n. 214
CACHOEIRA
Nas noites calmas, sem chuva
Sem vento, nem ventania
Quando todos já dormiam
Eu ouvia, feito música
O barulho repousante
Da água caindo mansa
Na cachoeira... bem perto da nossa casa
E ao ouvi-la eu pedia
Pra levar junto com ela
No rio de águas correntes
Meus temores, minhas mágoas...
Que levasse os meus medos
Pra bem longe... sem deixar
Nenhum vestígio daquilo
Que vivia a incomodar...
Eu era menina triste
Preocupada em ajudar
Na melhora pela vida
Tão difícil de levar
Medo de tanta coisa
Na falta de quase tudo
E como se não bastasse,
Tinha medo do inferno
Via fogo à minha volta
Via o capeta rondando
Me achava pecadora
Só pelos pensamentos
E qualquer mentirinha contada
Vinha forte o meu tormento...
Mas a água caindo mansa
Me trazia certa paz
Dormia com seu embalo
Acalmava o meu penar
Hoje me lembro dela
Curiosa por saber
Se você, minha querida
Cachoeira eterna amiga
Com tudo assim tão mudado
Será a mesma ainda?
Saudades dos seus embalos...
CACHORRINHO SEM DONO - 57
Apareceu no quintal
Do sitio onde eu morava
Um cachorrinho bem preto
Olhinhos vivos, brilhantes
Me afeiçoei ao bichinho
Mas mandavam ele embora
Não gostavam de cachorros
Nem sei porque não gostavam
Já que a explicação que deram
Nunca me convenceu...
Tentei ficar com ele
Não deixaram... tinham medo
Contavam que em tempos idos
Um parente da família
Havia sido mordido
Por um tal cachorro louco
Era assim que eles diziam...
E que não houve meios
A prima acabou morrendo
Eu não entendia aquilo
Queria ele pra mim
Me escondia atrás da casa
Com ele sempre no colo
Ah, se eles descobrissem...
Eu sempre arranjava um jeito
De dar-lhe uma comidinha
Mas tudo muito escondido
E quando ia pra escola
Ficava sempre pensando
Será que vou encontrar
Ainda lá meu menino?
Mas passados poucos dias
Encontrei o cão pretinho
No meu caminho de volta
Ferido de morte, agonizando
Nada eu pude então fazer
Se vivo ninguém queria
Quase morto, iam querer?
CABOCLA - 17
Na beira do caminho
Tem um pé de jatobá
Tem jabuticaba doce
Tem goiaba e araçá
As mangas estão caindo
Amarelinhas que só
Forram doces os caminhos
Cheiram forte...ah, que dó
Da mulher escorregando
Na casca lisa da manga
Se levanta, leva embora
Amora, jaca, pitanga
Misturadas num balaio
Fartura... olha de soslaio
Leva toda a carga embora
Pega um bocado de amoras
Diz consigo, pensa alto
Vou oferecer pro santo
Tirar todo esse quebranto
Que me faz abrir a boca
Sou cabocla, sou daqui
Sou da roça, da enxada
Pego a estrada, vou pra ali...
Tenho todos os caminhos
Cumpro todos... o que importa
É viver o que comporta
Gosto da vida assim...
Sou caipira... sou da roça....
166
CALAR....
Quem cala consente?
Não...nem sempre...
Nos calamos muitas vezes,
Não porque aceitamos
Mas porque, naquele momento,
Era o que tínhamos em mãos...
Nos calamos muitas vezes,
Porque vemos,
Que falar será em vão
Nos calamos, pra evitar confusão
Nos calamos, fingindo aceitar
Nos calamos por calar,
Pra não causar maior desgaste
Naquilo que já puiu;
Nos calamos, pra evitar dizer bobagens
Por nos sentirmos impotentes
Ou por nos vermos diante
De alguém incompetente
Gente que nada entende,
Mas tudo diz
E não consegue enxergar
Um palmo adiante do nariz;
Nos calamos, pois muitas vezes
Perdemos o chão... ficamos pasmos
Com certos "argumentos"... certas situações...
Quando às vezes, por um triz,
Não perdemos a razão...
Nos calamos, pra não perder a cabeça
Pra evitar que aconteça
Certamente, o pior...
Calamos a nossa voz
Mas não cala o coração
Nos calamos... engolimos goela abaixo
Deixamos passar batido
Buscamos outros sentidos
E aprendemos com aquilo;
Nos calamos... engolimos...
Mas nem sempre consentimos...
Não...nem sempre...
Nos calamos muitas vezes,
Não porque aceitamos
Mas porque, naquele momento,
Era o que tínhamos em mãos...
Nos calamos muitas vezes,
Porque vemos,
Que falar será em vão
Nos calamos, pra evitar confusão
Nos calamos, fingindo aceitar
Nos calamos por calar,
Pra não causar maior desgaste
Naquilo que já puiu;
Nos calamos, pra evitar dizer bobagens
Por nos sentirmos impotentes
Ou por nos vermos diante
De alguém incompetente
Gente que nada entende,
Mas tudo diz
E não consegue enxergar
Um palmo adiante do nariz;
Nos calamos, pois muitas vezes
Perdemos o chão... ficamos pasmos
Com certos "argumentos"... certas situações...
Quando às vezes, por um triz,
Não perdemos a razão...
Nos calamos, pra não perder a cabeça
Pra evitar que aconteça
Certamente, o pior...
Calamos a nossa voz
Mas não cala o coração
Nos calamos... engolimos goela abaixo
Deixamos passar batido
Buscamos outros sentidos
E aprendemos com aquilo;
Nos calamos... engolimos...
Mas nem sempre consentimos...
168
CHORE....
Chora a dor que te incomoda...
E o pranto vertendo quente
Chora qual fosse o ventre
Que sem ter como conter,
Expele sem te dares conta
De ti, a própria semente...
Chora tudo... escoa a dor
Mina a causa do teu pranto
Sofre tudo a um só tempo
Não dês tréguas ao lamento;
Sofrimento não tem hora...
Quando vem, é furacão
A destruir por onde passa,
Sem pena nem compaixão...
Chora, sofre, entrega-te
Na entrega dessa dor
Nem penses sentires vergonha
E não faças cerimônia
Quando a dor que fez doer,
Veio mesmo pra valer...
Mas depois, dá teu adeus
Ao pranto que já se foi
Dá adeus, e vira as costas
Àquilo que fez doer...
Toca em frente, não lamentes
Já é hora de esqueceres
Pois o mesmo que incomoda
É o que te fez crescer...
Tudo vem na hora certa
E nas nossas descobertas,
Vamos ver que foi melhor
Pois todo acontecimento
Por mais triste que pareça,
Tem seu jeito de ajeitar
Veio só pra melhorar...
Porque nada é por acaso
Então... chega de chorar...
E o pranto vertendo quente
Chora qual fosse o ventre
Que sem ter como conter,
Expele sem te dares conta
De ti, a própria semente...
Chora tudo... escoa a dor
Mina a causa do teu pranto
Sofre tudo a um só tempo
Não dês tréguas ao lamento;
Sofrimento não tem hora...
Quando vem, é furacão
A destruir por onde passa,
Sem pena nem compaixão...
Chora, sofre, entrega-te
Na entrega dessa dor
Nem penses sentires vergonha
E não faças cerimônia
Quando a dor que fez doer,
Veio mesmo pra valer...
Mas depois, dá teu adeus
Ao pranto que já se foi
Dá adeus, e vira as costas
Àquilo que fez doer...
Toca em frente, não lamentes
Já é hora de esqueceres
Pois o mesmo que incomoda
É o que te fez crescer...
Tudo vem na hora certa
E nas nossas descobertas,
Vamos ver que foi melhor
Pois todo acontecimento
Por mais triste que pareça,
Tem seu jeito de ajeitar
Veio só pra melhorar...
Porque nada é por acaso
Então... chega de chorar...
CHUVA DE ROSAS - 25
Sonhei numa bela noite
Com pétalas caindo aos montes
Vinham em muitas cores
Vermelhas, brancas, douradas
A prata predominava...
Tinha pétalas azuis
Um azul que eu nunca vi
E as pétalas ao caírem,
Viravam asas de anjos
Desciam caindo... vindo...
Sem ter pressa de chegar
Vinham todas sobre mim
Avalanches em cascatas
Tanta rosa eu nunca vi...
Beleza rara, instigante...
Seriam rosas daqui?
Não... beleza tão radiante
Como eu nunca, nunca vi...
Deu-me a plena certeza,
Elas não vinham daqui...
CHORONA - 55
Houve um tempo bem distante
Em que chorar não se podia
Mas eu chorei tudo o que pude
Nunca segurei as dores
Nem as lágrimas abundantes
Que jorravam com frequência
Não tinha esses pudores
Pra mim o choro foi sempre
Bem chorado, revelado...
Que me vissem como fosse
Chorona, molenga, fraca
Mais ainda eu chorava
Sim... chorei, chorei com gosto
Dos desgostos, das angústias
Das penúrias, desencantos
Chorava bem no meu canto
Me lembro que certa vez
Quando eu tinha uns cinco anos
Chorei...ninguém foi pra ver,
Porque o choro era tanto...
Chorei até que o sono
Me fez dormir soluçando
E então, quando acordei
Continuei chorando
Já nem sabia porque
Mas creio que de tristeza
Frustração ... carência
Impotência... sei lá...
Seja o que for,
Tudo passou
Deixa pra lá...Houve um tempo bem distante
Em que chorar não se podia
Mas eu chorei tudo o que pude
Nunca segurei as dores
Nem as lágrimas abundantes
Que jorravam com frequência
Não tinha esses pudores
Pra mim o choro foi sempre
Bem chorado, revelado...
Que me vissem como fosse
Chorona, molenga, fraca
Mais ainda eu chorava
Sim... chorei, chorei com gosto
Dos desgostos, das angústias
Das penúrias, desencantos
Chorava bem no meu canto
Me lembro que certa vez
Quando eu tinha uns cinco anos
Chorei...ninguém foi pra ver,
Porque o choro era tanto...
Chorei até que o sono
Me fez dormir soluçando
E então, quando acordei
Continuei chorando
Já nem sabia porque
Mas creio que de tristeza
Frustração ... carência
Impotência... sei lá...
Seja o que for,
Tudo passou
CHORA, PASSARINHO....- 38
Canta triste, chora a ave
Passarinho, meu amor
Quem será que por maldade
Destruiu o doce ninho
Que você, tão devagar
Construiu pra pôr chocar
Ovos assim tão frágeis....
Conta ao mundo, avezinha
O desaforo e a insensatez
De quem por prazer destruiu,
Aquilo que por amor,
Com paciência você fez...
Acho isso um despautério
São mistérios...que dizer...
Da insondável mente humana
Destruindo assim, sem mais
Coisas tão preciosas
Porém, vistas tão banais...
Canta, ave, a dor do mal
Não segura o canto triste
Mostra ao mundo a dor que existe
Porque você, avezinha
Também nutre o mesmo amor
E sente doer a dor
Tanto quanto nós sentimos
Quando vemos destruídos
Nossos sonhos ainda em flor...
Canta, doce amiguinho
Se eu pudesse, se eu soubesse
Construiria pra você
Tantos ninhos quantos desse
Pra abrigar os seus ovinhos
Festejar seus filhotinhos
E pra nunca mais ouvir
Seu cantar chorado em vão...
Canta, chora, explode o peito
E já que não tem outro jeito
Constrói outro ninho, então...
CEMITÉRIOS - 74
Tenho amizade com eles...
Afinidades...morei perto
De um deles, fui amiga...
Ele foi meu confessor
Fiz genuflexão no cruzeiro
Ajoelhei na cera quente
Derretendo, fumegantes
Rezei preces tão ardentes...
Fui constante, indo lá...
Vi choros, tantos suspiros
Escutei tristes gemidos
Dos que iam sepultar
Os seus entes tão queridos
Filhos, irmãos, amigos....
Chorei muito, estando lá....
Não, não sou mórbida...
Mas lá, encontrava alento
Tão mocinha, era eu...
E as almas me ouviam
Caladas, me entendiam....
Contava minhas angústias
Pedia que me ajudassem...
Lá, os choros tinham eco
Me sentia aliviada,
E nas tristezas choradas,
Sabia não estar sózinha
Conversava com as almas...
E á noite, em minha cama
No vento, ou na doce brisa,
Divagando, eu sempre ouvia
Clamando, as coroas de lata
E das pobrezinhas covas,
O tilintar das cruzinhas...
Canta triste, chora a ave
Passarinho, meu amor
Quem será que por maldade
Destruiu o doce ninho
Que você, tão devagar
Construiu pra pôr chocar
Ovos assim tão frágeis....
Conta ao mundo, avezinha
O desaforo e a insensatez
De quem por prazer destruiu,
Aquilo que por amor,
Com paciência você fez...
Acho isso um despautério
São mistérios...que dizer...
Da insondável mente humana
Destruindo assim, sem mais
Coisas tão preciosas
Porém, vistas tão banais...
Canta, ave, a dor do mal
Não segura o canto triste
Mostra ao mundo a dor que existe
Porque você, avezinha
Também nutre o mesmo amor
E sente doer a dor
Tanto quanto nós sentimos
Quando vemos destruídos
Nossos sonhos ainda em flor...
Canta, doce amiguinho
Se eu pudesse, se eu soubesse
Construiria pra você
Tantos ninhos quantos desse
Pra abrigar os seus ovinhos
Festejar seus filhotinhos
E pra nunca mais ouvir
Seu cantar chorado em vão...
Canta, chora, explode o peito
E já que não tem outro jeito
Constrói outro ninho, então...
CONTENHO TODOS - 02
Sou vasta... imensa...
Contenho todos
E atenta
A tudo à minha volta,
Vou sorvendo aos poucos
O mel e o veneno...
Não me alimento só do mel
Contenho o inferno e o céu...
Sou vida e morte
E os altos e baixos,
Já não me assustam mais...
Sou bem capaz,
De ver através de...
Mas quero sempre,
Enxergar o melhor
Ao invés
De só ver defeitos...
Mas é meu direito,
Vez em quando
Mudar de lado
Observar... esvaziar...
Para depois,
Me encher de novo
De um novo mundo
Que às vezes crio
Mas o meu mundo,
Nunca é triste
E nem vazio...
Pois sou imensa
Intensa...
Sou céu e terra
Sou água e fogo
Contenho tudo
Contenho todos...
CORPO E ALMA - 76
Em sonho, vi o corpo de minha mãe
Sepultado...tão sózinho em sua cova
Se ao menos, no sonho tivesse visto
Meu pai, que descansando o mesmo sono,
Estivesse acariciando a sua morta...
Mas não...foi tétrico, aquele sonho...
Quando penso, tenho um sentir estranho
Ao lembrá-la assim tão exposta...
Suas entranhas em avidez devoradas
Imagem desoladora e profana
Mãe... profanaram tuas entranhas...
E ao me ver, soluçando em dor profunda
Me consolou, feito eu fosse uma criança
Então, surgindo bem ao meu lado
Tão igual quanto a vi nos tempos idos
Colocou suas mãos sobre os meus ombros
E falou... porque chora tão sofrido?
Não sou isso que você vê
Meu espírito é luz, é alegria...
E sorrindo, foi aos poucos se afastando
Vi seu vulto... tinha a sombra de um anjo...
CORPO E ALMA - 76
Em sonho, vi o corpo de minha mãe
Sepultado...tão sózinho em sua cova
Se ao menos, no sonho tivesse visto
Meu pai, que descansando o mesmo sono,
Estivesse acariciando a sua morta...
Mas não...foi tétrico, aquele sonho...
Quando penso, tenho um sentir estranho
Ao lembrá-la assim tão exposta...
Suas entranhas em avidez devoradas
Imagem desoladora e profana
Mãe... profanaram tuas entranhas...
E ao me ver, soluçando em dor profunda
Me consolou, feito eu fosse uma criança
Então, surgindo bem ao meu lado
Tão igual quanto a vi nos tempos idos
Colocou suas mãos sobre os meus ombros
E falou... porque chora tão sofrido?
Não sou isso que você vê
Meu espírito é luz, é alegria...
E sorrindo, foi aos poucos se afastando
Vi seu vulto... tinha a sombra de um anjo...
CELEBRAÇÃO - 03
Eu celebro a mim, e ao outro
Qual o amor, celebra a lua
O amanhecer, celebra o dia,
E o amante, a mulher nua...
Celebramos juntos os nossos sonhos
E a exaltação de todos...
Não somos partes... somos unos
E do Ser que há em nós
Geramos amor... Parimos flores...
Somos seres adornados
Perfumando... perfumados
Corre em nós, a mesma seiva
Feito o rio cálido e manso,
Alimentando vidas...
Gestamos, invocando,
Implorando que sejamos
Que tenhamos sempre viva
A chama que nos move...
Eu celebro, cada átomo de nós...
Cada gota de suor
Cada partícula de mim...
Celebro a dor, que me faz crescer;
Ser melhor, como pessoa...
Mas não deixo que a dor fique;
E ao livrar-me dela,
Celebro qual fosse,
O chegar da primavera...
Celebro a alegria
E o raiar de um novo dia...
Celebro a vida,
Gerando outras...
Da Fonte, celebro a graça
E o dom do saber,
Do sentir, amar, e ser...
CEMITÉRIOS - 74
Tenho amizade com eles...
Afinidades...morei perto
De um deles, fui amiga...
Ele foi meu confessor
Fiz genuflexão no cruzeiro
Ajoelhei na cera quente
Derretendo, fumegantes
Rezei preces tão ardentes...
Fui constante, indo lá...
Vi choros, tantos suspiros
Escutei tristes gemidos
Dos que iam sepultar
Os seus entes tão queridos
Filhos, irmãos, amigos....
Chorei muito, estando lá....
Não, não sou mórbida...
Mas lá, encontrava alento
Tão mocinha, era eu...
E as almas me ouviam
Caladas, me entendiam....
Contava minhas angústias
Pedia que me ajudassem...
Lá, os choros tinham eco
Me sentia aliviada,
E nas tristezas choradas,
Sabia não estar sózinha
Conversava com as almas...
E á noite, em minha cama
No vento, ou na doce brisa,
Divagando, eu sempre ouvia
Clamando, as coroas de lata
E das pobrezinhas covas,
O tilintar das cruzinhas...
234
CARMIM
Despe as vestes sem pudor
Veste o carmim na noite,
Busca o equivocado amor
Que foi algum dia
Em tempos longínquos,
A mancha do seu açoite...
Caminha em passos sem pressa
Na escuridão sem estrelas
Sua lua se escondeu
Vagueia... perambula
Faz promessas
Encena cenas de esperança
Constrói versos... dispersos
Ora tristes, ora amenos
Poderia ser poetisa
Na solidão das ruas
Nas calçadas frias...
Ensaia ainda
A languidez nos gestos
Repletos de pensamentos;
Busca as alegrias
Dos momentos
Que há muito
Não cabem mais;
Chamam-na por nomes tais
Puta, piranha, vadia
Biscate sem serventia
Mulher dama, vagabunda
Pesa-lhe o mundo feito chumbo
Seu corpo, já não responde...
Velha mulher sem nome
Sem nem ter pra onde ir
Pobre dama desvalida,
Decaída, envergada
Na cama que foi de todos;
Engodos que a vida apronta...
Vagueia em sonhos tristes
Sem ninguém pra dividir
As dores da agonia;
Deu prazer a tantos homens
Definha a mulher sem nome
Com fome do amor
Que tantos lhe prometeram;
Velha dama em desespero
Chamando a morte,
Que por sorte veio
Atender ao seu clamor
E afinal, ela se foi...
Despiu a veste carmim
Se cobriu em tons de prata
Já não pesam suas dores
E seus amores são outros;
Mulher dama voa leve
Levando consigo as preces
Das benesses que a conduzem;
Enfim, ela venceu...
Prostituta, já não é
Sua fé se fez valer
E na paz tão desejada
Foi buscar seu renascer....
Despe as vestes sem pudor
Veste o carmim na noite,
Busca o equivocado amor
Que foi algum dia
Em tempos longínquos,
A mancha do seu açoite...
Caminha em passos sem pressa
Na escuridão sem estrelas
Sua lua se escondeu
Vagueia... perambula
Faz promessas
Encena cenas de esperança
Constrói versos... dispersos
Ora tristes, ora amenos
Poderia ser poetisa
Na solidão das ruas
Nas calçadas frias...
Ensaia ainda
A languidez nos gestos
Repletos de pensamentos;
Busca as alegrias
Dos momentos
Que há muito
Não cabem mais;
Chamam-na por nomes tais
Puta, piranha, vadia
Biscate sem serventia
Mulher dama, vagabunda
Pesa-lhe o mundo feito chumbo
Seu corpo, já não responde...
Velha mulher sem nome
Sem nem ter pra onde ir
Pobre dama desvalida,
Decaída, envergada
Na cama que foi de todos;
Engodos que a vida apronta...
Vagueia em sonhos tristes
Sem ninguém pra dividir
As dores da agonia;
Deu prazer a tantos homens
Definha a mulher sem nome
Com fome do amor
Que tantos lhe prometeram;
Velha dama em desespero
Chamando a morte,
Que por sorte veio
Atender ao seu clamor
E afinal, ela se foi...
Despiu a veste carmim
Se cobriu em tons de prata
Já não pesam suas dores
E seus amores são outros;
Mulher dama voa leve
Levando consigo as preces
Das benesses que a conduzem;
Enfim, ela venceu...
Prostituta, já não é
Sua fé se fez valer
E na paz tão desejada
Foi buscar seu renascer....
n. 225
CRESCE, MENINA
Ai, meu Deus, que dor é essa
Com furúnculos à bessa
Eu chorava sem parar...
Não faz birra, não, chorona
Chora à toa toda hora
Você pensa que chorando
A dor passa, vai embora?
Ora essa, se apressa
Se arruma, se apruma
Vai pra missa e comunga
Não resmunga, vá depressa
Brincou ontem até bem tarde
Deixa de dar alarde
De chorar por qualquer coisa
Vai pra igreja, não fraqueja
Não precisa ajoelhar
Já que um é no joelho
Mas vá logo, está na hora
A missa vai começar...
Era assim que eles pensavam
Eram bem assim as coisas
Crianças não se mimavam
Não tinham tempo pra isso
Criança crescia um pouco,
Já mostrava seus serviços
Cuidava dos mais novos
Eram tantos... que suplício
Criança, só um detalhe;
Gente grande já sabia
E nós pequenos, também
Cada qual no seu lugar
Os grandes é que mandavam
Eu os via feito algozes
Criança só obedecia
Quer mandar, se apressa e cresce
E a gente, na dor, crescia...
n. 250
CONTAS DO AMOR
Se você olha pra ela
E a enxerga doce e bela
Seja noite, seja dia
Madrugada... manhã fria...
Seja cheio de desejos,
Ou cheio de nostalgia
E sente imensa vontade
De abraçá-la e tê-la perto,
É por certo um grande amor,
Que ao longo de tantos anos,
Permanece em você...
É esse o amor que encanta,
Pois real e sem mistérios,
Desafiou tantos planos
Sobreviveu desenganos
Enfrentou intempéries
Mas salvaguardou a ternura;
E em meio à terra bruta
Resgatou entre os espinhos,
As flores que semeou...
É... o amor sobreviveu...
Esse amor tão aprendido
Renascido a cada instante
Pois entre alegrias e dores
Certamente foi constante...
E mesmo não tendo sido
Aquele dos grandes amantes,
Sobreviveu pra contar
Nas contas que a vida faz...
DEIXE O AMOR ENTRAR - 05
Abra todas as portas
Deixe que o mundo entre
Remova qualquer parede
Que teime querer barrar...
Banqueteie-se, farte-se
Contente-se, comova-se
Renove-se e encha-se
Do amor que há lá dentro...
Abra a porta do silêncio;
Silencie o cantar triste
Cante o canto mais alegre
Anuncie aos quatro ventos,
O som festivo das horas...
Abra bem o pensamento,
Deixe fluir da memória,
O saber que vem de lá...
Faça da sua história
A mais bela poesia...
Procure nela, alegria
Pois beleza, sempre há...
Abra as portas... todas elas...
Abra todas as janelas
E deixe o amor entrar;
Enchendo a sua casa
Até o amor transbordar...
n. 212
DORES EM AQUARELA
Pintei em cores sombrias
O que vi naquele dia
Pus na tela em aquarela
Escolhi o preto, o cinza
E achei que minha tristeza
Ia muito, muito além
Minha dor estava aquém
Da sutileza da dor
Que as cores quiseram dar...
Coloquei alguns contornos
Ficou morno... Pincelei
A cor negra mais um pouco
Achei que talvez o roxo
Pudesse cair melhor
E elas retratassem enfim,
As dores que havia em mim...
Passei forte o meu pincel
Vi a morte em tom pastel
Pálida, mas pouco triste
E então eu me dei conta
Que as cores que havia lá
Não retratavam as dores
Sem conta, que eu tinha aqui
Sangrando... pedindo alívio...
Não me contive, e quando vi,
Derramei por sobre a tela
O vermelho da aquarela...
n. 193
DOR...
É a dor que nos comprime
Nos dilacera e oprime
Que nos faz aprender sempre,
Dar valor ao que se tem;
Assim como, é na dor,
Que aprendemos dar os saltos
Caminhando para o alto
E postos em provação,
Abrimos o coração
Pra enxergar a dor alheia
Sentindo, sómente assim,
Que a dor que fere o outro,
À nossa dor se assemelha...
É no sabor amargo
Da dor que nos fere o ventre,
Que muitas vezes plantamos
Sementes que justificam
Nossa estada neste mundo...
É na dor doendo fundo
Sangrando em chaga viva
Que enxergamos quase sempre,
O presente que é a vida...
Muitas vezes é preciso
Sofrer uma dor atroz
Pra sentirmos compaixão
Pela dor que impingimos
Quando ferimos de morte
Nosso irmão também sofrido...
Somos cegos andarilhos
Caminhamos aos tropeços
Ferindo, dilacerando,
Repisando a dor do outro
Causando dor, nós sofremos...
E assim, nós aprendemos
Caminhando em passos lentos
Nos tornando muitas vezes,
Os algozes de nós mesmos...
É a dor que nos comprime
Nos dilacera e oprime
Que nos faz aprender sempre,
Dar valor ao que se tem;
Assim como, é na dor,
Que aprendemos dar os saltos
Caminhando para o alto
E postos em provação,
Abrimos o coração
Pra enxergar a dor alheia
Sentindo, sómente assim,
Que a dor que fere o outro,
À nossa dor se assemelha...
É no sabor amargo
Da dor que nos fere o ventre,
Que muitas vezes plantamos
Sementes que justificam
Nossa estada neste mundo...
É na dor doendo fundo
Sangrando em chaga viva
Que enxergamos quase sempre,
O presente que é a vida...
Muitas vezes é preciso
Sofrer uma dor atroz
Pra sentirmos compaixão
Pela dor que impingimos
Quando ferimos de morte
Nosso irmão também sofrido...
Somos cegos andarilhos
Caminhamos aos tropeços
Ferindo, dilacerando,
Repisando a dor do outro
Causando dor, nós sofremos...
E assim, nós aprendemos
Caminhando em passos lentos
Nos tornando muitas vezes,
Os algozes de nós mesmos...
176
DONA DE MIM....
Sou assim
Porque gosto
Porque posso
Porque sou
Dona de mim
Ando meus passos
Vou no encalço
De alcançar
O meu caminho
Nos torvelinhos
Soltar as garras
Não quero amarras
Que me cerceiem
Não quero nada
Que meta medo
Não quero freios
Sou minha dona
Dona de mim
E os meus anseios
São meus... enfim...
Me gosto assim
Não tenho travas
Nos meus portões
Não levo angústias
No coração
As minhas dores
E dissabores
Eu mando embora
A minha aurora
A faço bela
Encontro nela
A minha luz
Sou minha fêmea
Minha alma gêmea
Tenho na clama
O amor e a flama
Procuro ser...
Encontro a calma
Me alimento
Me sustento
Do que aprendi
Sou mãe, sou filha
Sou terna amiga
Sou flor... sou rosa
Sou pequenina
Sou grandiosa
Gosto da prosa
Que me faz bem
Na roda viva
Eu sou de todos
Sou de ninguém
Sou fogo ardente
Sou doce calma
Tenho na alma
O Deus do amor
Eu sou cupido
Atiro a esmo
Com flechas doces
Mas vou além...
Sou cobra insana
Tenho venenos
Que são mortais
Não fico pasma
Com qualquer coisa
Ando pra frente
Ando pra trás
Mas no equilíbrio
Da corda bamba
Eu me aprumo
Sou bam-bam-bam
Faço o que posso
O mundo gira
Dá suas voltas
Não entro em fossa
Girando eu vou
Assim eu sou
Eu sou assim
Dona de mim....
Porque gosto
Porque posso
Porque sou
Dona de mim
Ando meus passos
Vou no encalço
De alcançar
O meu caminho
Nos torvelinhos
Soltar as garras
Não quero amarras
Que me cerceiem
Não quero nada
Que meta medo
Não quero freios
Sou minha dona
Dona de mim
E os meus anseios
São meus... enfim...
Me gosto assim
Não tenho travas
Nos meus portões
Não levo angústias
No coração
As minhas dores
E dissabores
Eu mando embora
A minha aurora
A faço bela
Encontro nela
A minha luz
Sou minha fêmea
Minha alma gêmea
Tenho na clama
O amor e a flama
Procuro ser...
Encontro a calma
Me alimento
Me sustento
Do que aprendi
Sou mãe, sou filha
Sou terna amiga
Sou flor... sou rosa
Sou pequenina
Sou grandiosa
Gosto da prosa
Que me faz bem
Na roda viva
Eu sou de todos
Sou de ninguém
Sou fogo ardente
Sou doce calma
Tenho na alma
O Deus do amor
Eu sou cupido
Atiro a esmo
Com flechas doces
Mas vou além...
Sou cobra insana
Tenho venenos
Que são mortais
Não fico pasma
Com qualquer coisa
Ando pra frente
Ando pra trás
Mas no equilíbrio
Da corda bamba
Eu me aprumo
Sou bam-bam-bam
Faço o que posso
O mundo gira
Dá suas voltas
Não entro em fossa
Girando eu vou
Assim eu sou
Eu sou assim
Dona de mim....
DESESPÊRO - 24
Chovia...bramia o vento
Tão forte, que amendrontava
Minha alma tão criança...
E eu, correndo na chuva
Nem sentia o vento forte
Fustigando a pele jovem...
Desgrenhada, eu corria
Da morte que assombrava
Minha mãe parindo em dores
Sua filha que chegava...
Não sabia pra onde ir
Por favor...alguém me ajude
Quero o sol... não quero a chuva
Ensopando até os ossos
Castigando o corpo jovem
Da menina apavorada
Guiada só pelo vento
No relento, madrugada...
Decerto que eu nem sabia,
Correndo, porque corria...
Socorro, pedia a alma
Na voz débil da menina...
A igreja estava aberta
Deserta...os santos todos cobertos
Pano roxo...minha alma...
Encoberta... o mesmo pano...
Desnudei todos os santos
E os chamei pra ver meu pranto
Rolando, num rosto pequeno
Sedento por encontrar
A paz, no rosto dos anjos...
N. 248
DURMA EM PAZ
Você disse a mim
Que estava cansada
Que a vida era dura
Não valia nada
Me falou aflita
Da falta de tudo
E das mágoas que haviam
No seu coração
Contou-me do filho
Errante perdido
Pois nem bem sabia
Se o tinha ainda vivo...
Se lembra, querida
Coei um café
Comemos uns doces
Falamos até,
Bem tarde da noite...
Você se acalmou
Sorriu, me abraçou
Saiu bem melhor
Me fez mais alegre;
Mas pouco durou
A minha alegria
Porque no outro dia,
Você me deixou.
Ah, minha querida
Fiquei sem palavras
Mas eu bem sabia,
Você foi levada
Pra ser mais feliz...
Pois é, minha amiga
Acabou tanta lida
Então durma em paz
Descanse da vida...
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