240
AMOR QUE FERE
O amor que fere,
Não adere
Não vinga
Míngua...
É um amor que mata
Maltrata
E morre,
Mesmo antes de nascer...
Vem prematuro
Inseguro...
É duro e sem alma
Atribula, não acalma
Isola, imola
Apaga, não inflama
Desdenha da dor
Posto que não é amor...
O amor que fere,
Chega faminto
Voraz, ávido
Para devorar o outro
Que tem em si,
O puro desejo de amar...
O amor que fere
Tem outro nome
Pois é mortal
Destemperado e louco
Carrega um gosto amargo
Salgado... travo...
Já que é o oposto
Do suposto amor...
Nem sei porque
Leva esse nome
Se é algo tão disforme
Com sede e fome de ferir
Fazer doer
Distorcendo o sagrado
Maculando o belo
Inoculando sem piedade,
O veneno peçonhento...
O amor que fere,
Não alimenta;
Mata aos poucos
O amor do outro...
Pois já nasceu deturpado
Desvirtuado
Sem resquício algum
Do verdadeiro amor...
Não traz beleza
Nobreza
Nem generosidade
Tampouco deixa saudades;
Somente mágoas...
O amor que fere,
Destoa do bem
Vai muito além...
É um amor de mentira
Equivocado,
Que não convém
A mim, a você
Nem a ninguém...
O amor que fere,
Não transfere;
É egoísta
Não se encaixa
É reles, banal
Sem nenhuma graça
Sem nenhum valor
É pura dor
Não tem valia
E ao aceitá-lo,
Estamos desamando
A nós mesmos,
Pois é ele
O inverso,
Do mitigar da dor...
Sangra ainda mais a ferida
Quando ela, aberta ainda,
Tenta cicatrizar...
O amor que fere,
Não é amor que sabe amar
Tem outro sentido
E precisa ser banido,
Erradicado
Queimado vivo...
E, por favor,
Não chame a isso amor
Dê a ele qualquer outro nome,
Seja o nome que for,
Mas não se engane;
Isso é dor...
Não é amor...
O amor que fere,
Não adere
Não vinga
Míngua...
É um amor que mata
Maltrata
E morre,
Mesmo antes de nascer...
Vem prematuro
Inseguro...
É duro e sem alma
Atribula, não acalma
Isola, imola
Apaga, não inflama
Desdenha da dor
Posto que não é amor...
O amor que fere,
Chega faminto
Voraz, ávido
Para devorar o outro
Que tem em si,
O puro desejo de amar...
O amor que fere
Tem outro nome
Pois é mortal
Destemperado e louco
Carrega um gosto amargo
Salgado... travo...
Já que é o oposto
Do suposto amor...
Nem sei porque
Leva esse nome
Se é algo tão disforme
Com sede e fome de ferir
Fazer doer
Distorcendo o sagrado
Maculando o belo
Inoculando sem piedade,
O veneno peçonhento...
O amor que fere,
Não alimenta;
Mata aos poucos
O amor do outro...
Pois já nasceu deturpado
Desvirtuado
Sem resquício algum
Do verdadeiro amor...
Não traz beleza
Nobreza
Nem generosidade
Tampouco deixa saudades;
Somente mágoas...
O amor que fere,
Destoa do bem
Vai muito além...
É um amor de mentira
Equivocado,
Que não convém
A mim, a você
Nem a ninguém...
O amor que fere,
Não transfere;
É egoísta
Não se encaixa
É reles, banal
Sem nenhuma graça
Sem nenhum valor
É pura dor
Não tem valia
E ao aceitá-lo,
Estamos desamando
A nós mesmos,
Pois é ele
O inverso,
Do mitigar da dor...
Sangra ainda mais a ferida
Quando ela, aberta ainda,
Tenta cicatrizar...
O amor que fere,
Não é amor que sabe amar
Tem outro sentido
E precisa ser banido,
Erradicado
Queimado vivo...
E, por favor,
Não chame a isso amor
Dê a ele qualquer outro nome,
Seja o nome que for,
Mas não se engane;
Isso é dor...
Não é amor...
n. 239
A MÚSICA DO AMOR
Um violino tocou
Ela ouviu, e então sonhou
Vagando nos seus anseios...
E em permeio, olhava longe
O sol quase se apagando...
Pensou consigo ser tempo
De ainda encontrar
Um amor do qual pudesse
Abastecer sua alma
Tão cansada dessa calma,
De tanto tempo esperar...
Um violino tocou
E o piano dedilhado
Por mãos hábeis, consagrado,
Se juntou com seus acordes,
Às cordas do instrumento
Transportando o ouvido atento
Às mais doces melodias
Ela então, só, no seu canto,
Enlevada, embevecida,
Dançou de olhos fechados
Como abraçada estivesse
Ao seu homem tão amado
E dançou...amou...sonhou
Todo o tempo em que durou
Aquela doce melodia
Aqueceu o coração
Relembrou suas paixões
Do tempo em que ainda jovem
Dançava qual mariposa
Atraída pela luz...
Se sentiu tão atraente
Sedutora, envolvente
Qual fêmea o homem seduz...
E louvando o Deus do amor
Juntou suas mãos em prece
Desnudou-se e se entregou
Ao amor que lhe viesse...
175
A BANDA (Saudades de você, minha URUPÊS...)
Todo domingo
No coreto do jardim
A banda estava lá
Tocando festiva
Alegrando a vida
De quem quisesse ouvir
Ou até mesmo dançar...
Sim... todos os domingos
A banda da cidade
Levava felicidade
Aos que lá estivessem...
Vez em quando
Por alguns trocados
O realejo tocava
E o periquitinho
Ensinado pelo dono
Tirava a sorte da caixa
Piscava o olhinho e entregava
Sempre com bons dizeres
E a gente acreditava...
E não é que quase sempre
A avezinha acertava?
E vinham lá bem quentinhas
As pipocas pipocando
Algodão doce, amendoim
E a banda sempre tocando
Assim... deixando felizes
Pessoas laboriosas
Da vida simples
Na cidade pequenina
Dos tempos bem lá atrás...
Urupês... minha querida...
E tocando, a banda dizia
Cheguem... venham mais pra perto
Ouçam o som libertos
Sejam felizes sem pressa
A hora é essa
Porque, pode ser enfim,
Que nem sempre, meus queridos...
Teremos a vida assim...
No coreto do jardim
A banda estava lá
Tocando festiva
Alegrando a vida
De quem quisesse ouvir
Ou até mesmo dançar...
Sim... todos os domingos
A banda da cidade
Levava felicidade
Aos que lá estivessem...
Vez em quando
Por alguns trocados
O realejo tocava
E o periquitinho
Ensinado pelo dono
Tirava a sorte da caixa
Piscava o olhinho e entregava
Sempre com bons dizeres
E a gente acreditava...
E não é que quase sempre
A avezinha acertava?
E vinham lá bem quentinhas
As pipocas pipocando
Algodão doce, amendoim
E a banda sempre tocando
Assim... deixando felizes
Pessoas laboriosas
Da vida simples
Na cidade pequenina
Dos tempos bem lá atrás...
Urupês... minha querida...
E tocando, a banda dizia
Cheguem... venham mais pra perto
Ouçam o som libertos
Sejam felizes sem pressa
A hora é essa
Porque, pode ser enfim,
Que nem sempre, meus queridos...
Teremos a vida assim...
A CARPIDEIRA - 71
Chora a carpideira Madalena
Seu pranto é dor de pura pena
De si... já que o morto é só alguém
Na cena que encena por vinténs...
Chora a carpideira Filoca
A morte já não é nenhum segredo
Desterro, no choro que invoca
Seu sofrer, é pela dor dos seus tormentos...
Chora a carpideira Risoleta
O choro pelo filho que partiu
Debandou, errou, fugiu da seca,
O da outra, no caixão ela nem viu...
Chora a carpideira Nhá Jurema
Da viuva o sofrimento não lhe toca
Resfolega...Olha tudo enquanto encena
Sai do enterro vai fazer suas fofocas...
Chora a carpideira Idalina
O defunto já cumpriu a sua sina
Véu preto e o vestido já rasgado
Moça velha, chora o leite derramado...
Chora a carpideira Izabela
Urra... no caixão se descabela
Ganha seus trocados...não se importa
Com o choro de quem vela a filha morta...
Choram, gritam, se descabelam
Madalenas, Risoletas, Izabelas
Carpideiras encenando um choro falso
Mas de falso,
Nada tem o choro delas
Já que a vida
Não lhes poupa sofrimentos;
Nos seus prantos,
É por elas que lamentam...
A MENINA E OS LIVROS - 70
Eu a vi fingindo ler
Achei graça...que audácia...
Tão novinha, pequenina
Querendo ser gente grande
Virava as páginas... sorria.
E a cada figura que via
Fazia caras e bocas;
Fiquei louca de vontade
De apertar a menininha
Mas isso eu não podia...
Ela estava concentrada
Na leitura... tinha junto,
Vários livros... e lia...
Virava os olhos, fingia,
Queria ser notada...
Vez em quando olhava em volta
Pra sentir se era vista
E lia... mexia os lábios
Ah, meu Deus... que coisa linda
Ela e eu na livraria...
Perguntei:- Você já lê?
É ainda tão novinha-.....
E ela me respondeu
Não sei ainda, vovó....
Mas já estou aprendendo
E vou ler todos os livros
De todas as livrarias...
Fiquei pasma... tão novinha...
Essa menina promete
Tão esperta, essa netinha...
164
A PARTEIRA...
Dona Romana
Parteira tão boa
Fazia o trabalho
Benzia o pirralho
Logo ao nascer...
Dizia... é bom...
Batismo e pão,
Nunca é demais...
Chegava bem antes
Dias, até...
Ficava esperando
Chegarem as dores
E a bolsa romper;
Tão bom ver nascer
Os frutos do amor...
Queria saber
Tim tim por tim tim;
Cadê a tesoura
Os panos, chaleira,
A água é no poço
A luz, lamparina
Marido vem cá,
Alumia, me ajuda
Preciso enxergar
Só falta alargar
Um dedo a mais,
E a criança já vem...
Cabeça roliça
Apontando pra vida
Me ajuda aparar;
Gemidos e ais
E reza que reza
Deus olha...Ele é mais...
Mais força, mulher...
Lá vem...tá aqui..
Criança tão linda,
Igual, nunca vi...
Fazia pra todos
O mesmo elogio
E o choro...
Ah... Tão forte...
Vai ter muita sorte
Dá até arrepios
Se cuida, mulher...
To indo... me esperam
Tem outros nascendo
Mas fiquem com Deus
Que a canja eu já fiz
Tá lá no fogão...
A chapa tá quente,
O leite fervido
Tem água no pote
Penico bem limpo
Os panos lavei
Até outra vez...
Adeus...
Já vou indo...
Dona Romana
Parteira tão boa
Fazia o trabalho
Benzia o pirralho
Logo ao nascer...
Dizia... é bom...
Batismo e pão,
Nunca é demais...
Chegava bem antes
Dias, até...
Ficava esperando
Chegarem as dores
E a bolsa romper;
Tão bom ver nascer
Os frutos do amor...
Queria saber
Tim tim por tim tim;
Cadê a tesoura
Os panos, chaleira,
A água é no poço
A luz, lamparina
Marido vem cá,
Alumia, me ajuda
Preciso enxergar
Só falta alargar
Um dedo a mais,
E a criança já vem...
Cabeça roliça
Apontando pra vida
Me ajuda aparar;
Gemidos e ais
E reza que reza
Deus olha...Ele é mais...
Mais força, mulher...
Lá vem...tá aqui..
Criança tão linda,
Igual, nunca vi...
Fazia pra todos
O mesmo elogio
E o choro...
Ah... Tão forte...
Vai ter muita sorte
Dá até arrepios
Se cuida, mulher...
To indo... me esperam
Tem outros nascendo
Mas fiquem com Deus
Que a canja eu já fiz
Tá lá no fogão...
A chapa tá quente,
O leite fervido
Tem água no pote
Penico bem limpo
Os panos lavei
Até outra vez...
Adeus...
Já vou indo...
162
ACORDAR...
Acorde... é hora...
Urge viver
Ser feliz...
Não há tempo a perder,
Pois o tempo não espera.
Acorde!
Lá fora, a vida é...
Tanto faz ser primavera,
Outono, inverno...
Que seja, até...
Acorde!
Por que tanta demora?...
A aurora já surgiu
E o verão da sua vida
Vive dentro de você
Como o sol aquece a terra
E ilumina o amanhecer...
Acorde! Por que a espera?
Viva o tempo que é seu
Tão precioso,
Bom, ou tempestuoso,
Quente, frio,
Chuva, ou estio...
Acorde!...
Há em você
O amor clamando
Para amar sem pretensão.
Há em você o ser chamando,
Pra alegrar seu coração...
Acorde!
É chegado o tempo bom,
Colha os frutos do saber,
Use as asas pra voar
Pra todo e qualquer lugar
Chame a todos pra bem perto,
Deixe o rosto descoberto,
De modo que todos vejam
Seu sorriso bem feliz!
Acorde!
Você é especial!
Nada má a vida aqui,
Mas precisa acordar,
Encarar o que é real.
E, então, usar da fé,
Pra sentir que vale a pena
Viver acordado para a vida,
Mesmo nos dissabores!
Pois valores sempre há.
Acorde!...
E viva intensamente!
Viva somente o presente...
Tenha confiança e fé!
Acorde! E viva a vida
Do jeitinho que ela é!
Não há tempo a perder,
Pois o tempo não espera.
Acorde!
Lá fora, a vida é...
Tanto faz ser primavera,
Outono, inverno...
Que seja, até...
Acorde!
Por que tanta demora?...
A aurora já surgiu
E o verão da sua vida
Vive dentro de você
Como o sol aquece a terra
E ilumina o amanhecer...
Acorde! Por que a espera?
Viva o tempo que é seu
Tão precioso,
Bom, ou tempestuoso,
Quente, frio,
Chuva, ou estio...
Acorde!...
Há em você
O amor clamando
Para amar sem pretensão.
Há em você o ser chamando,
Pra alegrar seu coração...
Acorde!
É chegado o tempo bom,
Colha os frutos do saber,
Use as asas pra voar
Pra todo e qualquer lugar
Chame a todos pra bem perto,
Deixe o rosto descoberto,
De modo que todos vejam
Seu sorriso bem feliz!
Acorde!
Você é especial!
Nada má a vida aqui,
Mas precisa acordar,
Encarar o que é real.
E, então, usar da fé,
Pra sentir que vale a pena
Viver acordado para a vida,
Mesmo nos dissabores!
Pois valores sempre há.
Acorde!...
E viva intensamente!
Viva somente o presente...
Tenha confiança e fé!
Acorde! E viva a vida
Do jeitinho que ela é!
n. 213
A ÁRVORE
Do lugar em que eu estava
A árvore olhou pra mim
Fiquei a mirar seus galhos
Cujos frutos me encantavam
Me diziam pra escolher
Quais deles eu colheria
E então se entregariam
A mim... sem nada dizer...
Servindo assim, de bom grado
Ao agrado e ao paladar
Do gosto mais requintado
Que as quisesse degustar...
Eu olhava aqueles frutos
Tão lindos e tão maduros
Prontinhos para o consumo
E pensava aqui comigo...
São frutos iguais a mim
Que sou fruto de outros frutos
Mas nunca me entrego assim...
Não tenho no coração
Tanto desprendimento
Nem todo o conhecimento
Daquilo que posso dar...
Mas reconheci de pronto
Que ao entregar de mim
Qualquer fruto maturado
Seja em forma de sorrisos
Ou palavras carinhosas
Qualquer atitude bondosa
Que de mim, eu possa dar
Terei sido aquela árvore
Quieta e sem alardes
Sem alarido ou tumulto
Sem nenhuma pretensão
Doando meus próprios frutos...A FREIRA - 78
Foi bem cedo pro convento
Seus pais assim quiseram
Desalento... Desconsolo...
Pois ela mesma não queria;
Sonhava se casar um dia
E ter filhos de montão
Dizia... teria tido uns oito,
Dez...ah, que desgosto...
Linda, aquela freirinha
Já madura... labutando
Na cozinha do colégio
Sacrilégio o que fizeram...
Enquanto cozinhava, rezava
Eu era curiosa, queria saber
O porque de tanta reza
Que pecados podia ter...
Queria trocar com ela
Dizia...me dê os seus....
Em troca te dou os meus...
Ela ria, respondia ...não queira
Tenho pecados de sobra
Meus pensamentos ardem
A consciência me cobra
Entreguei a minha dor
Meu amor, entrego a Deus
Sou feliz... cinquenta anos
Interna nesse lugar
Vim aos quinze
No começo só chorava
Saudade da família
Saudade que me matava...
Todos se foram...
Fiquei eu e os meus tesouros
Meus santos, relicários...
Meu sacrário está em mim
Pensando bem,
Acho que foi melhor assim....
AZEDUME - 14
Hoje me peguei
No azedume...
Não é praxe
Relaxe..
Vou do rés ao cume
Me vejo em ré
Experimento uma primeira
Não vai...
Um passo a mais
É bom pensar
Parar... rever
Resolve ler?
Escrevo...
Dá medo o que me sai...
Deixar no papel,
Jamais...
Um soluço...
Engulo
Choro
Imploro
Paciência...
Melhor lá fora
Arejar...
Converso com quem passa
Cheiro a flor
Vejo que não murchou
E a flor que tenho em mim,
Também a sinto viva
O choro vai
O azedume sai
Meio na raça...
Sorrio pra mimAcho até graça...
ALMA POETA - 06
A alma do poeta
É inquieta...
Vibrante...
Transbordante de amor
Sofre... Se comove
Não se apressa
Vive aberta
Feito a flor
Exuberante,
Exalando seu perfume...
Ora, de olor suave
Ora, irrespirável...
A alma do poeta
Vive alerta
Buscando...
E na busca,
Enxerga além...
Sofre quieta
Muitos não a compreendem
Nos dizem loucos...
Outros,
Fazem ouvidos moucos
Tentando não ouvir
O que nossa alma diz
Por vezes, se revelando
Insana...
Porém...
Nunca, em tempo algum,
Se revela desumana...n. 203
A VOLTA
Um senhor de meia idade
Passou cheio de saudades
Bem perto da casa velha...
Quis rever as amizades
Que havia feito lá
Ao longo de tantos anos...
Chegou cheio de vontades
Olhou tudo... Vasculhou
Chamou seu velho compadre
Pra contar que na cidade
Era tudo tão sem graça
E falou das ameaças
Que grassavam ao redor
Do lugar onde morava
E o que havia de pior,
É que a filha Maricota
Arrumara uma patota
Pra sair todas as noites
Era aquele, o seu açoite
E contou, e reclamou
Que a cidade era pior
Que o capinar da roça
E que a sua velha choça
Muito embora pequenina
Era bem melhor ainda
Que a casa onde morava
Sem sossego pra dormir;
Já que a rua barulhenta
Só fazia reunir
A moçada fumacenta
Que não tinha o que fazer...
E o que dizer da Teresa
Mulher cheia de surpresas
Cada dia uma roupa
Não é mais a tal cabocla
Que rezava na capela
Tão pura e tão singela...
Vive agora na igreja
Sai levando a sobremesa
Que era minha, pro seu padre
Ah, compadre... que tristeza...
Vou voltar pro meu sertão
Quem quiser, volte comigo;
Eu trago de coração...
Mas vai rezar na cartilha
Que eu tenho em minhas mãos;
Me aguarde, volto logo
Antes mesmo, do que espera
Vou até soltar uns fogos
Isso vale festejar...
Logo chega a primavera
E eu quero estar aqui
Ver as flores na varanda
Escutar cantar o galo
Nas serenas madrugadas;
Quero ouvir da passarada
Seu louvor, fazendo festa...
Quero ver o colibri,
Sugar das flores, o néctar
Tanta coisa eu tenho aqui...
Vou armar a minha rede
Me deitar, e olhar a lua
Me enxergando lá do alto
Olhando nua pra mim...
De manhã, quero acordar
Só pra olhar o gado manso,
Se fartar no mato verde...
É daqui que eu tenho sede...
Volto logo, meu compadre
Deixo lá, as minhas dores
Trago em mim, os meus amores
E nem vou sentir saudades...
E quando o bom Pai chamar
E de terra me cobrirem,
Vou pra onde Ele mandar...
Levo junto, a boa terra
Porque dela, eu nasci
Nada mais levo comigo
Só bendigo, o que eu vivi...
n. 216
BARATAS
A casa onde eu morei
Dos meus sete aos nove anos
Foi a que mais me marcou...
Ficava no fundo de um quintal
Tinha chão de tijolo bruto
Nos quartos que eram só dois,
Nada de portas;
Luz de lamparina, água de poço
E nem era a pior casa,
Das que eu havia morado...
Mas tinha tanta barata
Baratas por todo lado
Nos vãos das telhas
Atrás de armários
Dentro deles... às vezes até no fogão
Em tudo havia baratas
Grandes, médias, pequenas
Voadoras, cascorentas
Vinham da latrina
Que ficava no quintal
E eu morria de pavor
Acordava com elas
Andando sobre mim
Como fosse eu, feita de doce
E às vezes, quando à noite
Por muita necessidade
Eu tinha que ir lá fora
Era comum as danadas
Subirem nas minhas pernas
Ah... que trauma tenho disso
Não posso vê-las... Até grito
Assusto qualquer pessoa;
Pensam logo em algo grave
Acontecendo comigo
Porém é uma barata a toa
E até provoco risos
Mas é assim que me sinto
Quando vejo uma barata
Choro, grito, dou vexame
Pois mais forte do que eu
É o pavor que tenho delas
E até chamo por meu Deus
Mas elas vêm ao meu encontro
Voam sempre pro meu lado
Sei que é um medo infundado...
Pois prefiro me deparar
Até mesmo com uma fera;
Mas baratas...ah, Senhor...
Por favor... Livrai-me delas...
BENDIZENDO.....- 35
EU BENDIGO A LUZ...
E NA ESCURIDÃO,
BENDIGO DAS ESTRELAS
O RELUZIR...
BENDIGO DA NOITE,
QUALQUER AÇOITE
COM QUE A SOLIDÃO ME ATINGIR..
BENDIGO QUERER SER LIVRE
E LIVRAR-ME DOS TENTÁCULOS
QUE ÀS VEZES ME ABRAÇAM
PROVOCANDO EM MIM, A CULPA
E O DESEJO INCONTROLÁVEL
DE ATIRAR LONGE MINHAS PEDRAS
COM AS CATAPULTAS
ATINGINDO, FERINDO
MESMO QUE SEJA,
PRA DEPOIS PEDIR DESCULPAS
PELAS COISAS QUE PENSEI...
EU BENDIGO DESCULPAR A MIM,
POR TUDO O QUE NÃO FALEI...
BENDIGO TER FALHADO,
NÃO TER DITO... ME POUPADO
DE FAZER MEU DESAGRAVO...
BENDIGO O RISO ATREVIDO
QUE ME VEM DE TUDO ISSO,
SEM PREJUÍZO DE NINGUÉM...
BENDIGO A RISADA
ESCANCARADA E LOUCA
QUE ATRAVÉS DA MINHA BOCA
ECOA SEM SE DAR CONTA
DO CHORO QUE EU ENGOLI...
BENDIGO A MIM,
QUE NADA PERDI...
BENDIGO A VOCÊ
QUE BUSCA... E AO BUSCAR,
SE DÁ CONTA DO PODER
DE BENDIZER
E DEIXAR VALER
O DITO PELO NÃO DITO
SEM AFLIÇÕES...NEM CULPAS...
OU QUALQUER OUTRO CONFLITO...
n.218
BASTIÃO
Domingo...Preguiça
Sem liça... Dasdores
Levanta, tem missa
Na igreja do Carmo
Vai lá, colhe as flores
Que há no jardim
Arranja um arranjo
Pra por no altar
Dos santos de casa
É cedo ainda
Espera que espera
E Bastião não levanta
Da cama quentinha...
Acorda Bastião
Mais tarde “ocê dormi”
Que as horas se passam
Não esperam não...
Se apronta depressa
Café na caneca
O sino tocando
Chamando, chamando
Com seu toque alegre;
Não é pra defunto...
Vem junto, comadre
Que o padre tem pressa
Jejum desde ontem,
Se avia marido...
Ai, ai, o Bastião,
É caso perdido;
Eta homem sem fé
Sem freios na língua
Blasfema dormindo
Cruz credo, comadre;
Pedi pro seu padre
Benzê o Bastião
Qual nada... acha graça
Tem graça, isso não...
Meu homem é assim,
Sem papas na língua;
O xingo pra ele
Faz matar a sede
Mas ah... qual o que,
Se é dele que eu gosto...
Me deito na rede
Me faz cafuné
Sabe como é...
Bastião é tão bom...
BONECA DE PAPELÃO - 73
Onde está você, bonequinha...
Eu pensei que fosse minha
De papelão, sem cabelos
Tão careca... sem roupinhas
Onde foi parar você
Nessa vida um tanto incerta
Me procurando nos sonhos
Tristes, parcos, risonhos...
Onde andará, minha amada
Tão feinha....desejada....
Onde foi que eu a deixei
Bonequinha de cor rosa
Lembra... tanto conversei
Éramos nós duas tão prosas...
Você e eu... eu e você
Conversávamos tal qual
Comadres de há muito tempo...
Que saudade ainda tenho
Papelão jogado ao vento...
Depois daquela tragédia
Você voou... virou migalhas
Naquela chuva ingrata
Que a levou de mim
O que resta de você
Bonequinha, meu amor...
Ah....eu sei... está inteira
Guardada em meu coração...
Triste foi a sua sina
Eu, menina a deixei
Sem querer... não vi a chuva
Que levou você de mim
Assim... sem me avisar....
Porque, minha bonequinha...
Será que não cuidei?
Mas você, minha lindinha
Nunca saiu de mim
Guardo-a bem comigo
Já ganhei o meu castigo
Eramos tão sapecas...
Não posso tê-la em meu colo
Mas tenho você na alma
Relembro... penso... me acalma...
N.252
BUSCAR EM NÓS
Viemos da mesma fonte
De um imenso coração
Feitos nos mesmos moldes
Gerados do mesmo amor
Em busca de evolução...
Nascemos para ser livres
Dos sofreres que nós mesmos
Buscamos sem perceber;
É que nos falta a fé
Falta amor e gratidão
Vivemos feito ovelhas
Desgarradas e sem rumo
Sem saber onde encontrar
O lugar que é de nós;
Perdemos o prumo
Deixamos de ouvir a voz
Da razão e sensatez...
Nossa alma clama a volta
Daquilo, que por princípio,
Nos moldou seres de luz;
Clama o tempo ido embora
Perdido, deixado ir...
Aflora em nós a esperança
Pra sanar o desespero;
Somos barro endurecido
Distorcido... pedra bruta;
Muitas vezes, nem sabemos
Perguntar a que viemos...
Passamos tal qual o vento
Passando assim... por passar...
Enfrentamos vendavais
E nem sempre, nos damos conta
Que daquilo que nos resta
Há sempre o que aproveitar...
Quando há festa em demasia,
Perguntamos pra nós mesmos
Porque chora o coração
Se até então, ele sorria...
Perguntamos a razão
Do nascer de um novo dia...
E assim, vamos vivendo
Feito o barro endurecido
Com medo de se quebrar...
Urge então, buscar na fonte
Aquilo que há de sobra
E mesmo que endurecido
O barro já moldado
Tentar feito o artesão
Burilando pouco a pouco
A alma e o coração
Pois nem tudo está perdido;
Há sempre um novo sentido
Há sempre uma razão
Busquemos, então...
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