sábado, 13 de junho de 2015

CORREÇÕES SEGUNDO LIVRO LETRA J a M





Número 195

JÓIAS PRECIOSAS

Tantos amigos eu tenho
Fico feliz quando os vejo
Sou muito grata por tê-los
Sinto saudade, abraço, beijo
Gostaria que viessem
Me cercassem todos eles
E me enchessem de afagos...
Amo quando os abraço
Se felizes eles são,
Ou se felizes estão
Quero que deem a mim
Um pouco dessa alegria
Pois a minha eu lhes dou
Passo a eles o que tenho
Amor, paz, minha ternura
Dou-lhes minha energia
Faço as trocas que puder
Recebo com gratidão
Qualquer amor que vier
Pois, vindo do coração
É sempre muito bem vindo
O amor que ele me der
E o amor que eu recebo
Transformo em abraço e beijo
Distribuo e quando vejo
Tudo em mim ficou melhor
Sigo em frente... amo a vida
Meus amigos são meus bens
Que permanecerão comigo
E quando eu daqui partir
Vou levar todos em mim
Pois são jóias preciosas
Que a vida me legou
Sim... vou levá-los em espírito
Porque são parte de mim...

n. 222
JOÃO E ROSA
Tinha lá uma casinha
Bem no meio do cerrado
Nem sei bem o que era aquilo,
Mas era mata fechada
E às vezes que eu ia
Com meu pai pra buscar lenha,
Passávamos pela casa...
De longe se via a fumaça
Saindo da chaminé
E eu ficava torcendo
Pro meu pai passar por lá
Dona Rosa e seu João,
Faziam festa pra nós
Diziam: Deus é louvado...
Achava aquilo engraçado;
Via a alegria estampada
No rosto daqueles dois
Faziam a gente comer
Do pão quente feito em casa
Depois, a Rosa dizia
Esse é “mor di uceis levá”...
Parece que eu adivinhava,
Que “uceis ia passá”...
Fiz a mais... não me faz falta
Somos só eu e o João
Meus filhos demoram vir
E meus netos, então...
Têm lá a vidinha deles
Aqui, quase não vêm não...
Ah... e a Rosa fazia café
Colhidinho no quintal
Tão gostoso... Nunca mais bebi igual
Rosa, minha amiga linda
Lembro de você ainda
Dando suas baforadas
No seu cigarro de palha
Tirada do milho que o João
Cuidava com tanto orgulho
E o fumo, tinha uns pés
Bem no fundo do quintal
Uma vez você mostrou
Como fazia pra deixar
As folhas se tornarem
Corda de fumo
Que era fabricado
Só para o seu consumo...
Tenho sodade docê
Rosa, muié tão boa
Era assim que se dizia
Pelas bandas lá da roça
Rosa, João... João e Rosa
Gente simples, boa gente
Eu amava vocês dois
Sempre bem, sempre contentes...


n. 255
LEVA O VENTO
Vento que passa
Forte... assobiando
Arrastando
Levando embora
Sem sequer olhar pra trás...
Ah, vento... leva num zás
Num átimo de tempo
Tudo o que incomoda...
Leva pra longe
Tudo aquilo que eu não quero;
Leva a dor
Leva a angústia e o flagelo
Leva o feio, deixa o belo...
Leva a mágoa,
Deixa a marca do perdão
Leva leve o coração
Pra bem perto do lugar,
Onde haja a comunhão
E o afeto entre as pessoas...
Leva as almas boas
Pros altares
E que ao louvarem
Demonstrando gratidão,
Se libertem dos pesares
E qualquer tribulação...
Vento forte... leva longe
Qualquer morte
Que venha fora de hora;
Leva embora a dor da tristeza
Traz às almas, a nobreza
Leva a guerra... Deixa a paz
Leva os ais...




LUA - 85


Surge a lua...
Nua... despojada
Só ela... prateada
Donzela sacrossanta
Ilumina... iluminada
Fantasio nela
Um manto de cristal
À sua destra,
Um castiçal de prata
Seu manto cresce
E arrastando, traz consigo
Um céu de brilhos
Nunca visto igual...
Me visto dela
Sou senhora....
Sou jovem
Tal qual aurora...
Meu rosto
Se deixa enfeitar ...
Dela, eu me visto
Seu feitiço, me envolve 
Em teia argenta...
Toca em mim
E eu levito 
Não é sonho...
É real...me transporto
Minha lua é de mim...
Fecho os olhos
Alcanço...abraço...
Minha lua é assim....
Se despe, ousa, acontece
Não tem segredos pra mim
Lua...oh lua nua...
Minha amiga... veste o véu
Me abraça... me devassa...
Me faz sua

Me leva ao céu...



LIVRES POEMAS - 29

Canto livre meus poemas
Com a linguagem da alma
Vou contando minhas tramas
Velhos traumas...velhos dramas
Tão antigos sofrimentos
Que o tempo e os bons momentos
Se encarregam de apagar...
Canto as glorias e as vitórias
Conto o que acho ruim
E da forma que me sai,
Deixo sair de mim
Feito águas brotando
Das minas jorrando fácil
Ou feito flores que abundam
Generosas nos jardins...
Falo da vida... lida...
Lido bem com tudo isso
Falo de um céu escuro
Ou de noites estreladas
Da chuva, do vento frio
Dos vendavais que surpreendem
Até as almas penadas...
Falo do amor sem dor
Aquele que todos querem
Falo da dor do amor
Aquele do faz de conta
Já que amor que é amor
Ama o amor que não fere....
Falo do ser humano....
Desumano, insensato
Do pavor do ódio insano
Falo do riso e o pranto
Do cotidiano simples
Das pessoas livres... boas...
Que se importam com o bem
Falo também das raças
Das graças e desgraças
Do preconceito caquético
Que nada tem de poético
Conto o que me convém
Reconto o mesmo conto
Se acho que me faz bem
Tudo me vem em versos
Rimo até sem querer
Ás vezes rimar não quero

Mas é em rimas que me vem.....



LEMBRANÇAS - 33

Quando eu era bem criança
Nossa casa velha e pobre
Ficava numa baixada
Em meio a duas estradas...
Em frente a ela,
Havia uma cerca baixa
Onde à tardinha,

O gado manso se encostava
E ficava ruminando
As palhas que eu lhes dava...
Depois, se juntavam
Sob uma paineira enorme ;
Saudosa paineira velha,
E na imensa escuridão,
Eu ficava observando
Os seus olhos reluzentes
Feito luzes flutuantes...
Tinha também vaga-lumes
Passeando... brilhando forte
Querendo me confundir...
Eu ficava procurando
Discernir naquelas luzes
Os olhinhos do meu boi
Meu então melhor amigo...
Era fácil, pois eu sabia
Onde ele se deitava
Era tão velho, coitado...
Branquinho, que até luzia
Porém, seus olhos,
Já não brilhavam tanto...
Nem mais puxava o arado
O meu boi era encantado...
Às vezes eu até dormia
Rente à porta, só olhando,
Observando a serenidade
Daqueles dóceis animais
No descanso merecido...
Certa vez, uma vaquinha,
Deu cria ali na minha frente
Achei tudo muito estranho...
Eu achava a vida triste
Então queria ser um deles;
Me juntar na mansidão
E no silêncio da noite,
Contar praqueles amigos
Tudo o que me afligia;
Abrir bem meu coração
Dizer tudo o que viesse
Sem medo, sem restrição;
Eles sim, me entenderiam...
Sim... eu queria ser um deles
Pra encostar minha cabeça
Na cabeça do meu boi...
Não guardar nenhum segredo....
Nem me arrepender depois...


LOUCURA - 04

Minha loucura
Permanece aqui
Não me esquece
Também não me censura
Mas me serve de arrimo
No limo escorregadio
Sem corrimãos...
E eu dou trela;
Às vezes até provoco...
Tenho a loucura dos poetas
E a sanidade que me alerta
Mostrando as setas
Que geralmente,
Eu não gosto de seguir...
Ah... a loucura que é de mim,
Ninguém a tem
E nem convém...
Só eu, sei lidar com ela...
Deixo-a livre,
Abro janelas
Mas ela permanece;
E quando vez ou outra
Finge que me esquece
Eu volto a ela
E dela, eu sorvo
As gotas que me convém
Sim...
Essa loucura me faz bem...
A sanidade, quando aparece
Me aborrece...
Não me acostumo a ela
Nunca fui sã pra valer
E não é agora,
Que pretendo ser...


n. 227
MOLEQUE
Preguiça, vaquinha leiteira
Deus cria um bezerro branco
Igualzinho à sua mãe;
Preguiça ficava perto
Ninguém podia chegar
Bezerrinho tão esperto
Logo, logo já corria
Pelo pasto pra brincar;
Eu amava o animalzinho
Alisava seu pelo sedoso
E a mãe já nem ligava
Que alguém chegasse perto
Eu até montava ele
Que logo me derrubava
Batizei-o de moleque
Se acostumou comigo
Vinha bem perto da cerca
Que divisava a casa
Foi crescendo... desmamou
E mais ainda procurava
Pelo milho que eu lhe dava;
Moleque chegava em mim
Esperando meus afagos
Sua mãe já abandonara
O seu filho desmamado...
Por isso o meu moleque
Se tornou meu grande amigo
Mas um dia, vi levarem
Meu amor, puxado a laço...
Chorei, gritei, nem assim,
Alguém veio em meu encalço
Moleque foi morto sem pena
Com uma paulada na testa
Pra se tornar churrasco
Numa festa de casório;
Preguiça não era nossa
Tinha sido emprestada
Pra nos suprir de leite
Nem moleque era nosso
Que fazer... só aceitar
Mas eu nunca aceitei
O que fizeram comigo;
E muito pior com ele,
Meu saudoso e doce amigo...



MINHA AMIGA PROSTITUTA

Ela era prostituta
E posso dizer sem culpa
Que fui das poucas pessoas
Tidas como "gente séria"
Que a ouvia sem pressa;
Íamos juntas à missa
Quase sempre que sozinha,
Passava em minha casa;
O caminho era longo
E a gente conversava
Na ida, e na volta;
Eu era mocinha, ainda
Mas ouvia com carinho
Suas revoltas, mazelas...
Alguns, viravam-lhe a cara
E beatas se benziam
Quando na igreja ela entrava;
Não davam lugar no banco
Olhavam-na de soslaio
Mastigando orações;
Eu fechava bem a cara
Àquelas feias senhoras
Erguia minha cabeça
Me sentava, e dava um jeito
De arrumar lugar a ela...
Certa vez lhe perguntei
Porque não tomava a hóstia
Ela disse não poder,
Comungar do mesmo Deus;
Um Deus que era de todos,
Menos dela...
Quando ia confessar,
Não davam absolvição;
Vá em paz, dizia o padre
E não peque nunca mais...
E que jeito não pecar?
Mas as beatas, aquelas
Que atiravam suas pedras,
Ah...aquelas podiam...
Entravam na fila
Feito anjos, recebiam
O Deus que não comungava
Daquela triste conduta
Falsa moral;
Sangravam a prostituta...
Madalena revivida
Sem dó, sem tréguas
Tentando levar seus dias...
Lembro bem... Não me arrependo
Ter sido então sua amiga...
Gostaria de encontrá-la
Era tão jovem ainda;
Onde andará, querida...
Algum dia nos veremos
Por outros cantos da vida....


MEU VELHO GALO - 56


Tinha em nosso terreiro
Um enorme galo branco
Crista grande... já velhote
Cantava na madrugada
Eu amava aquele galo
Amava também seu cantar
Me acostumei... me acordava
Cedinho, aquele som...
Meu pai coava o café
No bule todo amassado
Fogão a lenha trincado
Coador velho de pano;
Eu ficava só escutando
O cantar forte do meu galo,
Acordando a redondeza;
Não precisava relógio
E o barulho começava;
Cacarecos... ecos da cozinha
Das pretas panelas de ferro...
Aos domingos, antes da missa,
Matava-se uma galinha;
Minha mãe deixava aceso
O fogo baixo, quase só brasas
E a galinha velha fervendo;
Íamos todos pra missa
Jejum no duro, demorado
Pois comungar não podia
Se o jejum fosse quebrado
E aquilo era cumprido
Sem haver reclamação;
A gente voltava pra casa
Com o estômago doendo
Então, dez horas da manhã
A galinha já cozida,
Toda a família almoçava;
Era festa aos domingos
Ter galinha no almoço...
Mas então, aconteceu
Que numa dessas manhãs
Minha mãe pôs fim no galo
O meu galo cantador
Meu relógio musical
Meu amigo acordador...
Não comi daquela carne,
Olhava todos comendo
Sentia uma raiva danada
Vontade de vomitar
Fiquei mal, agoniada
Demorou me acostumar
E por muito tempo depois
Bem cedinho, madrugada,
Sempre na mesma hora
Ele ainda me acordava...

MULHER FORTE - número 95

Sou mulher forte
Tive a sorte de nascer
Tirando leite de pedras
Amansando cobras
Levando sovas
Pegando sobras
Na vida bruta
Criei feridas
Curei-as todas
Não sofro mais....
Que a vida é isso
Mostrar serviço
Tocar em frente
Deixar sementes
Do que aprendemos...
Limpar o mal
Lavar o sal
Deixar pra lá
Qualquer veneno...
Fazer crescer
Fazer valer
Acrescentar...
Pois o que resta
No fim das contas
É uma soma 
De coisas boas
Nossos valores... 
Doces sabores....
Que a vida é simples
A vida é boa....



MEU PAI VOLTANDO - 46
Toda tarde, quando o sol
Baixava trazendo a noite
Íamos meus irmãos e eu
Sempre no mesmo caminho
Que conduzia ao encontro
Do meu pai voltando pra casa
Vinha da labuta árdua
Na lavoura bem cuidada...
Cansado, suado, sujo
Mas chegava sempre alegre
Pegava os menores no colo
E me entregava o embornal
Com coisas que ele colhia
No meio do mato, na beira do rio
Coisas bobas, goiabas do brejo
Que eram doces feito mel
Guabirobas tão gostosas
Um melão colhido ao léu
Abóbora madura, eu cuidava
Descascava, fazia doce
Me lembro de certa vez
Que feliz ele nos trouxe
Um grande favo de mel
Ah... que festa nós fizemos...
Às vezes também trazia
Milhos de pipoca
Que delícia... a gente fazia
Na banha de porco
Nunca mais comi na vida
Pipocas tão saborosas
Esperávamos longe de casa
E ele nunca reclamava
Quando então os mais novinhos
Pediam que os levasse ao colo...
A gente, sempre descalça
Um chorava, pegou espinho
Outro tropeçou num buraco
Outro ainda, pisou num formigueiro
Às vezes tinha berreiros
Brigavam pelo seu colo...
Meu pai era muito bom
Paciência não lhe faltava
Acho que sobrava, até...
Minha mãe  o esperava na porta
Água quente no fogão
E enchia uma bacia
Dava toalha e sabão
Ele então se banhava
E ao sentar-se pra jantar
Tinha sempre um filho ao colo
Muitos pra alimentar
Pouco pra por à mesa
Foram tempos bem difíceis
Mas quando meu pai chegava
Eram momentos felizes...





n. 194

MORRER...
Quando eu morrer
Não quero velas...
Gosto de flores
Músicas clássicas,
Mas há que ter Adoniran...
E todos os meus amores
Espero que estejam lá;
Só pra se despedirem 
Dos meus despojos
Sem muito choro...
Mas podem chorar...
Não precisam perder sono
Que se poupem...
Vão pra casa descansar...
Porque eu vou estar tão longe
Ou talvez tão perto
Em busca do meu lugar...
E tão leve quanto a pluma,
Quero estar voando alto
Só passando vez ou outra
Pra matar minha saudade...
Quando eu me for daqui,
Não quero dramas;
Nem sofreres...
Podem rir
Vou preferir vê-los rindo
E pra combinar comigo,
Relembrem fatos recentes
Ou mesmo os mais antigos
Falem das minhas doidices...
Tantas bobagens
Que eu disse sem pensar
Coisas que até nem sei
Ao falar, porque falei...
Quando eu morrer,
Quero que fiquem bem,
As pessoas que me amam...
Sem sofrer... porque eu sei
Vou encontrar meu lugar
Pois se é bom estar aqui,
Bem melhor é estar lá
Sem o corpo pra pesar...
É assim que imagino
Quando a hora então chegar....

 MEU RIO - 62

Queria um rio só pra mim
Passando...levando manso
Qualquer tristeza daqui...
Queria um rio cristalino
Descansado... indo...
Com caída feito música
Pra eu ouvir calada
Bem na calada da noite
E dormir no embalo
Do balanço das águas...
Queria um rio  passando
Pertinho de onde eu moro
Sem pressa... com tempo
Deixando o tempo passar
Levando de mim
Qualquer mágoa
Que em mim possa restar...
Um rio sem compromisso
Submisso, generoso
Banhando meu corpo nu
Qualquer hora que eu quisesse...
Daria ao rio minhas  preces
Comungaria com ele,
Meus segredos inconfessos
E de resto, pediria
Pra ele nunca secar
Continuar comigo...
E quando eu me fosse,
Me levasse leve, manso
Como leve vão os anjos
Sem choro...

Sem dor...
Sem pranto...

N. 200

MENININHA RUIM
Olhem só, que menininha
Comportada... gorduchinha
Usa trancinhas e franja
Nos cabelos tão loirinhos
Quisera eu fosse minha...
Olhei atenta pra ver
Se aquilo tudo era pra mim...
E pasma, eu vi que sim...
Ela, moça tão bonita
Conhecida da família
Me admirando, dizendo coisas
Que eu nunca havia escutado
Pois, por ser muito levada,
De mim, só reclamavam...
Levava bronca a toda hora
Só meu nono me entendia
Afirmava que eu era esperta,
Inteligente... por isso,
Eles me achavam tão difícil...
E lidar comigo, diziam...
Era um suplício...
Ao menos, foi assim que me ficou
Ah... quanto reclamar de mim...
E então, foi que ao ouvir
Aqueles tantos elogios,
Senti orgulho, me vi amada
Pela moça que eu achava
A mais bela da cidade
Santa felicidade...
Mas durou pouco a alegria
Pois quando cheguei em casa
E contei pra minha mãe,
Ela disse...É que fulana não sabe
O quanto você é ruim...
Fiquei tristinha de novo

Naquele tempo, era assim...


n. 217
MEU PAI ME AVISOU
Meu pai sempre repetia
Pegue o atalho
Não passe pelo vizinho
Ou melhor, passe bem longe
E nunca dê confiança
Ao rapaz que mora lá
E você sabe porque...
Mas eu não sabia nada
Nunca nos explicavam
Ainda mais em se tratando
De questões que eram tabus;
Sexo, estupro, pedofilia
Eu ainda nem sonhava
Que tais coisas existiam...
Também só fui entender
Muito tempo depois
E fiquei arrepiada
Quando soube da verdade
Me lembrei muito mais tarde
Que vez em quando eu ia lá
Pois queria saber os motivos
Pelos quais meu pai dizia
Enfatizava... mas não explicava
Porque eu tinha que fugir
De um moço assim tão bom
Que me oferecia balas, melancias...
Um dia, deu-me dinheiro
Não contei isso a ninguém
Gastei comprando alguns doces
E uma bonequinha de pano
Mas menti que havia achado...
Tive muita, muita sorte
Pois sempre que estive lá,
Sua mãe, boa senhora
Também lá se encontrava...
Certa vez,  ele falou
Vem aqui amanhã cedo
Espero você minha linda
Embaixo do pé de amoras,
Se vier ganha um dinheiro...
Mas quando eu vi seu rosto
Distorcido, feito bicho
Com os olhos revirados
Tive medo do matuto
E nunca mais passei por perto;
Guardei bem este segredo...
Hoje entendo aquele esgar,
Estava estampada no rosto
Sua gana por criança
Tinha a tara bem nos olhos
Nem me lembro o que pensei
Mas os anjos existem... Eu sei...

n. 202
MEU CÉU...
O céu que eu imagino
Que seria um céu pra mim
Nas portas e nas janelas
Não existem as duras trancas
E nem mesmo taramelas
Pois todos são tão bem vindos
Que não há necessidade
De inibir qualquer passagem...
O céu do qual faço ideia,
É mesmo o paraíso
Nele, qualquer um entra
Desde os mais ajuizados
Até os de menos juízo...
Sim...Entrar nele todos podem
Desde que não queiram
Ouvir músicas ruins
Principalmente pagode...
Esse céu que me fascina,
Tem as frutas mais gostosas
Pêssego, caqui, goiaba,
Pitaia, manga, atemoia...
Tem tanta fruta que até
Dão nos troncos, qualquer pé,
Das árvores mais viçosas...
Lá, a vida é cor de rosa;
Cafezinho toda hora
Passado no coador
Aquele, feito de pano
Que já não se usa mais...
Tem despensa bem suprida
Fogão a lenha com chapa
Sempre aceso e avivado;
Panelas de barro imensas
E muita água limpinha
Que mesmo usando à vontade,
Nunca nos vá fazer falta...
Meu céu, é aberto a todos
Que queiram a mim chegar;
E a fartura que tem lá,
Vou usar pra preparar
As ceias mais deliciosas
Que se possa imaginar;
Bebida, só vinhos finos
Carnes não há...jamais...
Todos plantam e semeiam
Lá não matam animais...
No céu que eu imagino,
Não precisa faxinar
Porque tudo é muito limpo
Nada suja e tudo é lindo
Lá, ninguém é porcalhão
Não jogam coisas ao léu
Todos têm educação
E também muito respeito;
É um céu que leva jeito...
Ah... outra coisa interessante
Que acontece no meu céu,
É que depois que comemos
Não tem que tirar a mesa
Muito menos,
Lavar louças e panelas
Pois elas se lavam por conta...
Também se come à vontade
As mais finas iguarias
Pois, se lá ninguém engorda,
Não se contam calorias...
Lá vivemos todos nus
Nossos corpos voam leves
No meu céu ninguém se atreve
A olhar o nu do outro
Com olhos que não se deve...
Mas pode e deve haver sexo...
Vocês acham isso sem nexo ?
No céu que eu imagino,
Não pode de forma alguma
Faltar lápis e papel
Pois é assim que escrevo;
Livros então, tem aos montes
Em todo canto tem livros;
Tem muita história no céu
Tem livro de todo tipo...
Ah...o meu céu tem tantas coisas
Tantas, que aqui não se tem
O meu céu que é de todos,
Também não é de ninguém...
O céu que eu imagino,
Talvez vocês achem chato
Monótono e bem comum
Mas pra mim, ele é perfeito
É a continuação daqui
Só que lá não há tragédias
Pobreza e nem doenças
Não existem desavenças
Pois lá se tem consciência;
No meu céu, todos se amam
Políticos lá não há
Ninguém mente, rouba ou trapaceia
Nem se atêm à vida alheia
Podemos virar as costas
Que ninguém vai falar mal...
O meu céu, é sem igual
Sem tempo, nem dimensão
Lá não existe troféu
Mas imenso coração...

n. 195
MINHA ANGÚSTIA...
Na relva macia e fresca,
Me deitei olhando o céu...
Nuvens densas, carregadas,
Corriam de lá, pra cá
Ao léu... enfumaçadas
Cobrindo o sol... e eu lá
Tão jovem... quase menina
Deitada, observando
Aquelas nuvens passando
Formando desenhos tantos
Passando atribuladas
Feito as almas penadas
Perdidas na escuridão...
Tive até um certo medo
Que ao caírem, atormentadas,
Pesassem mais minhas mágoas
Que me consumiam então...
Eram tantas minhas dores
E minha angústia cruel,
Vertia em golfos escuros
O visgo amargo do fel...
Veio abaixo a tempestade
E eu, ainda lá
Inerte, passiva e triste
Com meu choro de menina...
Então me peguei sem medo
E fiz minha confissão,
Dos pecados que eu não tinha...
Deixei que as águas caíssem
Sobre mim, em profusão
Lavando, limpando fundo
Minha alma e coração...
Meu choro se confundindo
Com gotas densas, caindo,
Parecia não ter fim...
Choro antigo, lá guardado
Despejado aos turbilhões
Pude enfim, voltar à vida;
Olhei o céu clareado
Arco-iris desenhado
Sol aberto, pude ver
Bem perto, ao meu alcance
Num céu com outras nuances,
O esplendor do renascer...

 n.232
MINHA MULHER


Minha mulher tem anseios
Medos, fobias, trejeitos
Esgares, olhares feitos
Imperfeitos e bondosos
Tem olhares curiosos
Cheios de raiva
Em brasa...dispersos...
Compenetrados...
Minha mulher é manhosa
Tão bondosa....
Mas tem polvora nas ventas
Esquenta, arde, se acovarda
Retarda pra resolver
Quer sempre fazer valer...
Se entristece por pouco
Se alegra por muito menos
Minha mulher é pequena
Mas pode ter também
O tamanho que quiser
É intensa... terna... eterna....
É mulher....



MEU FILME - 15

Gosto de ver... assistir
Meu filme em retrospecto
Busco longe... é tão antigo
Assisto, insisto comigo
Ver cenas que não me agradam
Persisto... olho sem medo
Meu desapego é maior
Meu filme não faz sofrer
Não mais... então observo
Relevo certas passagens
Outras olho, mas não paro
Pra sentir antigas dores
Me atenho nos amores
Que a vida me legou
Vejo o filme...
Vem-me o pranto
As lágrimas lavam a dor
Enxugo o rosto   
Prossigo...
Assisto em câmara lenta
Cenas antigas
Mas tão presentes...
Ah...Meu filme
Não mais  me  atormenta;
Tem um enredo tão belo
O filme que eu carrego...


n. 244
MONTE SANTO
Bem atrás do Monte Santo
Onde o sol se põe chorando
Por não querer esconder
Seu brilho brilhando tanto,
Existe um templo secreto,
Não é feito de concreto
Mas de luz e encantamento...
Fica à beira de uma estrada
Mas muitos dos que passam
Nunca puderam vê-lo;
Só o enxergam os mais puros
Os seletos, prediletos,
Aqueles de alma nobre...
É um templo tão imenso
E o perfume de incenso
Que exala noite e dia
Açoita os que carregam
O ardente sal da vida...
São almas empobrecidas
Lacerando, machucando
Feridas sangrando vivas...
Mas àqueles que derramam
O doce mel do amor
Abre as portas... acomoda...
Joga pétalas de rosa
Forrando em flores o chão...
Quem consegue nele entrar
Tem sede de aprender
E o saber os faz tão fortes
Que nada têm a temer...
Os que entram, se aquietam
Não querem mais ir embora
Criam raízes profundas
Mas não se acomodam nunca...
São seres plenos de luz
Trabalham...aprendem,
Buscam sempre melhorar
Dividem... são generosos
Convidam todos a entrar
Cabem muitos... aos milhares
Contém todos os lugares
Mas só entram os que sabem
Que estão prontos pra ficar...


n. 254
MANJAR DE VINHO
Com carinho e vontade
Fiz um doce pro Natal
De vinho... era um manjar
Tinha mais água que vinho
Que alegria! Eu havia conseguido,
Na venda do senhor Vidotto
Na cidade de Urupês,
Comprar fiado o vinho
O açúcar, e o amido também
Depois, eu disse a ele,
Venderia pirulitos
Ou chuchu que algum vizinho
Me desse do seu quintal
E assim, o pagaria...
Fui pra casa bem feliz
Pensando na alegria
Que sentiriam os meus
Ao verem o manjar pronto;
Fiz segredo
E quando minha mãe saiu
Pra ir assistir à missa,
Aproveitei pra fazer
Aquilo que para mim,
Era fina iguaria...
Mas ao mexer o doce
No fogão de pó de serra,
O cabo frouxo da panela,
Virou e entornou o doce...
Fiquei paralisada
Não deu pra aproveitar nada
Nem a raspa...
Chorei de pena e de raiva;
Minha mãe quando chegou
Me viu de olhos vermelhos
E ainda perguntou
Com quem eu havia brigado...
Eu respondi... não briguei
Esse vermelho no olho
É da fumaça que entrou
Quando avivei o fogo...





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