sábado, 13 de junho de 2015

CORREÇÕES SEGUNDO LIVRO LETRA E a I



ENXURRADA - 80

Que pena da Filomena
Perdeu marido na enchente
Água corrente levou
Enxurrada de dilúvio
Encontraram bem depois
O pobre enroscado em galhos
Virou entulho...ah, pecado...
E ele tanto trabalhou...
Bem agora que o coitado
Ia descansar um pouco
Do sufoco dessa vida
Nem bem se aposentou...
Ai, meu Deus, ela dizia

Bem que eu não devia
Ter pedido pra ele ir
Buscar pão na padaria
Naquele tempo tão feio
Prenunciando tempestade
Mesmo que na verdade,
Ele gostasse de pão,
Pra comer junto com  sopa...
Ela estava  tão quentinha...
Preparada...esperando
Por ele...coitadinho...
Ah...que triste...que saudade....
Não aguento não, comadre
Essa dura solidão...
Meus filhos vêm toda hora    
Pra me ver... me perguntar
Do que é que eu preciso
Aí choro feito doida
Me debruço, me debulho
Não seguro tanta dor
Era tanto nosso amor...
Eles vêm, me abraçam forte
Mas a morte levou de mim
O bem tão precioso
Que a vida me legou...
Todos esses anos juntos
Pra depois virar defunto
Assim... sem mais....
Numa tão besta enxurrada...
Estranha demais essa vida...
Eta vida danada.....
ESTRANHA CRIATURA - 45
Certa vez, na mesma estrada
Onde sempre eu passava
Vi estranha criatura
Espiando em meio ao mato
Nem grande, nem tão pequena
Porte médio, parecia gente anã...
Emitia um ruído baixo
Espiava... e quando olhei,
Pareceu querer fugir
A estrada era vazia
Quieta, onde só se ouvia
Algum mugido de boi
Ou o trote de cavalos
Que também pouco passavam
Fiquei paralisada
A coisa andava de quatro
Ficava também em pé
Sei que não era macaco
Demorou alguns segundos
Pra eu conseguir correr
Já estava perto de casa
E nem abri a porteira
Passei rolando por baixo
Sujei roupas e cadernos
E quando minha mãe perguntou
Porque estava assustada
Não lembro o que respondi
Não contei isso a ninguém
Nem saberia explicar
Não iriam acreditar...





ELE ELA - 77

Ela esperava por ele
Ele não vinha
Ela chorava
Ele se ria
Ela implorava
Ele tampouco via
A dor dilacerando, 
A vida sofrida
O amargo na boca,
Só ela sentia...
O peito sangrando, 
A fome dos beijos
O eterno desejo...
Saudade chorada
Cansada, doída
Uma sede danada 
Do amor que não tinha...
Então ele veio...
Matou seus desejos
Cobriu-a de beijos
Prometeu voltar...
Deixou esperanças
Levou seu melhor
Brincou de querer
Pantou a semente
Matou sentimentos

Seu fruto no ventre
E pela tangente
Saiu, não quiz mais
E ela menina
Meu Deus... quanta dor
Que triste a sina
De se apaixonar
Por aquele homem
Que achou fosse nobre
Mas não... era reles
De espírito pobre...


ELA PASSOU - 54

Ela não passa mais
Todo dia, à mesma hora
Por aqui, pelos lugares
Onde passava outrora...
Ela já nem mora aqui
Saiu cedo, foi embora
Trocou as vestes banais
Por outras mais informais...
Caprichou no visual
Era mulher tão bela...
Vestiu branco, vestiu luz
Reluz alegre seu manto
Flutua leve... pairando...
Não está mais entre nós...
Brilhou tanto seu sorriso
Hoje faz sorrir os anjos
Baila o seu doce bailado
Qual fossem anjos dourados
Bailando na imensidão...
Viaja pelas estrelas
Faz mais belo o céu azul...
Ás vezes me sopra leve
Uma brisa tão sutil
Pode ser que seja ela...
Me alegra imaginar
Que pode mesmo ser ela
Me dizendo que é feliz...


161
ESTRELA CADENTE
Cai a estrela
Ardendo em luz
Firmo os olhos no espetáculo
Segundinhos... no máximo...
Meu desejo é apanhá-la
Trazê-la aqui bem perto;
E com ela,
Saciar qualquer desejo
Não só os meus...
Mas todos os ensejos
Do mundo
Em alguns segundos...
Ah...tão bela...
E tão rápido ela cai
Num piscar de olhos
Num acender de luz...
Reluz... A faço minha
Sou sua única dona
Ao cair, não me abandona;
Meus desejos estão lá;
Condensei em todos eles,
Os melhores pensamentos
E num relâmpago
Num istmo de tempo,
Convoquei o mundo inteiro,
Pra então participar...
Oxalá, estrela minha
Deusa luz
Deusa rainha
Você traga a harmonia
Pra dentro de cada um;
Abra espaço
Afrouxe os nós
Acenda luzes em nós
Aperte forte o abraço
Na alma e no coração
Reluzindo, reacendendo
A chama que já existe;
Só precisa reavivar
Acender...
Fazer brilhar...



EU VI  - 34

EU VI
UM HOMEM ANDANDO SÓ
PELOS CAMPOS TROPEÇANDO
EM MEIO À TERRA ÁRIDA
À PROCURA DE UM LUGAR
ONDE HOUVESSE ALGUM SINAL
DE PLANTAÇÃO QUE LHE DESSE
QUALQUER COLHEITA QUE FOSSE...
OLHAVA LONGE, SUADO,
PERDIDO NO OLHAR CANSADO
DE VIVER TANTA INCERTEZA...
TINHA NA ALMA A BELEZA
DOS HOMENS SIMPLES DA ROÇA
NO CORAÇÃO, A LEVEZA
DE QUEM AMA SEM TER PRESSA...
E NO CORPO JÁ CANSADO,
AINDA RESTAVA A FLAMA
DE CONSEGUIR SEUS BOCADOS...
NO FALAR, TINHA ESPERANÇA
MAS NO ROSTO ACABRUNHADO,
EU VIA O SEU SOFRIMENTO
DESALENTO NA POBREZA;
SUA VOZ UM TANTO CALMA,
PASSAVA A MIM E AOS OUTROS,
A CERTEZA DA PRESENÇA
DO HOMEM BOM, INOCENTE
APEGADO À SUA CRENÇA
DE UM DIA MELHORAR,
NOSSA CONDIÇÃO DE VIDA...
GRANDE PAI TRABALHADOR...
NUNCA PENSAVA EM SI...
HOMEM RUDE, MÃOS CALOSAS
TINHA SEMPRE O OLHAR DISTANTE
BUSCANDO NA SECA INGLÓRIA
OU NA ENCHENTE IMPIEDOSA,
RESTOS DO QUE SOBRASSE
DAS SEMENTES QUE PLANTARA...
AH, MEU DEUS... QUADRO MAIS TRISTE...
TANTAS VEZES PRESENCIEI...
QUANTAS COISAS MAIS EU VI
SIM, EU PERCEBIA COMO NINGUÉM
O SEU CONSTANTE SOFRER....
MAS VOCÊ, MEU PAI,VENCEU
RESISTIU...PLANTOU... COLHEU
DAS ÁRVORES QUE SEMEOU...
POIS VIVEU PRA ASSISTIR
AMADURECEREM OUTROS FRUTOS
QUE A VIDA GENEROSA
PERMITIU QUE ENTÃO COLHESSE...
SOU GRATA À VOCÊ, PAPAI...
ERA ASSIM QUE EU LHE CHAMAVA
EU, E MEUS NOVE IRMÃOS,
QUE POR SUA DESCENDÊNCIA,
PERMANECEMOS DANDO GRAÇAS
A VOCÊ, HOMEM TÃO BOM...

167
ESTRADA.

Vi na estrada esburacada
O trote da égua mansa
Tão branquinha...tão mirrada...
Cansada de tanta andança...
Eu vi na baixa da estrada
Charreteiro andar depressa
Buscar ligeiro a parteira
Pra aparar o seu rebento...
Vi chuvas tempestuosas
Também vi muita poeira
Vi criança apavorada
Passando pela porteira
Chorando, pisando espinhos
Pra correr da vaca prenha....
Eu vi num homem enfermo
A própria imagem do demo 
Roto, sujo, esfarrapado
Feito louco ensandecido...
Eu vi por sob a ponte
Um casal de andarilhos
Gemendo um gemido rouco
Fazendo talvez um filho...
Vi na cerca de arame
Espinhenta, carregada
De melão de São Caetano,
Um neguinho encostado
Parecia estar mijando
Mas não era nada disso
Neguinho me viu passar
E completou seu serviço...
Eu vi coisa, muita coisa
Que até mesmo Deus duvida
Vi gente matando cobra
Vi cobra enfurecida
Dando seu bote certeiro
Um bote quase mortal
Também vi tão desvalida
Criança nascer com vida
Pra depois de poucos dias,
Fenecer de qualquer mal...
Vi enterrar caixãozinho
De criança, em cova rasa
Vi secar bicho de pé,
Queimando com ferro em brasa...
Vi na beira de uma estrada
Longe, bem longe daqui
Um cabra vendendo cobra
Menino vendendo cabra
E outro vender pequi...
Eu vi vaca atolada
Querendo sair do brejo
Vi gente chutando cão
Cometendo sacrilégio...
Vi na estrada, um homem velho
Sem saber pra onde ir
Vi um moço carregando
Na garupa do cavalo
Uma santa enfeitada
Pra pagar uma promessa
É... eu vi coisas a beça...
Vi um boi puxando carga
Tão pesada, feito chumbo
Pobre boi...tão triste estava
Carregava em si, o mundo...
Vi um cachorro em sarnas
Sendo comido vivo
E ví muita gente má,
Sofrendo os seus castigos...
Eu vi em noite de lua,
Um homem dependurado,
Enforcado numa corda.
Valei-me, Jesus amado
Quanto medo, que horror
Vi tanto, que nem me lembro
O que vi, o que não vi
Mas se for contar aqui
É bem capaz de pensarem, 
Que de ver, enlouqueci...

ESPANTALHO - 81

Um assobio estridente
Atravessou a estrada
Assobio de morte...
Vi a morte atravessada
Pendurada no galho
Balançando o espantalho
Roxo, azul, transfigurado
Desfigurado, esquisito
Aquele apito me fere
Até hoje... nunca mais
Saiu de mim...
Nem sei de onde,
Veio forte o assobio
Corri feito mulher doida
Atravessei meu caminho
Nem senti pisar espinhos...
À noite eu acordava
Sonhando...aquele rosto
Tão roxo no corpo mole
Balançando... ventania
Dia, noite...todo dia...
Por favor, meu pai.
Me acode...
Tenho medo, 
Me liberta daquela corda...
Sufocando, balançando
Agarrada ao homem morto
Me sufoca na garganta
Pai, me acorda....
Me livra daquela corda....


FANTASMAS DE MIM - 01

Meus fantasmas
Me rondam vez em quando
São desumanos...
Permito às vezes
Que eles venham me assombrar
Mas nada mais...
Quando eles chegam,
Eu os encaro
São fantasmas loucos...
E são poucos,
Mas teimam em ficar...
Me espreitam
Chegam sedentos
Pra me ver chorar...
Eu os exorto que me deixem
Lido com eles,
Como se fossem feitos de vento
Nunca, um vendaval...
Devagar, os afugento
Não lamento quando chegam
E quando menos espero,
Eles se vão
Como se passassem
Pelos vãos dos dedos,
Todos os meus medos...
E então,
Me sinto livre...
Nunca tive a pretensão
De me livrar de todos eles
Para sempre...
Pois certos fantasmas
Fingem que se foram
Mas deixam sementes...
Sim... é preciso encarar
E nunca, nunca regar
Deixá-las murchar
Pra não formarem brotos
E saírem por aí,
Me assombrando feito loucos...


FOFOCA NA ROÇA - 82

Candoca acordava cedo
Fazia tudo correndo
Tanta pressa
Serviço malfeito
Acabava depressa
Tinha a língua afiada
Saía de casa
Rezava  pros santos
Não vão por quebranto
Na sua beleza;
Conversava com todos
Tinha muitas comadres
E não por maldade,
Mas ia dizendo
O que dava na telha
Vi ontem o compadre
João da Belmira
Olhando comprido 
Pra sua vizinha
Aquela... a Cidinha
E falava, falava
Que língua é pra isso
Não para na boca...
Cabocla de peitos,
Trejeitos, esgares...
Quem diz que a Candoca
Faria uma troca
Com a vida que tinha...
Diziam na roça
Que era um pitéu
E o seu coronel
Senhor Zé dos Anjos
Caboclo maneiro
Dava tudo pra ela
Vestidos de seda
Sapatos de saltos
Requebra, requebra,
Ia longe a Candoca
Levando as fofocas
Parando nas casas
Na venda do Tonho
Despejava miúdo
O que nem sabia
Com finta de anjo        
Falava, contava...
Seu Tonho...não liga...
Vai ver é só prosa
O que andam falando
Da comadre Rosa....
E tem a Mercedes
Com cara de santa
Mas mal se levanta 
Já fez suas tranças 
E vai pra janela....
E a vaca da Zefa
Que vive rezando
Já deu o que tinha
Nem é mais donzela...
Candoca, Candoca
Você tão bonita
Me lembro tão bem
Mas era um perigo
Falavam contigo
Tomando cuidado
Diziam...coitado
Do seu Zé dos Anjos
Tem mulher sabida
Tão bela e fogosa
Mas tão venenosa....


n. 229
GOSTAR DE MIM...

Gosto de mim... assim...
Do meu jeito
Meio insano...
Mas humano...
De tudo, eu tenho um pouco;
Sou até poeta louco
Meus personagens me atraem
Visto todos...
Até os tolos
Eles me cabem
Me fazem bem
E vou além...
Rio deles,
E eles de mim
Rio muito...choro à toa
No vácuo de outras pessoas
Me entrego;
Não ligo pra convenções
Nem lógicas;
Sou incerta
Mas decerto,
Que procuro acertar...
Meus destrambelhos
Não servem de espelho;
Nem aconselho que me sigam
Mas mesmo assim,
Que venham comigo
Todos...
Sem exceção;
Abro alma e coração
Até aos menos aconselháveis...
Não me amedronta quem venha
Que entre...
Ninguém é descartado
Nem descartável
Mas não tenho a pretensão
De mudar minha intenção;
Não tente dar lição
Nem queira mudar os rumos
Daquilo que eu tracei;
Nem ao menos pretenda,
Que eu me emenda...
Torço o nariz
Pra quem diz
Que sem o outro,
Não é feliz...
Está em mim
O bem e o mal
O mel, o sal...
Sou alma viva;
Minhas feridas,
Eu curo aos poucos...
Reinvento a vida
Remexo, mexo
Me encontro viva;
Em paz me acho
E os meus escrachos,
São meus disfarces;
Nos desenlaces
Me vejo triste...
Não gosto de dedo em riste
Apontado para mim...
Relevo até desaforos
Vez em quando
Mas mesmo nas sandices,
Me comando...
Afinal, sou de mim;
Que mal existe
Em me gostar...
Gosto de mim
Sou mesmo assim...


n. 189
GRANDE MULHER
Eu a vi passar sorrindo
Carregando um peso enorme
Disforme a carga nas costas
Da pobre e velha senhora...
Banguela... cabelos ralos
Tão brancos que até luziam
Mancava, sentia dores
Não queria demonstrar
Então, sorrindo passava
Olhando pra todo lado
E ao ver qualquer vivente,
Dizia em tom contente:
“Que o bom Deus seja louvado”...
Lavava roupas pra fora
Como se dizia então
Criou assim os seus filhos
Enviuvou muito cedo
Enfrentou tudo sozinha
Contava não ter segredos
Para as suas alegrias;
Tinha só boas lembranças
Da vida de tantas lidas
Herança, eram seus filhos
Bem maior não deve haver
Criei sete, ela dizia
No batente do tolão
Tirando água de poço
Fabricando meu sabão...
Certa vez ela me disse
Sentir saudade dos tempos
Quando então suas crianças
Brincavam ao seu redor
Mas agora já cresceram
E aqueles bons momentos
Ficaram só na lembrança
Porém, sentia-se bem
Cuidando da própria vida
É assim, falou-me então;
Cada um com sua sina
Nossos filhos não são nossos
E já que trazê-los não posso
De volta para o meu ventre
Vou seguindo assim meus dias
Feliz e agradecendo
Enfrentando meu batente...

n. 183
GOSTARIA DE SABER
Como vai você...
Menino da minha infância
Deixou em mim as lembranças
Foi pra nunca mais voltar...
Como vai doce criança...
Que eu às vezes fiz sofrer...
Você foi, levando em si
Nossos dias de brincar
Levou os tantos sorrisos
Partiu tão cedo daqui
Carregando meus segredos
Que brincando, falei sério
Pequenos nossos mistérios
Grande o nosso amor...
E você, meu menininho,
Foi e deixou o ninho
Construído nas lembranças
Da criança que te amou;
Onde estará você?
Habitas hoje o quê?
Gostaria de saber...
Sei que ainda estás em mim
E eu... continuo em você?


n.231
GIRASSÓIS
No lugar onde eu passei
Tinha muitos girassóis
Tão amarelos...
Deslumbrantes feito o sol...
O mesmo que faz girar
A flor, que acompanha
O caminhar do astro rei...
Era lindo aquele campo
Quanto encanto em uma flor...
Girassol dos meus encantos
Dos meus tempos de menina;
Tenho em mim tantas lembranças
Dessa flor da minha infância...
Tinha sempre no quintal
Da casa bem pobrezinha
Enfeitando, dando vida
Ao meu mundo tão pequeno
Tão restrito, diminuto
Ficando essa flor pra mim,
Como algo muito grande
Muito mais interessante
Que as outras que haviam lá...
Minha mãe a cultivava
Em meio a outras tantas
Mas nunca, nenhuma delas
Deu a mim aquele encanto...
Ela apanhava maços
De outras flores
Pros seus santos
E eu me intrigava tanto
Que ela nunca apanhasse
Um girassol que fosse
Pra enfeitar o seu altar
Mas ainda me recordo
De uma vez que fui com ela
Velar um anjinho morto
Fiquei intrigada ao vê-la
Apanhar seus girassóis
Pra enfeitar o menininho
Ela chorava muito
E eu, tão criança ainda
Pensava que aquele choro
Fosse por pena das flores
Mas, muitos anos depois,
Compreendi que ela chorava
Pelos seus dois filhos mortos
Ainda tão pequeninos
E que, ofertou os girassóis
Pra mostrar sua gratidão
Naquele imenso carinho
Pois outros já haviam enfeitado
Também os seus dois anjinhos...



NÚMERO 501
HALLOWEEN
Crianças passam sorrindo
Param, olham, ficam tempo...
Observam alegrinhas
Os enfeites que coloco...
Me perguntam: Vai ter festa?
Eu respondo: Vai ter doces
Aqui mesmo... vem pegar...
Vou pôr mesa enfeitada
Pirulitos, doces, balas
E luzinhas pra alegrar
Quero ver vocês aqui
Podem vir fantasiadas
De bruxinhas e bruxinhos
E venham bem animadas...
Podem vir com qualquer roupa
Mas venham pra minha oferta...
Não tem coro nem orquestra
Mas tem as minhas risadas
E o riso de vocês...
Venha mesmo, criançada...
Trazer aqui seu cantar
Sua doçura e encanto
E a energia dos anjos
Pra eu poder me alegrar...
Venham, lindas criancinhas
E tragam toda a alegria...
Deixem em minha casa
O som lindo das risadas
E também os seus anseios
Deixem todos os seus medos...
Tantos beijos quero dar
Quantos meus lábios tiverem...
E ao beijá-las, não me neguem
A promessa de voltar...


IPÊ FLORIDO - 58

Sob um ipê florido
Crescido em meio a pedras
Me sentei, fiquei ali
E vendo flores tão belas
De um amarelo dourado
Fiquei tempo meditando
Pensando no meu presente
Recordando meu passado
Tinha urgência de pensar...
A cada instante, uma flor
Caia perto de mim,
Algumas em meu colo
Outras forravam o solo
Deixando o chão colorido
De um amarelo nítido.
E caiam... e caiam...
Sem pressa...bem devagar
Cheguei a me emocionar...
Comparei à minha vida.
Me vi semente brotando,
Crescendo em meio às intempéries
Sol, chuva, tempestades
Poucas brisas de passagem
Mas a plantinha, mesmo assim
Crescia em meio às pedras
Se formando aos empurrões
Porém firme, raízes fortes
Tronco de belo porte
Folhas verdes dando vida
Aos seus galhos gananciosos
Por viver, se enfeitar...
E assim, sem mais,
Forrou-se de botões
Que ao se abrirem

Muito embora
Alguns tentassem cerceá-las
Elas foram bem além...

E a árvore ficou forte,
Aos poucos, foi dando frutos
Não cansou de florescer...
Fiquei pensando...pensando..
Qual árvore seria eu...
Ipê, acácia, mangueira...
Amoreira, sapoti...
Amo as flores, amo os frutos
Então escolhi ser todas
As árvores que há no mundo...

N. 192
INFÂNCIA
Eu brincava de casinha
Cabra cega, passa anel
Brincava de amarelinha
Alcançava sempre o céu
Inventava piqueniques
Pulava carniça
Brigava por nada
Brincava de bater pique...
Craque no esconde-esconde,
Difícil mesmo, era me achar...
Eu ria até me acabar
Pulava corda
Cantava na roda
As pernas doíam, mas eu nem ligava...
E brincava, e brincava
Aproveitando bem
Quando à noite me deixavam,
Ter momentos de lazer...
De dia, trepava na cerca
Sempre atenta,
Pra espiar o meu vizinho
Tomar banho peladinho
Lavando com sabão duro
Suas partes penduradas...
Chuveiro lá fora
Memória de tudo
Vizinha peituda
Vizinho parrudo
Chiqueiro fedendo
Miséria de vida
O sol me queimando,
E eu inda lá
Trepada na cerca
Me equilibrando
Magrinha, que só...
Espiando, espiando
Ninguém nunca viu
Dá até arrepios
Pensar no pior
Ai, ai, se alguém visse
A vara comia
Cantando nas pernas
Mas eu preferia
Correr qualquer risco
Pra olhar meu vizinho
Parrudo, pelado
Puxar da cisterna
A água pro banho
Achava engraçado
O bilau balançando
Vizinha chamando
Genésio, meu bem
Me espera um pouquinho
Que eu já vou também...
E lá iam eles
Mas minha atenção
Era só pro Genésio...
Depois confessava
O meu sacrilégio
E o padre dizia
Não faça mais isso...
Mas nada adiantava
Ganhar penitência
Eu tinha ciência
Da minha fraqueza
Rezava ajoelhada
Dez ave-marias
Voltava pra casa
Trepava na cerca
E caía em pecado
No mesmo dia...






INCOMODA - 37
Ah...Como incomoda
Ver o outro feliz
Meter o nariz
Onde não é chamado...
Incomoda o certo e o errado
O amor pro mal amado...
Incomoda nada deixar
Ou deixar muitos legados;
Incomodam os que têm,
Muita sanha em obter
Assim como incomodam
Aqueles que nada têm...
Incomoda aquilo que fica
Para quem nada deixou
Assim como incomoda
Tudo aquilo que ficou...
Incomoda o bem viver
Para os que vivem mal
O jovem incomoda o velho
O açúcar incomoda o sal...
Incomoda o cantar triste
E as mais belas toadas
O cricrilar do grilo
E o estridente da cigarra...
A noite incomoda o dia
Quando chega enluarada
O dia incomoda a noite
Com a luz escancarada...
A seca incomoda o rio
A água, o alagado
O calor incomoda o frio
Com o sol acalorado...
O bem incomoda o mal
E o mal incomoda o bem
Incomoda a desordem
Aos que são organizados,
Assim como incomoda,
A ordem pro desleixado...
Incomoda aos que não sabem
Aqueles que têm saber
Incomoda aos mais fracos
Os que buscam o poder...
Incomoda o amanhã que chega,
O ontem que já passou
Incomoda a noite escura
O dia que já chegou...
Incomoda o som alegre
Da criança em algazarra
Incomoda a nostalgia
Da viúva inconsolada...
O alegre incomoda o triste
E o triste incomoda além
O insatisfeito se incomoda
Com o que não lhe convém...
O bonito incomoda o feio
O feio incomoda o belo
As cores se incomodam
Com o forte do amarelo...
O cabeludo incomoda
A cabeça do careca
O peão se incomoda
Com o jogo da peteca...
O rancor muito incomoda
O inclemente rancoroso
A raiva incomoda muito
O ímpeto do raivoso...
O ódio muito incomoda
Aquele que odeia o outro
Mas o amor que é o inverso
Do sentimento odioso
Nunca, jamais incomoda
O sentir do amoroso...

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