n. 221
SEMENTINHA
Era só uma sementinha
Jogada sem mais... ao léu...
Germinada, criou raízes
E mesmo tão mal cuidada
Cresceu forte, como poucas;
Veio um botão miúdo
Na plantinha tenra, viva
E na haste bem verdinha
Desabrochou devagar
Se tornou a flor mais bela,
Que se possa imaginar
Quem passava, observava
A flor tão desabrochada
Alguns, tentaram arrancá-la
Mas tinha na haste espinhosa,
Um jeito de defender
Aquela flor tão cheirosa...
Vinham ventos, chuvas fortes
Teve até alguns granizos
Mas a flor aguentou firme
Enfrentou muitos perigos
Não se deixou abater
Falava consigo mesma
Sou flor, e sempre serei...
Mas o seu ciclo de vida,
Tinha os dias já contados;
Ela então, dormiu tranquila
Esperou o sol nascer
E ao amanhecer o dia
Deixou que suas sementes
Se espalhassem por aí
E quando chegou festiva
A estação da primavera
Germinadas as sementes
Tantas flores tinha lá
Flores em cores mil
Enchendo campos sem fim
E assim, a bela flor
Formou imensos jardins...
n. 210
SAUDOSA ESTRADA
Na estrada onde eu passava
Uma, duas, várias vezes
Todo dia... Pra ir à escola
Vender coisas, passear
Ou ir nos domingos à igreja
Tinha um quê de mistério
Até hoje tem pra mim...
Trago viva na lembrança
Tanta história do lugar
Ficou em mim feito herança
Coisas estranhas vi, passei,
Nessa estrada misteriosa
De ventos uivando,
De chuvas formando o barro
Tão fortes que amedrontavam;
Gado passando solto
Cobras atravessando
Cães sarnentos, babando
Diziam que estavam loucos
Vez em quando uma charrete
Passava empoeirando...
Transitavam também pedintes
Pra pedir sei lá o que
Aves voavam baixo
Passavam em revoadas
Era lindo de se ver...
Os barrancos eram altos
Pra mim, que era tão pequena
Quanto esforço eu fazia
Pra varar aquelas cercas
Todas de arame farpado...
Tinha uma bica d,água
Muito limpa, cristalina
E um imenso jatobazeiro,
Dava sombra na biquinha;
Nas cercas, frutinhas bobas
Chamavam de grão de galo,
E os melões de São Caetano
Enfeitavam, davam cores
A tanto arame farpado...
Tenho saudade dessa estrada
Hoje está tão diferente
Tanta coisa deixei lá
Risadas, choros, suor...
Tantos medos tive lá
Mas sinto saudades dela
Deixei meus rastros de vida
Calcando meus pés por ela...
n.253
SOU ÁRVORE
Eu sou a árvore
Plantada, gerada,
Parida em dores,
Crescida e acrescida
Dos meus amores...
Sou ela, trocando as folhas
Abrindo em flores
Produzindo frutos doces
Tenros, amargos, travos;
Sou a semente
Preparando, gerando
Outros frutos tantos
Em risos doces,
Pesados prantos...
Sou árvore desfolhando
Cobrindo-se de folhas novas
Deitando na verde relva,
A seiva que carrega
Fortalecendo a terra
Que guarda a vida,
E o amor encerra...
Vinguei em meio às torrentes
Sou árvore de raiz forte
Não me amedronta a morte;
Deixo vidas... deixo amores
Deixo aos caules,
Verdes cores...
Aparei espinhos
Exortei as dores
E ao sugar o néctar,
Mantive as flores...
Mantive as flores...
177
SAUDADES DELA...
Um senhor me abordou
Nunca o vi...nem ele a mim
Cumprimentou-me sorrindo
Bom dia, minha senhora...
Eu olhei... também sorri
E respondi carinhosa
Bom dia, meu senhor...
Ele emparelhou comigo
Precisava conversar
Deixei então que falasse
E sem mais, ele falou:
Está vendo aquela orquídea?
Todo dia eu a visito
Tão vermelha... tão viçosa
Eu a coloquei aí
Bem no alto, presa ao galho
Pra ninguém bulir com ela;
Já é a terceira vez
Que floresce assim tão bela...
É linda... dura bastante
Tenho amor por essa flor
Comprei-a pra minha amada
Dias antes de ela ir,
Habitar outras moradas...
Tão alegre ela ficou
Com sua flor preferida
Mas ela se foi daqui
E dentre tantas belezas
Nas coisas que me deixou
Deixou- me também a flor...
É uma planta muito forte
Nem carece de cuidados
Ela também era assim
Forte... sempre foi o meu esteio
Esteve sempre ao meu lado
Tive sorte nessa vida...
Olho a flor todos os dias
Ela me traz alento
Falo com minha amada
Sempre por meio dela
E assim , eu vou vivendo...
Eu então, sem ter palavras
Dei-lhe um sorriso breve...
E consegui dizer apenas
Sim... sua flor é forte e bela...
Sai...me senti tão bem
Ter- lhe dado atenção
Quanta saudade eu vi...
Quantas lembranças belas
Tinha aquele ancião....
n. 186
Nunca o vi...nem ele a mim
Cumprimentou-me sorrindo
Bom dia, minha senhora...
Eu olhei... também sorri
E respondi carinhosa
Bom dia, meu senhor...
Ele emparelhou comigo
Precisava conversar
Deixei então que falasse
E sem mais, ele falou:
Está vendo aquela orquídea?
Todo dia eu a visito
Tão vermelha... tão viçosa
Eu a coloquei aí
Bem no alto, presa ao galho
Pra ninguém bulir com ela;
Já é a terceira vez
Que floresce assim tão bela...
É linda... dura bastante
Tenho amor por essa flor
Comprei-a pra minha amada
Dias antes de ela ir,
Habitar outras moradas...
Tão alegre ela ficou
Com sua flor preferida
Mas ela se foi daqui
E dentre tantas belezas
Nas coisas que me deixou
Deixou- me também a flor...
É uma planta muito forte
Nem carece de cuidados
Ela também era assim
Forte... sempre foi o meu esteio
Esteve sempre ao meu lado
Tive sorte nessa vida...
Olho a flor todos os dias
Ela me traz alento
Falo com minha amada
Sempre por meio dela
E assim , eu vou vivendo...
Eu então, sem ter palavras
Dei-lhe um sorriso breve...
E consegui dizer apenas
Sim... sua flor é forte e bela...
Sai...me senti tão bem
Ter- lhe dado atenção
Quanta saudade eu vi...
Quantas lembranças belas
Tinha aquele ancião....
n. 247
SOL E LUA
Em lamento o sol se pôs
Contrariado, se escondeu
Sentiu ter que deixar
De mostrar seu esplendor;
Afastar-se era preciso
Pois chegara então, a hora
De surgir cheia de graça
A linda e nobre senhora...
Sabia que a grande ninfa,
Esperava bela e pronta
Toda envolta em luz de prata
Feito fada em grande pompa...
Então, ainda em lamento,
Se ocultou, deixando assim,
Que brilhando ela surgisse
Num mar de estrelas sem fim
E num gesto de grandeza,
Pediu a ela licença
Fez profunda reverência
E entregou-lhe generoso,
Seu cetro todo dourado...
Sol e luz em união
Comunhão de amor e luz
Benditos sejam vocês
E louvado o Deus que os fez;
Ante ambos, nos curvamos
Podem vir subjugar-nos
Pois caminhamos lerdos;
Somos em nosso universo,
Ínfimos pontos de luz
Reluzimos, quando amamos
Mas no ódio dispersamos
Todo o nosso potencial
E então, recomeçamos
Tentando brilhar igual...
Bem vindo aqui, grande astro
De você o dom maior
Dar a nós, lições tão caras
De amor e humildade
Ao se despojar tão fácil
Da grandeza que é você
Pra se apequenar diante,
Da esfuziante rainha
Que ao receber o cetro
Não se vê maior ainda
Mas sabe que em si carrega,
O amor, doce magia...
O amor, doce magia...
n. 186
TAL QUAL VOCÊ
Sou rara...
Me vejo clara;
Nada me instiga,
A contar minhas mandingas...
Não tenho aparas;
Minhas escaras,
Eu as encaro nuas...
Esfaceladas...
Quando elas sangram,
Estão minando minhas tristezas...
Dilato o verbo
Faço versos...
Alguns, incertos
Outros, até gosto;
Não lido bem com a incerteza
Do que pode ser o certo
A mentira me golpeia
Desnorteia...
E certo ou errado,
O fogo apagado
Não dura muito;
São tantos os meus assuntos...
Não adultero,
E os adultérios não me interessam...
Nem julgo os adúlteros
Muito menos os seus frutos
Sou eclética
Tenho todas as igrejas
Não as frequento
Nem sou do clero...
Mas confesso que jamais
Renego meu batistério...
Não nego a fé
Nem as origens
Tenho vertigens
Quando penso em dar no pé
Por qualquer coisa
Que me aflija...
Fico, enfrento,
Não acho fácil...
Mas aguento
Tenho aqui os meus unguentos
E assim eu vou...
Firme e forte
Não temo a morte
Nem tem porque...
Não ter amarras
É minha sorte
Me vejo rara
Tal qual você...
n. 211
TRISTE LEMBRANÇA
Um estrondo muito forte
Me acordou bem assustada
Era um raio que caíra
Senti o cheiro da morte...
Tremi... fiquei abobada
Uns segundos... até perceber
Que onde eu me encontrava
Nada havia acontecido
Ninguém havia morrido...
Mas me lembrou certa noite
Quando eu, então criança
Perdi por conta de um raio
Meu bicho de estimação
Um boi branco... eu conversava
Com ele que me ouvia
O tempo que eu precisasse...
Ruminava... Eu achava que sorria
Pra mim, quando eu contava
Algum segredo das artes
Que eu sempre aprontava
Ou contava uma tristeza
Que então me incomodasse...
E atento, ele escutava
Olhava com olhos brilhantes
Me ouvia sem reclamar
Sem pressa... Já que era velho
Não tinha que trabalhar...
A gente ficava às vezes
Normalmente à noitinha
Juntos, sob a paineira
Enorme paineira velha
Que também podia ouvir
Meus segredos de menina...
Meu boi, era assim... bonzinho...
Atento ao que eu dizia
Era um tempo em que as pessoas
Não escutavam crianças
E então, elegi meu boi
De extrema confiança
Pois tudo o que eu dizia,
Ele não somente ouvia
Mas dava seu parecer
E eu então, sabia sempre,
As respostas que ele tinha...
Era sábio, o meu amigo...
Ah, meu boi... quantas lembranças
Que saudade tenho ainda
Você nunca me julgava
Achava sempre desculpas
Pra tudo o que eu aprontava...
Mas um raio o matou
Numa noite de tormentas
E ainda me atormentam
As noites de tempestades
Acordo... o vejo mortinho
Então fico na saudade...
n. 230
TEMPOS IDOS
Vem comigo, vamos lá
Voltemos aos tempos idos
Brinquemos de cirandinha
Pular corda, passa anel
Vamos juntos minha gente
É gostoso pra dedéu
Pegar macaúbas nos pastos
Jogar pedras nos telhados
Pra depois sair dizendo
Que a casa é assombrada...
Não vale quebrar vidraças
Já quebrei algumas delas
Mas não tem nenhuma graça...
Trepar pé de jatobá
Goiabeira, manga rosa
Falar mal dos coleguinhas
Inventar dor de barriga
Pra sair cedo da escola
Vale até xingar a mãe
Pegajosa, inclemente
Perdão, mãe... mas você era
Muito, muito exigente...
Vamos lá... venham comigo
Tenho abrigos por aí
No paiol cheio de milho
Ou num tronco velho e oco
Buraco bom pra ficar;
Tem também a velha ponte
Bem capenga onde às vezes
Escondidos sob ela
Espiando pelas frestas
Dá pra ver até a alma
Dos incautos que atravessam
Ah... tudo isso é bom à bessa
Vamos, venham, eu os levo
Lá no rancho da Nhá Rosa
Cabocla de alma pura
E também boa de prosa
Vai nos dar café quentinho
Com bolinho de fubá
Pão doce cheio de açúcar
Diziam que era puta
Mas isso o que importa?
Depois levo todo mundo
Pra beber água da bica
Cristalina... bem fresquinha
E continuando a lida
Desarmar as arapucas
Que o vizinho arquitetou
Soltar as aves sem culpa
E depois rir, gargalhar
Até não aguentar mais...
Vamos, eu quero mostrar
Muitos pés de melancia
E pés de melão também
Com frutos doces, maduros
Vou além, abro alguns
Ensino como se faz
Para abrir mesmo sem faca
Enfiar o pé na jaca
Comer de se empanturrar;
É noitinha, e ninguém
Vai lá nos incomodar
Venham, vamos, é gostoso
Procurar ovos no mato
Pelos ninhos escondidos
Pra jogar nos inimigos
Feito o João do sítio ao lado
Homem besta e afetado
Sem paciência com criança
Depois contar as façanhas
Pro meu boi velho e cansado
Mas de extrema confiança...
Vamos lá... é muito bom
Os levo de coração
Sei que todos vão gostar
Pois nestes tempos bicudos
Ah... como seria gostoso
Voltar aos tempos atrás...
n. 242
TIO JÚLIO
Esse tio, era irmão do meu avô
Me lembro de um homem magro e alto
Mas seu rosto se apagou
Porém, suas tristes atitudes
Ficaram em mim
De uma forma estranha
Um misto de pena e raiva
Era sovina, coitado
Regrava até a comida
Escondia num baú
Trancava com cadeado;
Seus filhos eram bem jovens
Na época em que nasci...
Morávamos todos perto
Nos fundos de um quintal
Cada família numa casinha;
Nunca, jamais me lembro
De ter ganho sequer um doce
Que fosse, desse meu tio...
A gente, sim, dividia
O muito pouco que tínhamos
Com os pobres dos seus filhos;
Meu tio era relojoeiro
E ganhava bom dinheiro
Mas de tanta sovinice
Nunca teve coisa alguma.
Sua mulher, triste sina
Morreu pedindo comida
Minha mãe oferecia a ela,
Mas ela não comia...
Diziam que enlouquecera
De tanto sofrimento;
Seus filhos amarelentos
Foram embora muito cedo
Dois deles morreram jovens
E os outros se casaram
Com o que apareceu;
Uma filha, até foi morta
Pelo marido bêbado;
Deu nela com o machado
Enquanto a pobre dormia
Deixou filhos pequeninos
Nem sei contar no que deu,
Mas o meu tio tão sovina
Morreu pobre, carecendo de auxílio
Parecia enlouquecido
Falava com o prato na mão,
Que a comida estava podre
E portanto, não comia
Morreu de inanição...
TARDES - 91
Vejo as tardes chegando
Tão mansas, prenunciando
A noite das estrelas
Companheiras dos meus sonhos...
Chega a tarde, me invade
A vontade do aconchego
O desejo de esperar
A chegada de quem vem
Mais um dia que se vai...
Os cheiros doces rescendem
Dos lares, preparando
Refeições feito altares
Sagradas, consumidas, consumadas
Em comunhão... orações...
União entre as pessoas
São bênçãos que a tarde traz
Entardecer... vejo a tarde
Louvando por mais um dia
Louvada seja a noite
Chegando.... vindo...
Fazendo preces...
Entoando hinos...
Vejo as tardes chegando
Tão mansas, prenunciando
A noite das estrelas
Companheiras dos meus sonhos...
Chega a tarde, me invade
A vontade do aconchego
O desejo de esperar
A chegada de quem vem
Mais um dia que se vai...
Os cheiros doces rescendem
Dos lares, preparando
Refeições feito altares
Sagradas, consumidas, consumadas
Em comunhão... orações...
União entre as pessoas
São bênçãos que a tarde traz
Entardecer... vejo a tarde
Louvando por mais um dia
Louvada seja a noite
Chegando.... vindo...
Fazendo preces...
Entoando hinos...
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