sexta-feira, 9 de agosto de 2013

TEXTOS DE NÚMERO 111 A 120



Número 111
LÁ VEM BOIADA
Quando eu era bem novinha
Via passar em nossa rua
Chamada Rua Boiadeira
Boiadas sem fim, sem freio
Empoeirando, na seca
Ou amassando o barro
Passavam de manhã e à tarde
Até de noite passavam
Surpreendendo sempre
Fazendo crianças correr
Deixar na rua os brinquedos
Estilingues, bolinhas de gude
Bonecas de pano ou papelão
Latas velhas de óleo, sardinha
Brinquedinhos de casinha
E os portões eram fechados
Portões feitos de bambu
Com trancas enferrujadas
E sempre se escutava
Algum choro de criança
Pelos pobres brinquedinhos
Deixados na correria
Mães dizendo, sempre bravas
Bem feito, não avisei?
Tem que brincar na rua?
E o choro logo calava
Criança não tinha voz
Criança não tinha vez
A boiada então passava
E a vida continuava
Vida pobre onde eu morava
De criança remelenta
Com piolhos com dor d,olhos
Cabeça de prego em pus
Furúnculos latejantes
Mas mesmo assim nós crianças
Voltávamos a brincar
Com os nossos brinquedinhos
Tornados a inventar
E de novo, atrás das cercas
Víamos já sem medo
Outra boiada passar.

Número 112
NONA MARIA
Minha querida Noninha
De nome Maria Spagna
Tão santa, que Deus a tenha
Mãe da minha mãe Tereza
Veio menina da Itália
Acho que bem miudinha
Pois mesmo depois de adulta
Continuou pequenina
Tão graciosa, usava franja
Nos cabelos bem branquinhos
Era linda essa Noninha
Só falava italiano
No seu tosco dialeto
E acho que dentre os netos
Inúmeros, perdi a conta
Fui a mais privilegiada
Pela sua companhia
Pois vivi tempos com ela
Quando bem pequena ainda
E então anos depois
Veio ela, já velhinha
Morar com nossa família
Por isso tenho muitas histórias
Pra contar dessa Noninha
Mas a que me ocorre agora
E me traz doce lembrança
Foi quando ela completou
Seus oitenta e tantos anos
Grata, em nossa companhia
E nós, faltos de tudo
Comíamos até com gosto
Aquilo que aparecia
Bolo solado, açúcar queimado
Doce de abóbora mal acabado
E até pão com açúcar
Era bem aproveitado...
Resolvi então juntar
Com bastante antecedência
Alguns míseros trocados
E com muita alegria
Comprei açúcar, fubá
Leite, fermento e trigo
Fiz um bolo bem pesado
Polvilhei de muito açúcar
Pra melhorar o confeito
Pus nele um toco de vela
Chamei a nona Maria
E com toda a família
Cantei junto os parabéns
Pedindo a Deus muita vida
Pra nossa doce anciã
Ela então chorou sentido
E me disse agradecida
Ser aquele o único bolo
Ganho em toda sua vida
E comeu como se fosse
A mais fina iguaria
E então passados meses
Minha Noninha se foi
E o bolo que eu lhe fiz
Tão solado, tão suado
Ficou em mim para sempre
O feito mais consagrado
Beijo você, Noninha ...
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Número 113
MEUS QUERIDOS MESTRES
Dos meus tempos de escola
Quase não sinto saudade
Mas me lembro com carinho
De todos os professores
Fui aluna repetente
Mas não por incompetência
Dos meus bons educadores
Tenho só boas lembranças
Deles todos, foram vários
Na minha escola primária
Primeiro foi dona Sálua
Mulher jovem, bem bonita
Tão solícita vizinha
Conhecia minha história
Tinha por mim grande carinho
E ao me ver chupando o dedo
Tantas vezes no recreio
Dava-me seu lanche inteiro
Depois no segundo ano
Veio dona Cleonice
E me lembro hoje ainda
Na sala entrou tão linda
Vestido branco de “laise”
Voz rouca, achei tão chique...
Procurava imitá-la
Se é que isso era possível...
Também nunca me esqueci
O cuidado que nos tinha
Era suave no trato
Tão bonita, tão branquinha
Mas morreu cedo de parto
Que tristeza, ah meu Deus
Partiu a professorinha...
Era ela então casada
Com o nosso diretor
Senhor Edie José Frei
Também ele um amor
Que sempre me incentivou
No gosto pela leitura
Ganhei dele vários livros
Todos com muitas figuras
Seu Édie deixou saudades
Amenizou com seus livros
Minha infância de vontades...
Depois chegou dona Lor
Que não por simples acaso
Rima seu nome com flor...
Morava em Novo Horizonte
Lecionava em Urupês
Minha terra tão amada
Imponente, dona Lor
Sempre muito bem vestida
Tinha tanta paciência...
Que saudade Lor querida...
Veio então seu Athair
De sobrenome Silva Rosa
Não era assim uma flor
Também não era de prosa
Muito enérgico, exigente
Mas bastante competente
E por fim, no quarto ano
O professor Rui Rosário
Que além de ser bom mestre
Era muito engraçado
Gostava de ensinar cantigas
Todas elas animadas
As horas passavam depressa
Para a alegre criançada
Fico então aqui pensando
Tanto tempo se passou
Mas eu nunca os esqueci
E nunca vou me esquecer
Pois continuam em mim
Ainda povoam meus sonhos
São esteios do aprender
Alicerces do saber
Que levarei vida afora
Enquanto viva estiver
Obrigada, amados mestres
Pois estejam onde estiverem
Comigo estarão vocês...
Que Deus os guarde!
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Número 114
A CASA TRISTE
Era uma casa...
Nem um pouco engraçada
Tinha teto e quase nada
Chão batido, poucas telhas
Era de barro feita
Fogão a lenha desgastado
Fuligem por todo lado
Picumãs caindo aos montes
Na casa sem rendas, sem fontes
Perdida, sem horizontes
Muito velha, pequenina
Tão pobre, desmilinguida
Tal e qual seus habitantes
Era uma casa sem graça
Se chovia entrava água
Pelos vãos, nas noites frias
O vento assobiava
Implacável, acordando
Quem dormia o sono pobre
Sonhando com as vontades
De tudo o que era negado
Com medo do Deus imposto
Aquele que castigava
Um Deus sem misericórdia
Que não perdoava os ricos
Mas que os céus daria aos pobres
E o que isso interessava
A mim, criança com fome?
Era uma casa tão sem graça...
Até as flores vicejadas
Eram tristes, malcuidadas
Passava um córrego ao lado
Onde sapos coaxavam
Era o único som ouvido
Que às vezes me alegrava
Nesta casa onde eu morei
Dos meus seis aos sete anos
Com meus pais e três irmãos
Dois mais novos do que eu
Era uma casa tão triste
Onde crianças choravam
As dores que eram suas
Dores tão mal curadas
Contidas, misturadas
Às dores dos próprios pais
E dentre todas as casas
Das quais morei, convivi
Foi aquela a casa mais triste
De todas que eu conheci...
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Número 115
O MEU IRMÃO DONIZETE
Nasceu lindo esse menino
De olhos verdes, bem loirinho
Chegou saudável e forte
E até hoje continua
Saudável, forte, bonito
A Zezé é quem o diga...
E seria muito injusto
Se aqui não mencionasse
Que faz parte das pessoas
Mais bondosas deste mundo
Lembro até que nossa mãe
Não conseguia esconder
O orgulho que sentia
Por ter filho tão bom, tão lindo
E eu, com dez anos completos
Me sentia meio mãe
E também o exibia
Como fosse meu troféu
Foi então que nossa mãe
Por estar muito doente
Aceitou contrariada
Entregar o pequenino
A uns parentes de fora
Pra cuidarem do menino
Até que ela, mais forte
Pudesse tê-lo de volta
Eu entrei em desespero
Tive insônia, pesadelos
Mas enquanto não levassem
Aquela criança embora
Havia ainda a esperança
De um milagre acontecer
Esperança logo desfeita
Pois chegaram os meus tios
Pra levar nosso menino
Tão pequeno, tão novinho
E eu, sem ter o que fazer
Chorei meu pranto doído
Numa tristeza profunda
Porque a mim parecia
Que aquele irmãozinho
De olhos claros e tão lindo
Nunca mais retornaria...
Mas hoje já nem me lembro
Quanto tempo ficou longe
Se um, dois ou mais meses
Pois essa dura lembrança
Com o tempo se desfez
Minha memória apagou
Mas ainda lembro bem
Do momento em que voltou
Chegou ainda mais bonito
Bem tratado, tão risonho
Era um anjo feito gente
Estava além dos meus sonhos
E eu, muito orgulhosa
Arrumava o menininho
Com suas roupinhas novas
Tão bonitas e charmosas
E mostrava a todo mundo
O nosso lindo menino
Me exibindo toda prosa...

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Número 116
O MIJO DO ZEZINHO
Nos meus tempos de namoro
Tudo era bem reservado
E também tão vigiado
Mais ainda em minha casa
Ao todo 11 pessoas
Com aquela criançada
Namorar era infernal
Nenhuma privacidade
Minha mãe muito pudica
Sempre nos vigiando
Por isso não enxergava
Certos acontecimentos
Bem aí à sua volta
Que me matavam de vergonha
E hoje ao relembrar
Vejo era pura bobagem
Sei que sofri a toa
Ainda mais sendo o Zeca
Meu namorado na época
E para os que não sabem
Até hoje sobrevivente marido
Que embora de outra estirpe
E muito mais refinado
Era de procedência simples...
Chegava aos fins de semana
E eu, já preocupada
Reclamava com meus pais
Dos foras da criançada
Mas eles nem davam bola...
De tudo o que ocorria
O que mais me dava raiva
Era que em nossa casa
Sem nenhuma infra estrutura
Era necessário à noite
O uso dos tais penicos
E o meu irmão Zezinho
Molecão dos bem safados
Sabendo dos meus escrúpulos
Em nada colaborava
Ao contrário, ao urinar
Mijava um mijo bem forte
Arrastava a penicada
E sendo a casa sem forro
A tudo se escutava
Ai que vergonha eu passava...
Que vontade de matar
E então um belo dia
Tomei drástica atitude
Disse para os meus pais
O Zequinha vai chegar
E se eu escutar algum mijo
Quando estiver namorando
Podem apostar, nunca mais
Terão um tostão dos meus ganhos
Então meu pai se tocou
Que a coisa era mais séria
Chamou meu irmão e avisou:
-Iscuita aqui ó zizinho
Vô ti avisá só uma veiz
Quando tivé aqui o Ziquinha
Ponha embaixo do pinico
Um pano pra abafá o baruio
Na hora de uriná
E urina com cuidado
Que si eu iscuitá seu mijo
Num sei do que sô capaiz-
Fiquei então mais tranquila
Mas por via das dúvidas
Preparei os tais penicos
Forrando o chão bem forrado
E então chegou a noite
A molecada dormindo
Casa silenciosa
Eu e o Zeca namorando
E não é que pasma ouvi
Penicos sendo arrastados
E um mijo impiedoso
Parecendo forte esguicho?
Levantei-me bem depressa
Pra ver o que acontecia
Mas meu pai se adiantava
E metendo o pé na porta
Escancarou, viu o peste
Em cima de uma cadeira
Penico fora do forro
Pra fazer maior barulho
E o Zé já contendo o mijo
Com meu pai gritando alto:
-Zizinho figliolo de um cane
Você pensou que eu dormia-
E então no final das contas
Tudo saiu bem pior
E ainda com o agravante
De o Zeca ter que acalmar
A braveza do meu pai...
Zezinho nem se abalou
Calejado era o menino
Continuou me provocando
Mas depois do episódio
Mijava bem mais contido...
Amo você Zé (mesmo assim).
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N. 117
PARA MINHA MÃE
Você se foi... trocou as vestes...
Partiu para um outro plano...
E eu por ser incapaz
Nunca disse "mãe te amo"...
Me desculpe mãe...No entanto
Digo agora, digo mais...
Será tarde pra dizer?
Mas sei que você me entende
E sabe que nunca é tarde
Porque melhor que ninguém
O seu espírito sabe
Que pra tudo sempre é tempo...
E você que vive eterna
Pode bem me escutar
Me ouvir sem reclamar...
E sentir eu lhe dizer
Que sempre, sempre te amei
Mesmo nas desavenças
Nas suas intransigências
Ah... Não dá pra voltar o tempo
Mas dá pra justificar
Nós éramos tão iguais
Tão ranzinzas, rabugentas
Briguentas e tudo o mais...
Volta mãe mesmo que seja
Pra comigo se implicar...
Volta me dê seu colo
Seu abraço, seu olhar...
Seu choro nas despedidas
Me conte as suas mágoas
Pra eu poder consolar...
Volta mãe eu quero mais...
Das suas brigas, implicâncias
Do seu eterno cercear
Venha mãe para trocarmos
Todo o nosso amor contido
Pela prática de amar...
Que saudade minha mãe
Nunca mais seu cafezinho
Encontrei lá me esperando
Na hora de eu chegar...
Volta mãe mesmo que seja
Pra ser chata nos seus mandos
Não importa onde, quando...
Vem alimentar  meu espírito
Não me deixe, mãe querida
Volta, fica comigo...

Beijo e abraço você mãe Teresa, onde quer que esteja.
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118 deixado em branco intencionalmente
...
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119
EU....
Eu sou....
No grãozinho de areia
Semente que germinou
Sou o fruto que cresceu
Da árvore bem nascida
Da semente bem plantada
Bem regada, bem mantida
Vinda, sei lá de onde...
Germinada de outras vidas
Sou a flor em tantas cores
Tenho as cores dos jardins
Tenho em mim todas as flores
Rosas, cravos, jasmins
Tenho também os espinhos
Que espetam sem pudores
Tenho amores, desamores
Rancores e outros mais
Tenho a bondade dos anjos
E a maldade dos insanos
Sou doce vertendo mel
Sou amarga feito fel
Sou feliz e também triste
Muito mais feliz que triste
Sou humana, desumana
Tenho anseios, tantos medos....
São poucos os meus segredos
Me desnudo sem receio...
Riso fácil em meio ao pranto
Busco ser, ter meus encantos
Vasculhando cada canto
E na busca, ser capaz
De encontrar em meio a tanto,
Ser feliz, viver em paz....

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120
AMORES
São todos sempre bem-vindos
Que venham sem parcimônia
Sem medo sem cerimônia
De dizer, de demonstrar...
Não precisa ter vergonha
Pode dizer eu te amo
Em qualquer hora ou lugar
Diz bem alto, conte ao vento
Deixa o vento espalhar...
Não esconda sentimentos
Que possam frutificar
Dando ao outro a alegria
De se sentir amado
De se saber lembrado
É tão bom poder amar...
Não é preciso rodeios
Fale do amor sem receios
Não importa onde se está
Já que o que importa é amar
Não importa quem se ama
Pode até ser que esse alguém
Nem mereça tanto amor
Mas fale, não tenha  medo...
Melhor saber que tentou
E dizer que ama, é nobre
Mesmo que num gesto pobre
O outro pouco se importe....
Siga adiante, vá em frente
Porque sempre lá na frente
Tem alguém pra se amar
Já que nada é mais bonito
Que o amor pra ser vivido....
 
 

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