sexta-feira, 9 de agosto de 2013

TEXTOS DE NÚMERO 101 A 110



Número 101
O CASO TRAGICÔMICO DOS PENICOS
Estava eu compenetrada
Pensando, se bem me lembro
Em como pagar a conta
Dos lanchinhos que eu comia
No bar dos saudosos  queridos
Sebastião e Dona Cida
Vizinhos do meu trabalho
Pois quase todo o meu salário
Meu parco salário mínimo
Era sempre entregue em casa
Pra mim ficava só o ínfimo
Foi então que despertei...
Era já de tardezinha
O comércio quase fechando
Mais silêncio que o costume
Fim de dia, canseira silenciosa
Na pacata cidadezinha
Rua central, quase só lojas
E então, qual se caíssem
Os sinos do carrilhão
Ouvi sinistro barulho
Parecia, a mim ficou
Ter saído das profundas
Acho até que  eu senti
Que aquele som tão infame
Que ainda vive a retinir
Tinha muito a ver comigo
Mas eu não sabia em que...
Foi então que o sr.  Antonio
De saudosa memória
Meu colega de trabalho
Chegou pertinho de mim
Sorrisinho bem maroto
E disse de sopetão
Dona Zélia, ouviu os barulhos?
Percebeu do que eles são?
E eu,  já desconfiada
O sangue gelado em vão
Não tive coragem nem tempo
Pra perguntar sobre aquilo
Pois ele continuou...
-São penicos Dona Zélia
Que seu irmão derrubou
Deixou cair bem aqui
Em frente, nesta calçada
E rolaram sem parar
Eu até acudi um
Que voltou pro mesmo saco
Sabe... Saco de amarrar
Amarrado pelo meio
Que seu irmão bem mandado
Levava pra consertar
Tantos buracos que tinham
Não dava nem pra contar
É chato eu sei, dá vergonha
Penicos nos lembram coisas
Difíceis de encarar-...
Eu então bela mocinha
Preocupada em disfarçar
A pobreza em que vivia...
(e pra que escancarar?)
Perdi a voz, fiquei fula
Engoli seco a vergonha
Fiz cara de e daí?
Respirei fundo, ganhei a rua
Mas o pior de tudo aquilo
Foi pensar: será meu Deus
Que fulano soube disso?
Fulano era meu namorado
Namoro de pouco tempo
Nem bem havia engrenado
E aquele pavor todo
Nem um pouco era infundado
Pois trabalhava então ele
Bem em frente ao incidente
E acho, quando me lembro
Que foi por isso também
Que pouco tempo depois
E sem um sério argumento
O namoro foi pro além
Mas enfim cá estou eu
Não sem algumas sequelas
E posso dizer sem conflitos
Que me livrei dos penicos...
......................................................
número 102
A MENININHA FEIA
Quando eu era bem menina
Seis, sete anos, se tanto
Me achava muito feinha
E sofria em desencanto
Vivia a me comparar
Em tudo com minha irmã
Que dois aninhos mais velha
Já me espelhava nela
E não era por acaso
Que feinha eu me achava
Acontece que nossa mãe
Com o intuito de educar-nos
Não sabia quanto mal
Me causava ao comparar-me
Com minha irmã Maria
Chamada por Mariquinha
Quando ela, bem comportada
E eu deveras traquinas,
Me dizia, não por mal:
“Você é uma menina feia
Bonita é a Mariquinha”...
Repetia isso sempre
Mas não querendo dizer
Disso hoje entendo eu
De um feio ou belo rosto
Mas de beleza interior
Pois me diziam tão levada
Difícil de se domar
Ainda mais se comparada
Com a irmã que era um amor
Mas criança nada entende
Dessa coisa que é chamada
Por adultos, muitas vezes
De beleza comportada
E assim tanto eu sofria
Me enchia de feridas
Roía doído as unhas
E muito feia me achava
Sofria e sofria muito
Mas isso ninguém notava
Acho então que é por isso
Que até hoje eu procuro
Melhorar minha fachada
Mas preciso contar aqui
De um certo episódio
Que me aconteceu belo dia
Quando eu ia de mãos dadas
Com minha irmã Mariquinha
Buscar sei lá o que
Na farmácia da esquina
Iam por nós passando
Dona Lili, nobre dama
Com seu filho Benedito
Conhecido por Dito Abdias
Que para mim, sendo ele
Três, quatro anos mais velho
O achava já um mocinho
Ouvi então sua mãe dizer:
“acho tão engraçadinhas
Essas duas menininhas”...
Quando ele retrucou:
“mas eu acho a menor
Ainda mais bonitinha”
Isso eu ouvi feito música
E calou bem fundo em mim
É claro que algum resquício
De me achar feiosinha
Ainda assim me ficou
Mas nada se comparado
Com o que eu sentia antes
Daquilo que eu ouvi
Do Dito e Dona Lili
Pois para eu menininha
Complexada inocente
Foi muito, muito importante...
Me desculpe Dito Abdias
E também Dona Lili
Por sem ser autorizada
Tê-los mencionado aqui
É que não sabem vocês
O quanto bem me fizeram
Pois com duas pequenas frases
Me tornaram mais feliz
E disso  nunca souberam
Mas agora já o sabem
Dona Lili, Deus a tenha
Benedito, Deus o guarde
Muito obrigada!
........................................................
Número 103
O MEU AVÔ PATERNO
Meu avô de nome João
Por nós chamado de Nono
Foi a mim apresentado
Desde o dia em que nasci
Como um homem rude, bravo
Sem nenhuma instrução
Nem o nome ele assinava
Diziam que era mandão
Muito exigente com todos
Gostava de uma pinguinha
E era bem comilão
Tratava mal minha avó
Mulher santa, bem mandada
Incutia medo aos filhos
Veio da Itália menino
Tão pequeno, tão sofrido,
Blasfemava em sua língua
Levando minha mãe,  sua nora
Se benzer ao escutar
Vinha nos ver vez em quando
Sempre sem avisar
E ficava vários dias
Pra desgosto de minha mãe
E que mesmo desgostosa
O tratava muito bem
Mas se aquele homem rude
Não era assim tão benquisto
Pra mim ficou na memória
Como um avô bendito
De olhos azuis cor do céu
Rosto cheio feito a lua
Pele branquinha de seda
Proeminente barriga
E quando ele chegava
Pra mim era pura alegria
Pois vinha bem carregado
Um saco branco nas costas
Com balas e doces sortidos
E outras coisas gostosas
Entre elas, nunca me esqueço
Uma lata de sardinhas
Redonda e muito grande
Que há tempos  não se encontra
Chegava falando alto
Dando bronca, bem me lembro
Desce já daí, menina...
Porca miséria, Dio Santo
Não vê que pode cair?
E eu sempre obedecia
Como me era de praxe
Pois criança naqueles tempos
Não tinha voz nem vontades
E se não obedecesse
Eram  beliscões e tapas
Mas desse Nono querido
O fato que mais marcou
E ficou em mim pra sempre
Foi quando num certo dia
Chegou todo sorridente
E mostrando um embrulho estranho
Me disse: -Adivinha o que eu trouxe-
E balançou o pacote
Feito com um jornal
E o pacote então chorou...
Um som que eu nunca esqueci
Da minha primeira boneca
Feita de papelão
Que devia ser bem feinha
Mas que pra mim só ficou
Como a mais linda boneca
Que o mundo já fabricou
Dei um pulo de onde estava
E foi então que entrou
Um espinho de laranjeira
Bem na sola do meu pé
Peguei minha bonequinha
Agarrei-a forte no peito
Chorei de dor e alegria
Não dormi durante a noite
Pois meu pé muito doía
Colocaram fumo quente
Misturado com urina
Mas nada de melhorar
Foi então que descobriram
Que uma parte do estrepe
Continuava ainda lá
Sendo arrancado sem pena
Com meus pais me segurando
E o meu Nono puxando...
Depois disso eu me lembro
Que dormi  tal qual um anjo
Agarrada à bonequinha
Mas durou bem poucos dias
Esse sonho realizado
Do brinquedo tão  amado
Pois veio chuva bem forte
E nem sei como aconteceu
Ensopou minha lindinha
Que feita de papelão
Se desfez, virou apenas
Saudade, choro sentido
E muita dor no coração...
...............................................
Numero  104
HISTÓRIAS PRO GUSTAVO
Nos meus tempos de criança
Tudo era tão diferente
Nossos filhos, nossos netos
Hoje em dia nem entendem
Contamos e recontamos
Damos ênfase, detalhes
Mas nem assim conseguimos
Passar pra eles aquilo
Que vivemos no passado
Tempos bons, tempos ruins
Mais ruins que bons pra mim
Mas que hoje felizmente
Para os meus queridos netos
Tudo é muito diferente
E isso fica mais claro
Contando que há uns  3 anos
Um deles me pediu:
-conta uma história vovó
Mas história de verdade-
Eu então logo pensei
Vou contar umas passagens
Das muitas que tenho em mim
E contei da minha escola
Dos castigos que levava
Das macaúbas roubadas
Nos pastos lá do vizinho
Pra trocar com meu colega
Com seu pão com mortadela
Contei que levava galinhas
Pra vender antes da aula
E que chegava cagada
Das galinhas carregadas
E ninguém sentava perto
Por razão do tal fedor
Que ficava das coitadas
Contei também que a água
Era puxada de um poço
Água encanada era um luxo
E que as lições de casa
Eram feitas com esforço
À luz de lamparina fraca
E que eu tão menininha
Às vezes derrubava
Estragando o que estava pronto
E tudo recomeçava
Contei nem sei mais o que
Mas logo percebi nele
Muito pouco interesse
Foi então que perguntei:
-Está gostando Gustavo?-
No que ele respondeu:
-Não vovó...
Você sabe que eu pedi
Que você só me contasse
HISTÓRIAS DE VERDADE...
Te amo Gustavo
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Número 105
“O EXORCISMO”
Morávamos numa casinha
Ao lado, no quintal
Da casa do  tio Luiz
Irmão da minha mãe
Éramos nessa época
Com meus pais e meus irmãos
Oito pessoas ao todo
E meu tio tinha também
Junto com a tia Isaura
Os seus 5 ou 6 filhos
Eram então muitas crianças
Se juntadas aos vizinhos
Eu tinha naquela época
Uns oito pra nove anos
E era muito sapeca
Bem esperta pro meu tempo
Me destacava nas falas
Tinha meus pontos de vista
Levava tapões na boca
Pois nunca me contentava
Como meus pais queriam
Em receber simples nãos
Sempre exigia pra tudo
Alguma explicação
E era inconformada
Com tanta pobreza à volta
Também muito revoltada
E a cada irmão que nascia
Ainda mais me rebelava
E pra completar minhas mágoas
De criança muito pobre
Meus primos e tios ao lado
Tinham sempre o necessário
Lembro-me de certa vez
Quando fui juntar lavagem
Das casas nossas vizinhas
Para sustentar alguns porcos
Vi, boiando nos restos
Alguns pedaços de queijo
Que só os bichos comiam
Mas minha vontade era tanta
Que peguei esses pedaços
Lavei-os e os comi
E nunca mais me esqueci
Que vontade de criança
Quando é mal alimentada
É suplício, dói na alma
Mas conto esta passagem
Das tantas pelas quais passei
Só pra enfatizar
O porque de tanta mágoa
E de tanta rebeldia
Sei porém, não era fácil
Pros meus pais tão desprovidos
Das coisas materiais
E de outras coisas mais
Ter como eles diziam
Filha tão malcriada
Mas onde eu quero chegar
É num fato ocorrido
Aliás, foram várias as vezes
Que isso me aconteceu
Minha mãe, muito católica
Cria piamente nos padres
E num Deus de punição
Acreditava em demônios
Me achava possuída
Quando eu me rebelava
E chamava um sacerdote
Pra me benzer e tirar
O capeta do meu corpo
Tão franzino de criança
Desprovido de quase tudo
E que tinha em sua alma
Só insatisfações e medos
Pois esse padre chegava
Munido de água benta
Punha meu rosto encostado
No seu colo de batina
Segurava minha cabeça
Me benzia com palavras
Que até já me esqueci
Mas me fazendo entender
Que eu me afastasse do demo
E de tudo o que era ruim
Que obedecesse a todos
E deixasse de pecar
Pra livrar-me do inferno
E blá, blá, blá, blá, blá, blá...
Ah ...E quero também contar
Que tudo isso  era feito
Com todos me rodeando
Um bando de crianças por perto
E eu, com vergonha e revolta
Ficava torcendo forte
Pra terminar logo aquilo
Pois tinha também o agravante
De tendo o nariz encostado
Na batina preta do padre
Sentir um cheiro esquisito
E acreditem, não era de flores
Também não era de enxofre
Mas de uma coisa rançosa
Precisando muito ser lavada
E ao terminar a tal bênção
Ele sempre me dizia
Agora pode ir em paz
Como se fosse possível...
Pois isso só aumentava
A raiva e a mágoa também
De me ver incompreendida
Por aquele que diziam
Ser o representante de Deus
Lembro-me de ouvir certa vez
Numa brincadeira de roda
Certa criança dizer
Não quero pegar sua mão
E ao perguntar porque
Ela me respondeu:
-Vi o padre te benzer
E você não é de Deus-
Dei-lhe um beliscão tão forte
Que a fez urrar de dor
Saí correndo, e por sorte
Disso, nem minha mãe
E nem o padre souberam
Pois seria a minha morte
Mas tudo ficou lá atrás
Bem distante, é passado
E no fim o que restou
É puro aprendizado
Por isso sou muito grata
Pela minha doce vida
Por ser hoje tão feliz
E porque nada me falta...
............................................
Número 106
A MORTE DO IRMÃOZINHO
Quando eu tinha quase três anos
Minha mãe teve um menino
Batizado de José
E que até hoje ficou
Como o finado Zezinho
De muito pouco me lembro
Acerca do seu nascimento
Mas nunca mais esqueci
Que ao completar sete dias
O pequenino se foi,
Morar com outros anjinhos
E da hora de sua morte
Ao levar do caixãozinho 
Certas coisas lembro bem
Pois a tudo eu assisti
Então ainda recordo
Dele  tremendo todo
Nos estertores do fim
E do choro de minha mãe
Um choro incontido, forte
Por isso daí em diante
Ficava  desesperada
Sempre que ela chorava
Ficou-me o choro da morte
Lembro-me de ir com as primas
Que eram então bem mais velhas
Pegar numa laranjeira
Folhas pro travesseirinho
Também me lembro tão bem
De apanhar lá no quintal
Algumas flores bem simples
Que minha mãe cultivava
Dálias, cravos, jasmins
Que ainda sinto o cheiro
Mas que não acho ruim
Me vejo então sentadinha
Comportada, observando
Chupando meu polegar
Minha mãe sempre chorando
Ao lado do seu menino
O seu primeiro varão
Que naquele tempo ainda
Era tanto esperado
Pois quando um filho nascia
O pai dizia orgulhoso
Nasceu um menino homem...
Não me lembro do meu pai
Chorando pelo seu filho
Mas tenho muita certeza
De que chorou escondido
E de tudo o que mais marcou
Foi meu pai comigo ao colo
Me colocando pra beijar
O rosto do pequenino
E tenho em mim tão presente
O choro de minha mãe
O choro por ter perdido
Depois da primeira filha
Também seu primeiro menino...
..................................................
Número 107
O ZÉ DO PIRULITO
Meu irmão José de Marqui
Vulgo Zé do Pirulito
Nasceu cinco anos depois
De mim, sua segunda irmã
Contando somente os vivos
Pois já haviam falecido
Uma irmã de três aninhos
Também nosso irmão Zezinho
E tal qual nosso finado
Foi chamado de José
Logo que ele nasceu
E ao ser por meu pai mostrado
Vi um rosto pequenino
E o narizinho enrugado
Ainda não tinha as sardas
Que adquiriu depois
O corpinho bem miúdo
Que minha mãe enfaixava
E  deixava muito firme
Parecia engessado
Para que eu pequenina
Pudesse ficar cuidando
Sentada com ele ao colo
No chão, que se o derrubasse
Seria menor o tombo
Não gostava nem um pouco
Dessa responsabilidade
E quando dava a mamadeira
Não via a hora que acabasse
Fomos então crescendo
E eu nem sei bem porque
Brigávamos qual cão e gato
Mas éramos muito crianças
E também tão parecidos
Trabalhosos, muito arteiros
Inventando traquinagens
Mentindo se precisasse
Pra nos livrar dos castigos
E então por qualquer coisa
Um enfrentava o outro
Bastava um olhar torto
Ou um riso fora de hora
Pra eu lhe dar uns bons tapas
E ficar com muita raiva
Pois ele nunca chorava
Dava puxões de orelha
Ia atrás com ameaças
E nada dele chorar
Mas devo dizer também
Que era bem encapetado
Íamos então crescendo
Em meio a muita pobreza
Eu fazendo mil coisas
Pra ganhar algum dinheiro
E ele, tão pequenino
Já trabalhando também
Vendia frutas, verduras
Tudo o que aparecia
Até bibelôs com defeito
Restos de algum bazar
Algumas vezes vendeu...
Era um vendedor inato
E acho que muitos se lembram
Desse mesmo menininho
Sempre com um sorriso
De dentinhos podres na frente
Vendendo seus pirulitos
Feitos por nossa mãe
Colocados num tabuleiro
Bem furado enganchado
No pescoço do menino
Que alguns comprovam por gosto
E outros só pra ajudá-lo
E quando voltava pra casa
Chegava todo melado
Roupas, braços e pernas
E às vezes reclamava
De um certo mal do estômago
Que sempre o acompanhava
Trazia muito bem contado
O dinheiro tão suado
E entregava à minha mãe
Que um pouco separava
Pra fazer doces de novo
E tudo recomeçava
E é por isso que até hoje
Com carinho é chamado
De Zé do Pirulito
E não tem nenhum conflito
Teria mais de mil histórias
Pra contar deste irmão
Mas a que me ocorre agora
É de uma certa vez
Que depois de muita briga
Tapas, socos, beliscões
Sobrados mais para mim
Pois meninos têm mais força
Vi que ele tinha crescido
Porém, nem mesmo assim
Eu me dei por vencida
Peguei um pedaço de pau
Ameacei... Eu te pego...
E te mato se pegar
Agarrei-o pela camisa
E quando senti o gostinho
De tê-lo pego de jeito
Abriu ele os botões
Tirou um braço, depois outro
E me deixou sem ação,
Pasma e cheia de raiva
Com sua camisa na mão
Então não o perdoei
Corri e o agarrei de novo
E ele, em seu desespero
Se deitou, fingiu de morto
E fez isso tão bem feito
Que eu me pus a gritar
Levanta daí, Zezinho
Pelo amor de Deus, acudam!
Matei o meu irmãozinho
E saí desnorteada
Em busca de algum adulto
No que ele se levantou
Riu até não poder mais
E eu, fula de novo
Pois todos riam de mim
Prometi: -algum dia te pego
 te mato bem morto -
E essas rixas continuaram
Ainda por muito tempo
Mas mesmo depois de anos
Quando tudo ficou lá atrás
Sinto ainda uma tristeza
Por ter sido tão cruel
Com aquele menininho
Que mesmo a contragosto
Muitas vezes embalei
E quando meu primeiro neto
Nasceu com a mesma carinha
Tudo me veio à tona
Então o peguei nos braços
O beijei como se fosse
Meu irmão nascido de novo
E chorei tudo o que pude
Pra lavar o meu remorso
Por isso aproveito aqui
Pra pedir os meus perdões
A você Zé do Pirulito
José de Marqui ou Zezinho
E quando me lembro ainda
Com tristeza do que fiz
Me consolo por saber
Que você querido irmão
Depois de tão bom menino
Se tornou um grande homem
Em tudo bem sucedido
Construiu sua família
Nunca deixou de estudar
É hoje grande empresário
Autor de livros publicados
Trata a todos com respeito
Sempre cuidou dos pais
E de tantos outros mais...
Obrigada meu irmão
E que você tenha sempre
Muita alegria e paz...
.............................................
Número 108
O ANDARILHO
Era ainda de manhã
Mas o sol já estava quente
Quando peguei minhas coisas
A bolsa com meus cadernos
E um cesto bem pesado
Dos legumes que eu vendia
E ficava oferecendo
Até o horário da escola
Batia de porta em porta
Todos me conheciam
Levava pimenta, abóbora
Quiabo, tudo o que tinha
Colhidos onde eu morava
Na chacrinha emprestada
Chamada cachoeirinha
Este lugar distava
Mais ou menos dois quilômetros
De nossa cidadezinha
Eu tinha então nove anos
Mas desde a idade de sete
Já ganhava um dinheirinho
Que fora sempre entregue em casa
Tostão por tostão contados
E ai se faltasse um trocado...
Ia então já bem cansada
Preocupada como sempre
Em ficar bem antenada
Pois nesta estrada havia
Uma subida bem íngreme
Onde às vezes em seu topo
Alguns chifres apontavam
Da boiada irrefreável
Que descia em disparada
Me fazendo morrer de medo
E então nalgum barranco
Trêmula me encostava
Enquanto o gado passava
Mas antes da tal subida
Havia uma biquinha
De água bem cristalina
Lugar onde eu sempre parava
E matava minha sede
Era um lugar bem ermo
Lá eu sempre encontrava
Alguns cachorros vadios
E andarilhos, gente estranha
Foi neste dia então
Que ao chegar na tal biquinha
Vi um homem maltrapilho
E ouvi que me chamava
Tinha seu membro de fora
Coisa descomunal
Fazia gestos, falava
Eu então pus-me a correr
Mas não podia ir depressa
Pois o cesto me pesava
Veio o homem atrás de mim
E dizia: -vem menina
Não adianta correr
Que te pego mesmo assim-
Fiquei muito apavorada
Levei um tombo e ele veio
Era o vulto do demo
Mas foi então que um anjo
Apareceu-me do nada
Era o único taxista
Que existia na cidade
E por acaso voltava
De uma rara viagem
Parou buzinando seu carro
Desceu dele e fez menção
De pegar o tal tarado
Mas ele entrou no pasto
Correu e ganhou distância
E então, o meu salvador
Que já era bem conhecido
Levou-me pra sua casa
E sua mulher me cuidou
Limpou a terra e o sangue
Do tombo que eu levei
Deu-me almoço, deu-me bolo
Comprou de mim uns legumes
E vendeu todos os outros
Para alguns de seus vizinhos
E daquele dia em diante
Fazendo o mesmo caminho
Nunca mais tive a coragem
De beber daquela água
Tomei nojo da biquinha...
Muito obrigado, Senhor Geraldo (o taxista).

Número 109
O MEU AMIGO CARLINHOS
Esta história é muito triste
E me lembro com detalhes
Pois marcou profundamente
Meu coração de criança
Mal havia completado
Três aninhos de idade
Tinha então eu nessa época
Um amiguinho bem doce
Que era nosso vizinho
Seu nome era José Carlos
Mas atendia por Carlinhos
Muitas vezes ia ele
Brincar no nosso quintal
Outras vezes era eu
Que brincava em sua casa
E muito a gente brincava
Era eu então, bem mandona
E acho nos dávamos bem
Por ser ele muito dócil
Tinha dois anos e pouco
E me obedecia sempre
Filho único de professores
Ganhava muitos brinquedos
Bicicletinha, carrinhos, bolas
Esses e muitos outros
E deixava que eu brincasse
Como se fossem meus
Eu me esbaldava com gosto
Pois meus únicos brinquedos
Eram bonequinhas de pano
Que minha mãe inventava
E mal o menino vinha
Me chamando pra brincar
Minha maldade dizia
Eu só brinco com você
Se a bicicleta for minha
E ele muito bonzinho
Geralmente aceitava
Mas nunca mais me esqueci
Quando  me disse um não
Pisei forte seu pezinho
E lhe dei um empurrão
Nem assim ele chorou
Mas pegou a bicicleta
E nunca, nunca mais voltou...
Eu chorava e pedia
Que minha mãe o chamasse
Mas ela me respondia
Você judiou do  Carlinhos
E ele está muito doente
Mas eu não entendia aquilo
E continuava pedindo
Pra voltar meu amiguinho
Passaram-se acho dois dias
Desde o último encontro
Mas para mim parecia
Um século ou sei lá quanto
E então, vi muita gente
Na frente de sua casa
E todo mundo chorava
Ouvia gritos, ouvia choros
De dor cruel, lancinante
Eram os pais do Carlinhos
Pranteando seu menininho
Que em dois dias apenas
Ficou doente e morreu
De um mal chamado crupe
Bem comum naqueles tempos
Não me lembro de mais nada
Nem dele em seu caixãozinho
Tampouco compreendia porque
Por um bom tempo depois
Nenhum rádio era ligado
Tudo ao redor se calou
Nem as crianças vizinhas
Brincavam à noite na rua
Era um silêncio estranho
De respeito e muita dor
Que em mim fez seu estrago
Pois durante muito tempo
Me culpei por sua morte
Dor eterna de saudade
Do meu eterno amiguinho
O bom e doce Carlinhos...
.............................................
Número 110
O MILAGRE
Nessa fase da minha vida
Já aos dezenove anos
Éramos nós dez irmãos
Que pra todos os efeitos
A mais velha era eu
Pois minha irmã Maria
De apenas dois anos mais
Foi bem cedo pro convento
E de lá não mais saiu
Nossa vida continuava
Muito custosa, estafante
Tudo era bem difícil
Minha mãe sempre doente
Meus irmãos ainda novos
Tinha nossa irmã caçula
Dois aninhos tão somente
Mas nada disso contava
Pois nosso grande problema
Naqueles tão duros tempos
Era minha mãe doente
Sem recursos pra tratar
Tinha febre muito alta
E o médico que a viu
Nos deu poucas esperanças
Pois fora então constatada
Grave infecção nos rins
Piorava a olhos vistos
E entregue em sua cama
Me dizia pra cuidar
Sempre bem das suas crianças
Lembro que fui à janela
Do quarto que dava pros fundos
Chorei e fiquei implorando
Pra que Deus nos acudisse
Que fizesse o seu milagre
E que algo acontecesse
Pra salvar a minha mãe
E com toda minha força
Fiz até várias promessas
Mas confesso, naquele tempo
Era pouca a minha crença
E então logo depois
O milagre aconteceu
Veio em forma de meu primo
Lauro, que a mando de Deus
Chegou com a sua mãe
Tia Antônia tão querida
Que era irmã de nossa mãe
Vinham eles de São Paulo
Visitar alguns parentes
E sendo assim não sabiam
Dos problemas que urgiam
Mas o detalhe do milagre
É que o nosso primo Lauro
Era ele especialista
Na área de urologia
E então assim que chegou
Medicou a paciente
Deu meia volta e a levou
Pois disse ser bem urgente
Internou-a num grande hospital
Cuidou dela feito filho
E depois passados meses
Minha mãe pôde voltar
Chegou forte, bem disposta
Enfrentando seu batente
Que durante aqueles meses,
Eu, meu pai e alguns irmãos,
Mesmo ainda tão pequenos
Muito aos trancos e barrancos
Enfrentamos e vencemos...
Muito obrigada Tia Antonia e seu filho Lauro!

 


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