qual cedro
Consolando a dor alheia
Tão feliz, tão encantada
Gostando tanto da vida...
Vi você me consolando
Me enlaçando em forte laço
Me joguei, chorei a dor
No amor do seu abraço...
Vi você tão minha amiga
Minha irmã, minha querida
Cumplice no meu sofrer
Vi você tão despojada
Esquecida de você
Se entregando sem pensar
Curando minhas feridas...
E quando as dores me vêm
Vez ou outra me sondar
Fecho os olhos, vejo bem
Com a alma , o seu olhar
Me consolo com você
Pois sei que o seu espírito
Melhor que ninguém me vê....
(Onde quer que você esteja, vejo você, querida...)
MOÇA VIRGEM
Há tempos, bem lá atrás
Virgindade era moda
Exigida, obrigada
Cantada em verso e prosa
Porisso toda donzela
Era sempre vigiada
Casar virgem, sim, senhores....
Era coisa obrigatória
Pra mulher...o homem não
Homem virgem, se soubessem
Recebia olhares tortos
Escárnio...donzelo frouxo
Mas a mulher... Deus o livre
Seu valor estava nisso
Ah, se não fosse virgem....
Tinha falta de juizo
Descaramento, indecência
Pura senvergonhice
E se arrumasse filho...
Despencava então a casa
Era expulsa, execrada
Vergonha da sociedade
Julgada sem piedade
Sua fama não prestava
Me lembro de uma mocinha
Na cidade pequenina
Onde isso era pior
Engravidou, tão menina...
Comprovou-se desde cedo
Que era fruto de um estupro
Qual o que...não houve meios
Expulsaram-na de casa
Sem nenhuma compaixão
pobrezinha...ah, que pena...
Nem me lembro no que deu
Saiu chorando sem rumo
Outro vizinho acolheu
Seus pais nunca perdoaram
O gesto do bom vizinho
Preferiam ver a pobre
Junto com a criança
Perdidas nos seus caminhos....
..........................................................................
Um animalzinho “pra brincar”....
Não, não era brinquedo
Mas feito de carne e osso
Tão pequenino o bichinho
Pobre coitado... indefeso, tinha mêdo
Corria...manquitola, se escondia
Sö encontrava sossêgo algumas horas
E assim mesmo, creio eu
Curtindo as suas dores
Enquanto os seus ämiguinhos
Permaneciam na escola...
E, perguntado á mãe
Porque mancava o bichinho,
Tranquila, me respondeu:
Teve a perninha quebrada
É coisa desses meninos...
Fazem dele o que querem
Ah...eu deixo...dão sossêgo...
Não tenho tempo...nem vejo...
E o bichinho, indefeso
Ia de mão em mão
Quatro crianças, coitado...
O puxavam pelo rabo
Levava chute, pisão
Gritava, o pobrezinho
Perguntei...não teem dó?
Responderam...não temos não...
E a mãe, jovem ainda
Tida por gente fina
Quiz continuar conversa
Não consegui, senti nojo
Daquela mulher perversa
Levantei-me...fui embora....
Mas não sem antes dizer
Coitado desse cãozinho....
Ele sente a mesma dor
Que sentiriam vocês...
Por favor, não façam isso...
E um deles me respondeu...
Ah... eu nem ligo....
(Saí chorando....sinto remorso,
pois nada fiz além disso....)
UM ASSALTO DIFERENTE
Ia eu bela tardinha
Começava a escurecer...
Andando lá por Pinheiros
Belo bairro de São Paulo
Parou-me então um sujeito
Bem vestido, bem tratado
Foi logo dizendo baixo
Moça, você tem horas?
Parei e o olhei de perto
Com simpatia, sorri
Achei bom o termo moça
Com o qual me abordou
E respondi amigável
Me desculpe, mas não tenho...
E êle, sem se abalar
Me falou de sopetão...
Mas grana, você tem
Me passa toda, então...
Eu respondi, tenho pouca
Mas lhe dou a que tiver
Ele me fez mensão
Ter uma arma escondida
Peguei logo os cem reais
Única nota que eu tinha
Dei á ele que sorriu
E me falou... valeu, moça...
E ainda agradeceu...
Me dei conta que sorri...
Penso que foi de nervoso...
E quando alguém me disse
Achar muito cem reais,
Eu respondi... depende...
Pra que lado eu levar...
Digamos que eu paguei
Cincoenta reais por vez
Que me chamou de moça...
Gostei, pois na minha idade,
Ser chamada assim,
É pura felicidade...
Compensou pela alegria,
Porque isso me valeu,
Por anos de terapia....
MANHÃ FELIZ....
Hoje acordei bem cêdo
Saí por aí sem rumo
Delícia andar sem prumo
Sem saber pra onde ir...
Só andar olhando o mundo
Cumprimentando quem passa
E se houvesse uma praça
Eu me sentaria lá...
E andei, andei, andei...
Pouca gente pelas ruas
Em sampa, lá em Pinheiros....
Sete horas da manhã...
Tomei café numa esquina
Desses de coador
Conversei com a menina
Que me serviu pão de queijo
Sentei á mesa e ela veio
Desenvolta, me falou...
Bonito, o seu cabelo...
Agradeci, ela voltou
Servir atrás do balcão
Vontade de dar um beijo
Simpatia de menina...
Alegre assim, de manhã...
Servindo tão bem á todos...
Saí, falei tchau pra ela
Que me deu lindo sorriso
Desejou-me um belo dia
Andei mais....me vi feliz
Mais adiante, um homem velho
Senhorzinho de andar trôpego
Cumprimentou-me com gosto
Devolvi um sorriso doce...
Fui adiante.... olhei vitrines
Me encantei com tantos livros
Expostos num sebo antigo
Seu dono estava lá...
Me ofereceu cafézinho
Tomamos juntos... delícia
Conversamos sem parar
Falamos de tantas coisas...
Mostrou-me uns livros raros
Tão ou mais antigos que eu
Saí encantada de lá...
E andei... andei... andei...
Sem vontade de voltar...
Ah, meu Deus... como foi bom
Sair atoa, sem pressa...
Assim, só pra observar
O transeute passar
Ver a vida de manhã
E com tudo me encantar...
Número 182
CHUVA DE ROSAS
Sonhei numa bela noite
Com pétalas caindo aos montes
Vinham em muitas cores
Vermelhas, brancas, douradas...
A prata predominava
Tinha pétalas azuis
Um azul que eu nunca vi
E as pétalas ao cairem
Viravam asas de anjos
Desciam caindo... vindo...
Sem ter pressa de chegar
Vinham todas sobre mim
Avalanches em cascatas
Tanta rosa eu nunca vi...
Beleza rara, instigante...
Seriam rosas daqui?
Não... beleza tão radiante
Como eu nunca, nunca vi...
Deu-me a plena certeza....
Elas não vinham daqui...
183
PÉS NO CHÃO
Minha mãe plantava horta
Pequena, mas dá pro gasto...
Dizia enquanto colhia
Salsinha, cebola e alho
Tinha alface, almeirão
Chicória, rúcula, couve
E ao lado, rente à cerca
Tomate, xuxu, quiabo...
Sempre amei plantações
Ou qualquer planta que fosse
Tenho encanto pelas hortas
Quando saio, aguço os olhos
Viajando, olho ás voltas
E assim que vejo
Nossa....que bela horta!
Sou terra, sou pés no chão...
Tenho em mim uma roceira
Plantadeira, fuçadeira
Saio ás vezes por aí
Procurando, vou buscando
Encontrar plantinha ou outra
Rente aos muros ou às cercas
E mesmo em terras baldias
Alguma planta nativa
Serralha... até tiririca
Que aproveito... sei usar
Tiririca feito suco
Melhora nossa saúde
Serralha...faz tanto bem
Prá pele e digestão
Ah... teem muitas outras também
Que agora nem lembro os nomes
Mas se encontro as reconheço
Fico alegre, acho bom
Aproveito-as quando posso
Sou terra...sou pés no chão...
184
ESTRANHO HOMEM
Certa vez, estranho homem
Pedinte... passou por lá
Na casa pequena e pobre
Nem bateu, foi logo entrando
Dizia estar com fome
Minha mãe o atendeu
Deu-lhe um prato de comida
Rente à porta ele sentou
Comeu feito cão faminto
Não falava... olhava só
Encarava... era enorme
O homem que me ficou
Minha mãe apavorou-se
Nossa casa em lugar ermo
Só a nós... éramos seis
Crianças... Meu pai ausente
Minha mãe olhava longe
Na esperança do meu pai
Chegar... já escurecia
E o homem calado olhava
Mirando firme a barriga
Tão grande da minha mãe
Prenha, já quase pronto
O filho que havia lá
E o pedinte que não ia...
Não saía do lugar...
Sua barba tão comprida
Nem dava pra precisar
Seu rosto, se era belo...
Ancião ele não era...
Minha mãe com tanto mêdo
Me pediu para rezar
Pra que ele fosse embora
Procurasse outro lugar...
Ou que o marido chegasse
E acabasse a agonia
Mas o homem não se ia...
E então, já bem noitinha
Acendido as lamparinas
O homem se levantou
Pediu água e ciciou
Tinha voz doce, macia...
Olhou firme sua barriga,
E com palavras bem ditas
Ele então pronunciou...
Tens aí belo guri...
Fez-lhe curta reverência
Agradeceu, foi embora
Minha mãe nada falou
E quando chegou meu pai
Tudo a gente lhe contou
Mais uns dias se passaram
Nasceu um forte menino
De olhos claros... tão lindo!...
Coincidência? Não sei...
Dizem que não existe....
PORTAS ABERTAS
Abro as portas... todas elas...
As da frente e dos fundos
Se pudesse abrir o mundo
Abriria sem pensar
Não deixaria sequer
Uma porta sem abrir
Nem tampouco se fechar...
Abriria, alargaria
Qualquer porta ou potão
Pra entrar qualquer pessoa
Que quizesse aqui morar
Mas abro meu coração
Pra deixar que todos entrem
Sem entraves, empecilhos
E ao ver todos chegarem,
Vou espalhar qualquer brilho
Que eu possa ter comigo...
Quero tirar da memória
Do baú da minha história
As mais gostosas lembranças
Pra espalhar, deixar de herança...
Quero dar da minha aurora
Seu eterno renascer
Dividir minha alegria
E no alvorecer do dia
Quero dar o meu abraço
E pedir que vocês fiquem...
Pois na casa onde eu vivo
Cabem todos os seus donos
Ela é minha, é de vocês
Dos que passam, dos que ficam
Dos que vêm buscar abrigo
É a casa dos meus sonhos
A morada que me habita
Vivo nela... ela em mim...
Um dia de cada vez
Ambas cheias de vida...
As duas são de vocês.....
PÃO E VINHO
O pão nosso, é pão divino
Nosso hino que enleva
Vinho e pão, nosso sustento
Nêles, nosso alimento....
Pão e vinho, transformados
Em fontes do consagrado...
Vinho e pão nossos manjares
Nos sustentam, nos alentam
Nos transformam, nos sublimam...
No pão, a carne divina
No vinho, o sangue da vida...
Elevados nos altares
Consagrados nos sacrários,
Relicários... sêr de nós...
Pão... carne... sustentação...
Vinho... sangue... redenção...
O QUE SINTO, ESCREVO...
Tenho ganas de escrever
O que sinto, quando vem...
Tão forte, causticante...
Preciso transportar... transparecer...
Tirar tudo o que me esxede
E me incomoda estando lá..
Escondido, amoitado, calado...
Me fustiga... Não posso guardar comigo
Preciso contar...
Tenho que estravasar
Vai virar livro?... Não sei...
Não ligo o que vai ser
Ao colocar tudo aqui...
Quero sim, únicamente
Por pra fora, tirar daqui
De dentro...Contar tudo
Quase tudo... Pouco escondo
Livro aberto? Não, porcerto...
Mas poucas páginas fecho
Do meu livro... cheio de cores
Amores e doces saudades
Contém também muitas dores
Mas bem mais felicidades...
Conto nele o que vi, ouvi, senti...
O que vejo, o que sei,
E o que penso então saber...
Não tenho nenhum receio
Em expor meus sentimentos...
E assim contando...
Escrevo... escrevo... escrevo...
CEMITÉRIOS
Tenho amizade com eles...
Afinidades...morei perto
De um deles, fui amiga...
Ele foi meu confessor
Fiz genuflexão no cruzeiro
Ajoelhei na cêra quente
Derretendo, fumegantes
Rezei preces tão ardentes...
Fui constante, indo lá...
Vi choros, tantos suspiros
Escutei tristes gemidos
Dos que iam sepultar
Os seus entes tão queridos
Filhos, irmãos, amigos....
Chorei muito, estando lá....
Não, não sou mórbida...
Mas lá, encontrava alento
Tão mocinha, era eu...
E as almas me ouviam
Caladas, me entendiam....
Contava minhas angústias
Pedia que me ajudassem...
Lá, os choros tinham ecos
Me sentia aliviada,
E nas tristezas choradas,
Sabia não estar sózinha
Conversava com as almas...
E á noite, em minha cama
No vento, ou na doce brisa,
Divagando, eu sempre ouvia
Clamando, as coroas de lata
E o tilintar das cruzinhas...
VIUVÊS
Procuro, busco, não a vejo...
Vivo assim... só por viver...
Quem me dera, disse ele
Na busca, podê-la ver...
Minutos...segundos que fossem
Mas ela... ah... foi embora
Deixando vazio meu colo
Vago, o mesmo solo
Durante anos, pisado
Repisado, calcado
Moldando a vida...
Quem dera, voltasse ela...
Só pra poder contar
Da saudade que me aleja
Tolhe, encolhe, me embota
Desbota meu céu azul...
Tira o riso, traz o pranto
Tirando todo o encanto
Desencantando a vida...
Estou cansado da dor
Saudade do meu amor
Arde o peito, fere a alma
Nada acalma... peço à ela
Vem me buscar, querida...
Continuar nossa lida
Em qualquer desses lugares
Pode ser em noite escura
Ou em noite enluarada
Nos altares das estrelas
Ou nas cores do arco iris
Vou levar as mesmas flores
Que você plantou aqui
Quero andar a mesma estrada,
Calcar meus pés por aí...
Com você, minha amada...
Vem... me leva daqui...
NÓS QUATRO....
Muito bom, nós quatro juntos
Todos num mesmo quarto
Orgia? Não era, eu juro...
Mas foi tão bom, isso tudo...
E foi regado a queijo e vinho
Até choveu um pouquinho
Pra alegrar ainda mais...
A lua também fez sua parte
Aparecendo com arte...
E Baco, o Deus do vinho,
Certamente estava lá
Temendo que não sobrasse
Na taça, nenhum golinho...
Mas com razão, ah... se Baco...
Não sobrou nenhum pouquinho....
E nós, juntos, divagando
Falando de tantas coisas....
Sim, foi muito bom tudo isso...
Zeca, com suas piadas
Luiz, ouvindo quietinho
Nem tanto...ás vezes falava
Ana, dando risadas
E eu? Ah... eu, curtindo tudo
Falando de coisas sérias
E também certas bobagens
Coisas que já nem lembro
Ou nem sei porque falei
Mas... se está no vinho a verdade,
Certamente, o vinho sabe....
NÃO SOU SANTA
Santa, eu não sou
Nem tenho tal pretensão
Em mim há muitos defeitos
Minhas falhas? Sim, as vejo...
Mas busco melhorar sempre
A alma e o coração
Sinto alegria ao me ver
Na busca por melhorar
Conscientizar um defeito,
E com isso, crescer mais...
Culpas eu não carrego
Já que isso é tempo ido
Mas busco não repetir
Os erros já cometidos...
Muitas vezes meus fantasmas,
Vêm rondar a minha alma
Mando embora bem depressa
Exorciso eles todos
Não permito que me fiquem
Assombrando vida afora
Sou eu a dona da história
Sou eu, a protagonista
Escolho o melhor papel
Enceno com perfeição
Dou ênfase á mocinha
Não dou trela pro vilão
E ao descer então o pano
A estrêla se despede
Não fica esperando palmas
Porque ela bem o sabe
Que as vaias ou aplausos
Estão mesmo, dentro dela....
DESESPÊRO
Chovia...bramia o vento
Tão forte, que amendrontava
Minha alma tão criança...
E eu, correndo na chuva
Nem sentia o vento forte
Fustigando a pele jovem...
Desgrenhada, eu corria
Da morte que assombrava
Minha mãe parindo em dores
O seu filho que chegava...
Não sabia pra onde ir
Por favor...alguém me ajude
Quero o sol... não quero a chuva
Ensopando até os ossos
Castigando o corpo jovem
Da menina apavorada...
Guiada só pelo vento
No relento, madrugada...
Decerto que eu nem sabia,
Correndo, porque corria...
Socorro, pedia a alma
Na voz débil da menina...
A capela estava aberta
Deserta...os santos todos cobertos
Pano roxo...minha alma...
Encoberta... o mesmo pano...
Desnudei todos os santos
E os chamei pra ver meu pranto
Rolando, num rosto pequeno
Sedento por encontrar
A paz, no rosto dos anjos...
ORQUESTRA
Uma orquestra toca ao longe
Remetendo-me ao passado...
Meus ouvidos ouvem perto
Os sons que estão em mim
Ainda...vibrantes....incertos....
Mas tão perto que até doem
Minha alma, assim desperta
Meu presente me deleita,
Minha festa presenteia...
Traz-me distantes segrêdos
Voltando os tempos de outrora
Insegura, busco a aurora
E a encontro ainda em mim
Latente em minha senhora,
Que ao se revelar, me acorda
Me alerta pra sonhar,
Viver, sentir, desejar
Da vida, o lado sonoro
Que entranhado ainda está
Em mim... qual embrião,
Em orquestra se formando
Sugando da vida o mel
Adoçando mais ainda
O amor...cerne da vida....
SORRIR....VIVER....
Foi uma risada longa
Que ao longe, fez seu eco
Ressoou atrás os montes
Trouxe consigo, espalhando
O riso á todos que ouviram
E alegres aplaudiram,
Contagiando em sorrisos
Outros cantos, outros mares
Encantando os que passavam
Desencadeando afagos
Ternura, sonhos, amores
Favores que se trocavam
Por mais sorrisos e graças
E nesse entrelaço,
Formou-se uma cadeia
De amor... muita alegria
Paz....desejos....fantasias
E o sorrir então se fez
Transparecer nos rostos
O gosto por viver mais...
Sorrindo... vivendo.... rindo....
VELHA MENINA...
Certa vez, você passando
Mirou em mim seu olhar
Sorriu doce e ciciou-me
Não entendi o que disse
Mas senti, velha senhora...
O que você quiz dizer...
Aquilo que me falou
Pensando baixo consigo...
Pois em mim, ficou aquilo
De uma forma bem singela
E abriu em mim a flor
Do amor com que me olhou
Sei que me admirou
Viu em mim o que eu sentia...
Onde está você, mulher...
Se já estava tão velhinha....
Ah...com certeza, não mais
Se encontra entre os mortais
Da forma que eu quero ver...
Mas da forma mais sublime
Tal qual o seu doce olhar...
Querida velha...tão jovem...
Alma terna de menina
Senhora...mulher pequena...
Imensa, ficou em mim
Eu também era menina
Trocamos nosso sentir...
Nossas almas parecidas
Nos sentiamos iguais?
Perdidas...tentando achar...
Nossa alma tão sofrida..
Eu, ainda criança...
Você, velha.... e tão menina.....
OBRA PRIMA
Ela estava tão cheirosa
Bem vestida, lindo porte
Se transportava com graça
Tào jovem, tão graciosa...
Requebrava seus quadris
Sutilmente... feito onda
Mansa, silenciosa
Sem saliência, querendo...
Não querendo ao mesmo tempo
Parecer gata manhosa...
Eu a vi... outros a viram
E a olharam com gosto
Bela figura passando
Um rosto mais que perfeito
Qual seria seu defeito
Naquêle corpo esculpido
Matéria prima do barro
Desenhando, moldado
No silêncio, certa vez...
Um casal em doce coito
A fez com muito gosto
Esculpindo na surdina
Noite escura, madrugada
Ou manhã ensolarada
Não importa... dia, hora
Qual o ano, qual o mês
Obra prima, feito deusa
Moça linda... quem te fez?
CORPO E ALMA
Em sonho, vi o corpo de minha mãe
Sepultado...tão sózinho em sua cova
Se ao menos, no sonho tivesse visto
Meu pai, que descansando o mesmo sono,
Estivesse acariciando a sua morta...
Mas não...foi tétrico, aquele sonho...
Quando penso, tenho um sentir estranho
Ao lembrá-la assim tão exposta...
Suas entranhas em avidez devoradas
Imagem desoladora e profana
Mãe... profanaram tuas entranhas...
E ao me ver, soluçando em dor profunda
Me consolou, feito eu fosse uma criança
Então, surgindo bem ao meu lado
Tão igual quanto a vi nos tempos idos
Colocou as suas mãos sobre os meus ombros
E falou... porque chora, minha filha...
Não sou aquilo que você vê
Meu espírito é luz, é alegria...
E sorrindo, foi aos poucos se afastando
Vi seu vulto... tinha a sombra de um anjo...
A CARPIDEIRA
Chora a carpideira Madalena
Seu pranto é dor de pura pena
De si... já que o morto é só algém
Na cena que encena por vinténs...
Chora a carpideira Filoca
A morte já não é nenhum segredo
Desterro, no choro que invoca
Seu sofrer, é pela dor dos seus desejos...
Chora a carpideira Risoleta
O choro pelo filho que partiu
Debandou, errou, fugiu da sêca
O da outra, no caixão ela nem viu...
Chora a carpideira Idalina
O defunto já cumpriu a sua sina
Véu preto e o vestido já rasgado
Moça velha, chora o leite derramado...
Chora a carpideira Izabela
Urra... no caixão se descabela
Ganha seus trocados...não se importa
Com o choro de quem vela a filha morta...
Choram, gritam, se descabelam
Madalenas, Risoletas, Izabelas
Carpideiras encenando um choro falso
Não...o seu choro é verdadeiro...
Tão verdadeiro, quão o sofrimento delas...
FOTOGRAFIA
Olho para ela, me vejo inteira
Sou capaz de acertar seu pensamento
Nos olhinhos estalados da menina
Gorduchinha... ah... quem dera...
Desvendar nela, todos os seus mistérios...
Criancinha, feito anjo sapéquinha
Minha criança tão bravinha, doce, mansa
Infância povoada de vontades
Tantos medos, questinamentos, ah... menina....
Onde estarão seus pequeninos segrêdos....
Olho sua foto sem saudades
Vejo os seus olhinhos lacrimosos
Em você, sou capaz de ver a alma
Vem, criança... eu quero lhe dar meu colo...
Ninar, só pra ver você feliz...
Dorme em sossego, doce anjo
Sonha os sonhos dos arcanjos
Quando acordar, vai se encontrar aqui.
Crescida... acrescida... feliz da vida...
Seus mistérios, não mais serão mistérios
Sua alma caminhou tantos caminhos
E os segrêdos, ah...os seus segredos...
Se acalma, criança....não tenha mêdo...
Não revelo...são segredos....
ESTRELA CADENTE
Vejo uma estrela cadente
Meu desejo é pega-la
Traze-la aqui, e com ela
Saciar tantos desejos
Não só os meus
Mas todos os ensejos
Do mundo...
Vejo... festejo sua caída
São segundos....
Tão rápido, qual fosse
Um piscar de olhos
Um acender de luz
Reluz...
É a minha estrela
Dela me sinto dona
Caída, não me abandona
Meus desejos estão lá
Coloquei em todos eles
Os melhores pensamentos
Num piscar...
Oxalá, estrela minha...
Você traga a harmonia
O amor, fraternidade
Pra dentro de cada um...
Abra espaço...afrouxe o laço
Acenda a luz, aperte o abraço
Na alma, no coração
Reluzindo, reacendendo
A chama que já existe
Só precisa reavivar
Reacender...fazer brilhar....
O BASTARDO
Corria daqui... dali....
Ligeirinho, tinha pressa
Carriola carregada
Tão criança... pequenino
Burro de cargas da família
Foi pego aos tres aninhos
Ficou órfão muito cedo
E o casal que o adotou
O fazia de brinquedo
Quanta judiação... surras....
Tundas... e nada de dizer não
Era um menino bom
Mas estranho...
Feinho... desarranjado
Estava sempre suado
Sujo, desdentado
Mas sorria, sorria sempre
Sorriso desajeitado
Parecia pedir desculpas
Sem ter culpa...
Sua imagem não me sai
Eu também era criança...
Minha mãe o aconselhava
Que tivesse paciência
Ele dizia... vou ser padre
Um dia, vou rezar missa
Comia aquilo que davam
E as roupas se eram grandes
Ou se eram apertadas
Usava...estava bom....
Sabia agradecer
Vivia de migalhas
Os tempos eram outros
Quase ninguém se importava
Pelas crianças sofrendo
Era assim...crianças...
Só um detalhe
Elas não tinham vez
E assim se fez com ele...
Soube muito tempo depois
Que tentou ser sacerdote
Mas, por ser afeminado
Lá também foi rejeitado....
MINHA MULHER
Minha mulher tem anseios
Medos, fobias, trejeitos
Esgares, olhares feitos
Imperfeitos e bondosos
Tem olhares curiosos
Cheios de raiva
Em brasa...dispersos...
Compenetrados...
Minha mulher é manhosa
Tão bondosa....
Mas tem polvora nas ventas
Esquenta, arde, se acovarda
Retarda pra resolver
Quer sempre fazer valer...
Se entristece por pouco
Se alegra por muito menos
Minha mulher é pequena
Mas pode ter também
O tamanho que quizer
É intensa... terna... eterna....
É mulher....
TARDES
Vejo as tardes chegando
Tão mansas, prenunciando
A noite das estrelas
Companheiras dos meus sonhos
Chega a tarde, me invade
A vontade do aconchego
O desejo de esperar
A chegada de quem vem
Mais um dia que se vai...
Os cheiros doces rescendem
Dos lares, preparando
Refeições feito altares
Sagradas, consumidas
Em comunhão... orações...
União entre as pessoas
São bênçãos que a tarde traz
Entardecer... vejo a tarde
Louvando por mais um dia
Louvada seja a noite
Chegando.... vindo...
Fazendo preces...
Entoando hinos...
EU VI
Uma criança sorrindo
Um cãozinho saltitando
Um pássaro livre
Mais um dia chegando
Uma reza bem rezada
Uma fada encantada
Me dizendo para crer
No amor, no amanhecer...
Uma janela aberta
Uma alma liberta
Muitas portas se abrindo
Vi você entrar sorrindo
Pra eu amar, pra ficar
Sempre, eternamente
Ao meu lado, sem passado
Só o presente
Que me foi dado
Entregue...
Num envólucro simples
Sem nenhuma ostentação
Pensei sonhar
Não era sonho
Era você... um anjo...
Aceitei sem nem pensar
Pedi a Deus que o guardasse
Pra mim...pra vida toda
E Ele me ouviu
Eu sorri, você sorriu
Me acalentou, me amou
Me amparou
Sob o sol
Sob a chuva
Á luz da lua
Me fez sua....
LUA
Surge a lua...
Nua... despojada
Só ela... prateada
Donzela sacrossanta
Ilumina... iluminada
Fantasio nela
Um manto de cristal
À sua destra,
Um castiçal de prata
Seu manto cresce
E arrastando traz consigo
Um brilho
Nunca visto igual...
Me visto dela
Sou senhora....
Sou jovem,
Tal qual aurora...
Meu rosto,
Se deixa enfeitar...
Dela eu me visto
Seu festiço me envolve
Em teia argenta...
Toca em mim
Eu levito
Não é sonho...
É real...me transporto
Minha lua é de mim...
Fecho os olhos
Alcanço...abraço...
Minha lua é assim....
Se despe...ousa....acontece...
Não tem seg\redos pra mim
Lua...óh lua nua...
Minha amiga...veste o véu....
Me abraça...me devassa....
Me leva ao céu...
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