sábado, 13 de junho de 2015

CORREÇÕES SEGUNDO LIVRO - LETRA N a O

NOSSOS MUNDOS - 12

Olho o meu mundo
O acho quase perfeito
Olho o mundo do outro
Julgo... vejo os defeitos
Mas... será que o outro,
Olhando o seu próprio mundo
O vê pelos mesmos prismas?
Olho à minha volta
Não me anima;
Tanta coisa me revolta
Me engulha, embrulha               
Meu ventre se enola
Dói o peito;
Que jeito...
Me consolo como posso
Adoto a filosofia
Um dia de cada vez...
Sei que não posso ver
Pelo mundo do outro,
O meu mundo tão restrito...
Paro às vezes pra olhar
O seu mundo, que é o meu...
O mesmo... separar como,
O meu mundo do seu...
Difícil olhar o mundo
Sem estragar o meu...


504

NHÁ CHICA  e NHÔ ZÉ

Na casa da Chica
Tinha banho de bica
Penico no quarto
Travesseiro de pena
Colchão de palha
Fogão de lenha
Bule na chapa
Caneca de lata
Terreiro limpinho
Paineira na porta
E uma bela horta...
Nhô Zé tocava
Viola baixinho
Cantava rimando
Amor, amorzinho
Me enche de beijos
Me dá seu carinho
Matava os desejos
Pitava na palha
Me traz pão de queijo
Jogava as migalhas
Vem cá passarinho
Lidava na roça
Trazia pra casa
Colheita que dava
Nhá Chica rezava
Pra Deus conservar
Marido tão bom
Não há outro igual...
Vestido de chita
Domingo ia à missa
Mãos dadas, faceira
Não é brincadeira
Cuidar das galinhas
Terreiro, capina
Porcada, que mais...
Rezava, rezava
Pedia à miude
Saúde e o pão nosso
Pra nunca faltar...
Na vida de graças,
Não tinham desgraças;
Alegria era farta
A vida tão boa
O amor tinha vez...
Pois é, Nhá Chica
Pois é, Nhô Zé
Sodade doceis...
Beijos, inté...


N. 233

NASCEU MAIS UM

Quando o dia clareou
Ele foi buscar ajuda
Não podia mais ouvir
Os lamentos da mulher...
Quando o dia amanheceu
E a chuva amainou
Pôs a capa velha e rota
E saiu meio abobado
De uma noite sem dormir...
Me pediu ficar com ela
Levantei bem sonolenta
Escancarei a janela
Peguei o mais novo ao colo
Que chorava sem parar;
Acendi o fogão a lenha
Fervi leite, fiz café
Puxei água da cisterna
Pus no preto caldeirão
Pra ferver, meu pai pediu
Ao sair, sem mais dizer
Mas eu sabia,
Que mais um ia nascer...
Esperei eles chegarem
Minha mãe gemia agudo
E os outros já acordando...
Tudo era feito às pressas
Só a criança não vinha
Talvez não tivesse pressa
De nascer em tal lugar
E corre daqui, dali...
Nem dei conta...

Quando vi,
A parteira segurava
O menino já limpinho...
Muita roupa pra lavar
Muito sangue pra limpar
Mas tudo tão escondido
Camuflado nos caminhos;
A pedido do meu pai,
Matei a galinha gorda
Fiz a canja, dei a ela
Tanto esforço, veio a fome;
Continuei minha lida
E já um tanto perdida,
Chorei... nem sei explicar,
Mas acho que de impotência;
Tanto peso em minhas costas...
Mais um irmão nascido;
Tinha tanto o que cuidar...
Naquele lar sem recursos,
Me vi só...me achei cansada
Tão menina... achava abuso...


n. 182

NEGA FULÔ

Um boi mugiu
Galo cantou
Galinha velha
Cacarejou
Vaca pariu
Menino viu
Susto levou
Correu, chegou
Deu tempo ainda
Cria bem vinda
Juca aparou
Bezerro gordo
Vaquinha mansa
Lambeu a cria
Muita alegria
Nhô Zé ficou;
Lindo presente
Assim chegando
Assim recente,
Chamou, chamou
Nega Fulô
Vem cá, mulher
Vem ver no pasto
Nasceu um macho
Graúdo e esperto...
O leite é farto
Nas tetas grandes
Da vaca Zuca
Muita fartura
Vai ter pra nós
Nem tenho voz;
Santa alegria
Vem cá, meu bem
Que ocê também
Logo alivia
Essa barriga
Que eu emprenhei...
Mais um rebento
Mais uma cria;
Fulo, Fulô
Mato procê
Tanta galinha
Pra fazer caldo
Bem farturoso
Leite cremoso
Você vai ter...
Ordenho cedo
Mor de ocê
Se sentir forte
No amanhecer...
Fulô, sua linda
Nega só minha
Sempre risonha
Ocê nem sonha
Que sorte eu tive
Encontrar você...

n. 204
NOSSO PAIOL
Nos fundos do nosso quintal
Rente à cerca de arames
Tinha um paiol pequeno
Nem carecia ser grande...
Nossa colheita era pouca
Tudo feito na enxada...
Meu pai trabalhava muito
E eu, a mais velha em casa,
Tinha outros afazeres
Mas muitas e muitas vezes
Ajudei-o na lavoura
Gostava de colher feijão
Levava pro nosso paiol
Separava as vagens das ramas
E à noite, com os meus pais,
Ficávamos abrindo as vagens
Pra delas tirar os grãos;
Gostava desse trabalho
Era descanso pra mim
Podia fazer sentada...
Meus irmãos iam dormir
E a gente aproveitava
Pro trabalho render mais
Minha mãe contava histórias
Da sua infância de glórias
Meu pai ouvia calado,
Triste... e penso eu,
Por não poder dar a nós
E tampouco dar a ela
Nada que fosse parecido
Com aquela sua história...
E então, em certa noite
Quando minha mãe contava
Da fartura que tivera
Na casa dos seus pais,
Vi que meu pai chorava...
O paiol estava escuro
Quase nada se enxergava
Mas o choro do meu pai
Um choro baixo e soluçado
Não carecia de luz pra ser notado...
Nunca mais eu me esqueci
Daquele choro sentido
E aquele paiol sombrio
Símbolo da impotência
E da tristeza do meu pai
Ficou em mim como sendo,
O lugar mais doloroso,
Que se possa imaginar...


n. 245

NETOS DISTANTES

O sol foi dormir
Acendeu forte a lua
O céu ficou prenhe
Encheu-se de estrelas
E a saudade me veio
Mais forte que nunca
Saudade tão crua
Apertando meu peito
Doendo, querendo
Fazer-me refém
Da imensa tristeza...
Chorei com vontade
De trazer vocês
Meus netos queridos;
Buscar lá em Austin
Trazê-los aqui
Bem perto, afagar
Livrar-me da dor
De tanta distância...
De tanto esperar...
Que herança é essa
Que desde criança
Me vem perseguindo...
Então eu abraço,
Enlaço bem forte
Vocês meus meninos
Tão longe daqui...
Aí me contento
Que embora distantes
Vocês, meus queridos
Estão muito bem
E fico pensando
Nos nossos encontros
Vocês tão felizes
Me fazendo rir,
Com aquele sotaque;
De tudo eles riem,
Da vó tão doidona...
E tiram o sarro
Do inglês que eu falo
Nem mesmo perdoam,
Meu bom português
Pois dizem ser ele
Meio acaipirado...
Mas o que mais amo,
É vocês me olhando
Dizendo vovó
Fazendo perguntas
De tantos assuntos;
Não... nada é melhor
Meus queridos netos
Que estar com vocês
Assim... todos perto....


174

O CANTO DA ARAPONGA...


Uma araponga cantou
Triste... nem sei porque,
Canta triste aquela ave...
Dizem que quando ela canta
Está querendo dizer
Que na terra vai chover...
Fiquei me perguntando,
Porque essa ave canta
O seu canto anunciando
A chuva tão desejada...
Araponga, minha ave
De cantar tão esperado
Lá na mata onde eu vivi
Quando ainda bem menina,
Minha sina era esperar
Você, araponga cantar
Pra florir nossa lavoura
Criar cachos o arroz
Brotar as vagens das flores
Do feijão essencial 
Das espigas bem granadas
No imenso milharal...
Araponga, eu chamo agora
Canta, ave..
Traz a chuva...

Não demora...
Peça pra chuva vir
Sem espanto... bem fininha
Leve, caindo mansa
Molhando o solo que implora
A água que vem do céu...
Canta, araponga... canta...
Quero ouvir o seu cantar
O canto que embora triste,
Anuncia a chuva fria
Molhando, trazendo fartura
Nos enchendo de alegria...
Canta, ave... convida a água
Pra jorrar das suas fontes
Levar a sede...trazer a vida
Enverdecer prados... montes...
Lavar a alma sofrida....

n. 198

O EREMITA

Tinha manto esfarrapado
De um marrom tão desbotado
Que nem mesmo ele sabia
Se marrom, já fora um dia...
Certa vez o encontrei
Na mesma estrada
Que era caminho de casa...
Então, o acompanhei
E o convidei a ir comigo
Pois sabia que meus pais
Muito se alegrariam...
Ele sem pestanejar,
Aceitou, varou a cerca
Fazendo um grande esforço...
Todos o conheciam
Por aquela região;
Falavam do homem bom
Que fazia até partos,
Caso fosse necessário...
Minha mãe lhe deu almoço
Muita água ele bebeu
Pegou mais água do poço
Pra encher sua moringa
Descansou bem pouco tempo
E então disse:
Estou indo, minha filha...
Mas antes de ir embora,
Viu que meu pai chegava
Com um talho grande no pé;
Sangrava muito
E a enxada que o cortou
Era velha, enferrujada...
Então ele pediu água
Pra lavar o ferimento
Tirou do seu embornal
Tudo o que precisava
Pra limpar e pra curar
Aquele corte profundo;
Estancou o sangue
E deixou material
Para outros curativos;
Minha mãe até chorou
Meu pai, muito agradeceu
E então, daí dois dias,
O bom homem lá voltou
Trazendo alguns remédios;
Fez um novo curativo
Era noite bem escura
Meus pais lhe deram abrigo
Mas quando no outro dia,
Quase madrugada ainda
O meu pai se levantou,
Ele já havia ido,
Deixando em cima da mesa
Uns trocados tão bem vindos...
Nunca mais o vi por lá
Diziam que havia morrido
O que nunca foi confirmado
Contudo dentro de mim,
Ele continua bem vivo...


O OUTRO - 19

Olho o outro e me vejo
Nos seus olhos me espelho
E no espelho eu encontro
As mesmas buscas e sonhos...
Somos partes um do outro
Vivemos os mesmos tempos
As dores são tão iguais
As buscas se entrelaçam
No mesmo eterno buscar...
Nossas almas são eternas
Nossos gostos são iguais
Sal, açúcar, frio, quente
Temperando tão somente
Eu aqui...ele acolá
Ah... meu ego é tão igual
Discrepâncias que carrego
Enganos nos meus egos
Nada...tudo...tudo igual...
Vejo o outro, vejo a mim
E assim, olhando o outro,
Me espelho, me percebo
Ele sou eu... eu sou o outro...



OS ANOS QUE ME RESTAM - 48

Já vivi uns tantos anos
O bastante pra aprender
O que devo, posso e quero
Pra mim, nos anos que restam...
Tanto tempo já vivi...
Por isso me cabe aqui
Dizer sem falso pudor
Sem medo de revelar
Que aquilo que aprendi
Me faz pensar no melhor
Pra viver meus outros anos
Ainda aqui neste plano...
Dez... vinte, se tanto
Tão pouco, passam depressa
E então a hora é esta
De viver intensamente...
Escolher viver ao lado
De pessoas que me tragam
Alegria, força, luz...
Não me deixar seduzir
Por coisas reles, banais...
Ouvir mais os sons lá fora
Não ter pressa de ir embora
Se o momento for feliz...
Escutar mais as pessoas
Valorizar bem o tempo
E saber que os contratempos
Também passam...vão embora
Chorar mais de alegria
Não curtir as dores frias
Perceber a dor alheia
Ajudar, sofrendo pouco
Cultivar plantinhas bobas
Olhar nos olhos do outro
Abraçar o abraço forte
E não ter a tal vergonha
De demonstrar meu amor...
Fazer mais aquilo que gosto
Tais como ler... escrever...
Passear sempre que posso
Escolher, no prazer da mesa
O que me for mais saudável...
Não viver fazendo dietas
Mas comer com parcimônia
Sem banir do meu cardápio
As coisas que eu mais gosto...
Priorizar a família
Sempre mais... querer ficar
Junto dos meus, dos que amo
Usufruir da alegria
De estar com os meus netos
Enquanto ainda crianças
Porque depois que eles crescem
Alçam voos mais distantes...
Rir mais, se é que é possível...
Rir de mim... sorrir pra todos
Me entregar de corpo e alma
Revelar meus sentimentos
Sem medo de ser piegas...
E na entrega, permitir
Caminhar a vida, leve...
Sem pressa...
Que a vida é breve....




O BASTARDO - 89

Corria daqui... dali....
Ligeirinho, tinha pressa
Carriola carregada
Tão criança... pequenino...
Burro de cargas da família
Foi pego aos três aninhos
Ficou órfão muito cedo
E o casal que o adotou
O fazia de brinquedo
Quanta judiação... 
Surras... e nada de dizer não
Era um menino bom
Mas estranho...
Feinho... desarranjado
Estava sempre suado
Sujinho...

E mesmo desdentado
Sorria sempre,
Seu sorriso desajeitado...
Parecia pedir desculpas
Mesmo sem culpa...
Sua imagem não me sai
Eu também era criança...
Minha mãe o aconselhava
Que tivesse paciência
Ele dizia... vou ser padre;
Um dia, vou rezar missa
Comia o que lhe davam
E as roupas
Grandes ou apertadas,

Usava-as mesmo assim;
Sabia agradecer
Vivia de migalhas
Os tempos eram outros
Quase ninguém se importava
Pelas  crianças sofrendo
Era assim...criança,
Só um detalhe...
Elas não tinham vez
E assim se fez com ele...
Soube anos depois
Que tentou ser sacerdote
Mas, por ser afeminado
Lá também foi enjeitado....



O LOBO E O MATUTO - 151
Ouvi distante, muito estranho
E foi ficando mais perto
Distinguido... Era um uivo
Que vinha lá do serrado...
Eu tremia, estava longe
Do lugar onde meu pai
Me esperava todo dia
Pra levar o seu almoço
Que eu, nos meus nove anos,
Achava longe demais
Tinha medo, ao passar...
Nenhuma casa por lá
E o uivo foi crescendo
Ficando mais e mais perto
Pensei até em voltar
Mas não... era preciso encarar...
De repente, ensandecido
Louco e uivando fino
Passou por mim feito bala
Deixando um rastro de sangue
Um grande animal ferido...
Posso jurar... era um lobo
Machucado... deve ter levado um tiro
Mas meu pai disse que não
Que lá não havia lobos
Disse com muita certeza
Ser um cachorro louco
Que alguém tentou matar
Mas pra mim, ficou bem certo
Que aquele animal ferido
Era sim, um grande lobo...
E meu medo então cresceu
Toda vez que eu passava
Naquele estranho lugar...
Mas meu pai mudou de roça
Foi trabalhar bem mais perto
Já não era tão deserto,
O caminho que eu fazia...
Foi então que certo dia
Um matuto me seguiu
Eu corri, ele corria
Derrubei toda a comida
Que levava pro meu pai
Me restou voltar pra casa
Que sufoco... medo louco
Maior que o medo do lobo...

O PERFUME DO MONGE - 39
Um rouxinol cantou
Seu canto alegre e doce
Qual fosse
O som do mais belo hino
Enquanto abutres famintos
Pairavam no céu
Já cansados...
E rondando ao leu,
Crocitavam em mau agouro
Farejando  longe
A figura espectral do monge;
Cansado, doente, trôpego
De pregar talvez em vão,
Aos tantos pagãos sem nome
Pobre monge com fome...
Levando consigo apenas
Tantas horas de novenas
Desfiadas no rosário
E no seu triste calvário
Na cinzenta tarde fria
Enverga o corpo, solitário...
Deita ao chão  a sua cruz
Expirando em agonia
Transido de dor... exangue
Clama por seu Jesus;
Apela aos abutres que esperem
Mais um pouco...
Mas eles em ruídos  roucos,
Voam baixo... andam coxos,
À espera do seu morto...
E eis que do corpo em transe
Exala um perfume doce
Tão suave qual fosse
A mais pura e nobre essência
E as aves que esperavam
Com avidez a carne morta,
Não encontram permanência;
Se exasperam... voam longe...
A elas não interessa
Da alma, o perfume do monge...



163
ODE À CHUVA...
Lá vem ela... caindo
Cantando em uníssono
Verdejando o verde
Florescendo lírios
Fazendo enlevos
No correr das águas
Trazendo as preces
Descidas do alto...
Gosto tanto de você,
Chuva miúda, mansa,
Ou mesmo torrencial...
Me emociona seu manancial
De bênçãos e favores
Festival de banquete farto;
Chuva mãe..
Parto sem dor
Que não se cansa
Da derrama pródiga
E em acordes,
Faz eclodir da terra
Brotinhos silenciosos
No farto da sementeira...
Chuva mansa
Criadeira
Alvissareira...
Manancial dos céus...
Vem, chuva, cair ao léu...
Molhar faceira
A terra árida
Que espera de você
Em avidez, a vida ...
Vem, querida
Cantar doce aos ouvidos
O canto mais afinado
Desejado de se ouvir...
Vem saciar a nossa sede 
E nem pense em ir embora...
Tão cedo...Fique aqui...
Faz parir do solo em festa,
O amor brotando em cores
Com seus quadros mais diversos...
Vem, chuva, com seus amores, 
Alimentar meus versos...

n. 184
OFEREÇO A VOCÊ MANOEL, ONDE QUER QUE SE ENCONTRE HOJE
O VELHO E O MAR
Na areia, o olhar distante
Via ao longe um farol triste
Tênue... parecendo se apagar
Aos poucos... como a mostrar,
Seu cansaço em alto mar...
Desgastado, feito o velho
Olhando manso em silêncio
Com seu olhar apagado
Qual o farol cansado
De ver tanto... iluminar
Os que iam, e não voltavam
Deixados em alto mar...
E o farol, mirava o velho
E o velho, mirando o mar,
Não perdera a esperança
De um resgate, o que fosse
Que trouxesse pros seus braços
O filho que então partira
Pra buscar em alto mar,
O sustento da família...
Velho homem de olhar triste
Velho pai e pescador
Desde os tempos de menino
Curtido no sol antigo
Fechado na sua dor...
Pobre homem sem destino
Feito o filho, que o deixou
Velho mar em desatino
Querendo trazer de volta
O filho que lhe roubou
Esperança que não finda
Vem e volta feito a onda
Que assombra noite adentro...
Esperança tem ainda
O velho pai pescador
Que o mar lhe traga de volta
O filho que há tempos levou
Numa noite feito essa,
Escura em mar revolto,
Triste sina... Amarga espera...
(meus respeitos a Ernest Hemingway
pois o título destes versos é o mesmo
de uma de suas grandes obras).

 O LAVRADOR - 61

Passando, vi um lavrador
Apoiado ao cabo da enxada
Pitava longe, absorto
O seu cigarro de palha
Num sol quente de doer...
Parecia até feliz
Passei por ele
Cumprimentei-o e disse
Cigarrinho bom, é esse...
No que ele respondeu
É, moça...é muito bom
Colhi a palha na roça
E o fumo eu mesmo plantei
Adubei com meu suor

O milho eu capinei
Vi crescer, formar espigas
Depois vi ele granar
Fiz curau, pamonha, tudo
O que o milho pode dar...
Debulhei... tratei galinhas
O gado eu alimentei
A palha sobrou...guardei
Pito o meu pito com gosto
O melhor que eu já fumei...
Foi mais ou menos assim
Nossa conversa gostosa
Ele falando de coisas
Que eu conheço muito bem
Plantar e colher o milho
Fazer curau e pamonha
Debulhar quando está seco
Só não entendo de pito
Sim...aquele das baforadas...
Mas vi plantações de fumo
Sei muito bem sobre isso...
Ficaria horas com ele
Falando, filosofando
Aprendendo, sentindo
O cheiro doce da terra...
Me enleva, me enriquece
Vejo nisso uma prece
Lembrei-me então do meu pai...
Plantar o milho... capinar
Olhar o céu, implorar
Que abrande o sol
Que venha a chuva
Cresça o milho, grane farto
E nos encha de fartura...

O BUCHEIRO - 09

Passava buzinando
Todos conheciam
O som da buzina
Chamando, convocando
As tão atarefadas senhoras...
Donas de casa corriam
Era preciso ir depressa
O bucheiro tinha pressa...
E se as mães não ouviam
As crianças avisavam
E a carroça bem fechada
Brecava...o dono descia
Vendia bucho de vaca
Fígado, rim, fraldinha
Coração, lingua... que mais...
Acho que era isso
Chamava de miúdos
E saiam mais baratos
Que as carnes nos açougues                               
Era assim que os mais pobres
Podiam comer  melhor;
Minha mãe comprava pouco
Já que pra nós
Nem sempre sobrava uns trocos
Coisa de louco, aqueles tempos
Difíceis... mas me lembro
Com uma certa ternura
Que alegria eu ficava
Quando o bucheiro passando
Via minha mãe correndo
Com um prato e uns trocados...
Eu corria junto
Ah... que medo
De perder o tal bucheiro...

Número 516

ORQUESTRA

Uma orquestra toca ao longe
Remetendo-me ao passado...
Meus ouvidos ouvem perto
Os sons que estão em mim
Ainda...vibrantes....incertos....
Mas tão perto que até doem
Minha alma, assim desperta
Meu presente me deleita,
Minha festa presenteia...
Traz-me distantes segredos
Voltando aos tempos de outrora
Insegura, busco a aurora
E a encontro ainda em mim
Latente em minha senhora,
Que ao se revelar, me acorda
Me alerta pra sonhar,
Viver, sentir, desejar
Da vida, o lado sonoro
Que entranhado ainda está
Em mim... qual embrião,
Em orquestra se formando
Sugando da vida o mel
Adoçando mais ainda
O amor...cerne da vida....

Número 503
OBRA PRIMA

Ela estava tão cheirosa
Bem vestida, lindo porte
Se transportava com graça
Tão jovem, tão graciosa...
Requebrava seus quadris
Sutilmente... feito onda
Mansa, silenciosa
Sem saliência, querendo...
Não querendo ao mesmo tempo
Parecer gata manhosa...
Eu a vi... outros a viram
E a olharam com gosto
Bela figura passando
Um rosto mais que perfeito
Qual seria seu defeito
Naquele corpo esculpido
Matéria prima do barro
Desenhado, moldado
No silêncio, certa vez,
Um casal em doce coito
A fez com muito gosto
Esculpindo na surdina
Noite escura, madrugada
Ou manhã ensolarada
Não importa... dia, hora
Qual o ano, qual o mês
Obra prima, feito deusa
Moça linda... quem te fez?




O OVEIRO - 08

Elias comprava ovos
Pelos sítios e fazendas
Fazia trocas... levava
Na carroça aparelhada
De um tudo....
Elias era esperado
Pelas mulheres, crianças
Os homens também esperavam;
Ia lotada a carroça
Pelas roças, pelas casas
Tinha sempre o dia certo
E o horário respeitado;
Era quase uma festa
Elias chegava, se abancava...
A carroça rodeada
Gente chegando, vendo
Descobrindo novidades
Um corte de vestido
Brim pra calça de riscado
Velas pros finados
Panelas, canecos, bacias
Que alegria...brincos tão lindos
Pareciam  de cristal
Rendas, aviamentos
Material escolar...
Um cristo crucificado
Momento tão aguardado...
E as pessoas chegando...
Com ovos, frangos, perus
Pra trocar, fazer negócio
Eu então, era vizinha
Do oveiro, na cidade
Comprava dele coisinhas
Também trocava com ele
Por frangos, ovos, galinhas
As vassouras fabricadas
Pelo meu saudoso pai
Era muito bom aquilo
Pureza... leveza...
Grandeza na vida simples...
Elias, nosso oveiro...
De você sinto saudades
Até um dia, querido....
Quem sabe.....



O SINEIRO - 88


Vivas ao sineiro da matriz
De há muitos, muitos anos
Uns setenta ou até mais...
Ao ouvir dobrar o sino
A cidade já sabia
Marcelino estava lá
Cumprindo sua missão...
Fazia de coração
Qualquer toque, repicar
Fosse dobre de finados
Fosse anunciando a missa
Enterro de gente velha
Ou enterro de um anjinho
Lá estava Marcelino...
Cada fato, um dobrado
Nem precisava avisar
Todo mundo já sabia
O que estava acontecendo
Sineiro tão antigo
Tocando seu velho sino
Companheiros na missão
De chorar os seus finados
De alegrar a multidão
Nos toques tão variados
Nobre arte... aprendizado
Antigo...bater do sino
Não se aprende assim sem mais
Leva tempo... só Deus sabe...
Marcelino dissertava
Sobre cada um dos toques
Ah... badalar missa do galo
Era o som que mais gostava
Tão alegre... repicava
Festivo... toque de gala
Também era muito bom
O toque das seis da tarde
Mas era tão triste o dobre
Anunciando lento
O enterro de criança...
Marcelino contava
Subir  tantas escadas
Pra alcançar aquela corda
E se fosse anunciar
Missas...coisas alegres
Nem sentia ou se cansava
Mas se fosse badalar
Pelo enterro de um anjinho
Ou de gente ainda jovem
Ah... como isso lhe pesava...
Marcelino... bela arte
A sua de tocar sino...
Começou desde menino
Tantos anos...velho homem
Velha corda...velhos hinos
Tanta história em seus acordes....
Ainda estão em seus ecos;
Mas quando você partiu
Ninguém tocou pra você
Tão bonito, aquele sino...


n. 236
OCEANO

Tenho em mim um oceano
De planos, desejos, sonhos...
E nas águas que me acalmam,
Ondas que vão e vêm
Flutuantes, espumando...
Branquinhas elas navegam
Como um barco remando
Na sutileza dos lagos
Na gentileza dos rios...
Às vezes me vêm a mil
Deixo que as ondas venham
Me contenho... é preciso
Sei querer... vou lá buscar
Bem no fundo do oceâno
Volto trazendo tudo
Aposto no que acredito
Procuro pensar no bem
Peço só o que mais preciso
Agradeço... me engrandece
Todos os bens recebidos
Sim, tenho em mim um oceâno...
Como todo mundo tem
Nele busco sobretudo
Saber mais do que já sei...
Nas marés, eu me ajeito
Aceito qualquer ajuda...
Quando esbarro na tristeza
Saio logo, não me afogo
Acredito sim, no bem...
Nas ondas que trazem, levam
Num eterno vai- vem...

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