MAL ENTENDIDOS
Ah...Quem dera eu pudesse
Ir buscar lá no passado
Pra resgatar o que desse
De tantos mal entendidos
E me fazer entender
Pondo tudo em pratos limpos
Coisas das quais nem me lembro
De qual forma foram ditas...
Mas bem sei que magoei
Meti os pés pelas mãos
Ou pra aclarar demais
Me expliquei sem precisar
E nas falas tropecei
Fui além, marquei bobeira
Falei o que não devia
Cometi minhas asneiras
Ou então, nem me expliquei
Me achando quase perfeita
Acima de qualquer suspeita...
Busco então achar desculpas
Pra abrandar a consciência
E me faço a tal pergunta:
Há no mundo quem não erre?
Vem-me então a resposta:
Todos erram sim, senhora...
Mas isso não justifica
Os seus erros de outrora
Nem minimiza tampouco
Os erros que certamente,
Ainda vá cometer...
Mas enfim, o que fazer...
Desentendimentos acontecem
Erramos, e como erramos...
Tropeçamos vida a fora
Mas disso, o que mais importa
É termos na consciência
O cair e o levantar
O errar e o perdoar
E ao perdoarmos a todos
Que perdoemos enfim,
Ao outro, a você e a mim....
Ah...Quem dera eu pudesse
Ir buscar lá no passado
Pra resgatar o que desse
De tantos mal entendidos
E me fazer entender
Pondo tudo em pratos limpos
Coisas das quais nem me lembro
De qual forma foram ditas...
Mas bem sei que magoei
Meti os pés pelas mãos
Ou pra aclarar demais
Me expliquei sem precisar
E nas falas tropecei
Fui além, marquei bobeira
Falei o que não devia
Cometi minhas asneiras
Ou então, nem me expliquei
Me achando quase perfeita
Acima de qualquer suspeita...
Busco então achar desculpas
Pra abrandar a consciência
E me faço a tal pergunta:
Há no mundo quem não erre?
Vem-me então a resposta:
Todos erram sim, senhora...
Mas isso não justifica
Os seus erros de outrora
Nem minimiza tampouco
Os erros que certamente,
Ainda vá cometer...
Mas enfim, o que fazer...
Desentendimentos acontecem
Erramos, e como erramos...
Tropeçamos vida a fora
Mas disso, o que mais importa
É termos na consciência
O cair e o levantar
O errar e o perdoar
E ao perdoarmos a todos
Que perdoemos enfim,
Ao outro, a você e a mim....
.................................................
122
LIVRE PENSAR
Pensamentos vão e vêm
São livres tal qual o vento
Voam longe, vão buscar
Coisas em nós tão distantes
Muitas vezes incomodam
Não queremos relembrar
Chegam forte arrebatando
Sem licença pra chegar
Às vezes dão arrepios
Preferimos nem pensar
Tentamos então burlá-los
Com alguma distração
Mas eles, silenciosos
São teimosos em voltar
E nem chegam de mansinho
Tomam conta, se apossam
Do nosso livre pensar...
Pensamentos de tão longe
Já esquecidos de pensar
Guardados bem escondidos
No recôndito de nós
Vêm à tona, e indesejados
Teimam sempre em ficar
Mas se livre é o que penso
Mando embora o que não quero
E coloco em seu lugar
Pensamentos valiosos
Só os bons de se pensar...
..............................................
Pensamentos vão e vêm
São livres tal qual o vento
Voam longe, vão buscar
Coisas em nós tão distantes
Muitas vezes incomodam
Não queremos relembrar
Chegam forte arrebatando
Sem licença pra chegar
Às vezes dão arrepios
Preferimos nem pensar
Tentamos então burlá-los
Com alguma distração
Mas eles, silenciosos
São teimosos em voltar
E nem chegam de mansinho
Tomam conta, se apossam
Do nosso livre pensar...
Pensamentos de tão longe
Já esquecidos de pensar
Guardados bem escondidos
No recôndito de nós
Vêm à tona, e indesejados
Teimam sempre em ficar
Mas se livre é o que penso
Mando embora o que não quero
E coloco em seu lugar
Pensamentos valiosos
Só os bons de se pensar...
..............................................
123
SR. NANDO, O
PAPAI
Meu pai, de
nome Rinaldo
Sempre
atendeu por “seu Nando”...
Foi em tudo
um grande homem
Nasceu de
família pobre
Tantos
irmãos... pai severo
Mãe submissa
e tão nobre...
Que pena meu
Deus eu tinha
Dessa nona
tão cativa
Tão santa,
nona querida...
Foi ele
criado aos trancos
Sem carinho,
só trabalho
Escola
então? Nem pensar
Analfabeto,
aprendeu escrever o nome
Ensinado por
minha mãe...
Quando
nasceu, sem recursos
Um dos
últimos de doze
Sua mãe já
estava cansada
De parir
tanta criança
E viver na
corda bamba...
Me disse mais
tarde, coitada
Ter remorso
do passado
Quando às
vezes, já sem forças
Relegava
seus rebentos
Ao Deus
dará, sem carinho
À mercê do
mal sustento
Dizia ter
tristes lembranças
Sem saudade
desses tempos...
E assim cresceu o menino
E assim cresceu o menino
Conheceu a
minha mãe
Se apaixonou,
ficou perdido
De amores
pela mocinha
Aquela que
diziam ser
A cobiçada
da vila...
Teve filhos,
doze ao todo
Criou dez
com muito esforço
Nem sei que
nome dar a isso
Mas
esforço... acho pouco
Tem outro
nome, talvez...
Ah... fez um
sacrifício louco
Sofreu
tanto... feito poucos...
Penou para
nos criar
Nunca pode
dar aos seus
Nem o mínimo
que fosse
Do que
sempre pretendeu
Nunca o vi
de cara feia
Tão bom,
santa paciência
Herdou da
minha avó
Muito
amor...
Era
inocente...
Marcou forte
sua presença
E a mim vai ficar sempre
Os cuidados
que nos tinha
E quando à
noite então chorando
Acordávamos
com medo
Pulava logo
da cama
E acalmava o
nosso pranto
Também
nunca, nunca mesmo
O vi
levantando a voz
Pra falar
com sua amada
Filhos ou
quem quer que fosse
Era bom por
natureza
Tinha senso
de humor...
Tiradas
muito engraçadas...
Herdei dele
com certeza
Esse meu
lado escrachado...
Pescador
inveterado
Varas,
anzóis, iscas e chumbadas
Nada era tão
sonhado
Tudo o mais
perdia a graça...
Sempre grato
a tudo e a todos
Já no final
dos seus dias
Ainda tinha
no olhar
Gratidão,
muita ternura
Por aqueles
que o cercavam
Partiu aos
86
Sem a
presença da amada
Que também
adoeceu
E até os
últimos instantes
Relembrou o
seu amor
Falou dela
como fosse
A mais rara
e bela flor
A deusa da
sua vida
A deusa que
sempre foi...
Obrigada
papai por ter-me feito sua filha...
............................................................
............................................................
124
O QUE VOCÊ FAZ
PRA SER FELIZ?
Ama, abençoa, perdoa
Passeia, canta, faz festas
Caminha às vezes na chuva
Vive o presente sem pressa?
Agradece, permanece
Na vida de quem te ama
Olha nos olhos do outro
Diz com frequência “te amo”
Sem ter medo de ser piegas?
Ri atoa, faz piadas...
Faz do limão limonada
Relembra de si coisas boas
Enfrenta bem seus fantasmas?
Come seu pão bem quentinho
Toma café bem coado
Descansa sempre que pode
Se dá bem com seus vizinhos?
Chora se tem vontade
Expurga o velho, o roto
Se desprende dos entulhos
Pra por no
lugar o novo?
Curte brincar com crianças
Abraça sempre os amigos
Fica atento aos preconceitos
E aos tabus a nós impostos
Pra quebrá-los sem receios
Se livrando deles todos?
Faz as coisas com vontade
Vai atrás dos
belos sonhos
Comunga sempre que pode
Do sucesso que é do outro?
Tem pensado em si mesmo
Dado um tempo pra cuidar
Das coisas que lhe são caras...
Corpo, alma e tudo o mais?
Pois é... parece difícil,
Impossível... mas não é....
Tente, procure buscar
No sentido de viver
Ser feliz cada vez mais
Tente, mesmo que seja
Ao menos de vez em quando
Tente, vai ver que é bom
Eu juro que estou tentando...
...............................................
Numero 125
MINHA MÃE TÃO GRÁVIDA...
Mãe, você pariu doze filhos
Me pergunto, como pôde?...
Fiz as contas.... me dei conta
Ficou prenha tanto tempo...
Ah...tem ainda os cinco abortos
Não conto... foram cedo...
Para aos outros dar lugar...
Mas... como posso não contar....
Se nos meses que abrigou
No seu ventre os pequeninos,
Amando os alimentou
Acreditou que eram seus
Sentiu dores ao perdê-los
Dor na alma...dor pungente
Dilacerando seu corpo
Como dói, mãe.... também sei
Dessa dor que nos consome
Quando vemos, impotentes
Escoar por conta própria
O filho deixando o ventre...
Tão estranho esse episódio
Nunca nos acostumamos
Mesmo enfim sabendo que
Desde os mais primórdios tempos
Sempre.... sempre foi assim...
Mãe...doze filhos...faço as contas
Perco a conta, me dou conta
Das agruras que passou
E não venham me dizer
Da grandeza, da beleza
De abrigar em si um ser
Pois de tudo isso eu sei
Mas sei também, mulher, mãe...
Que muito você penou
Eu sei o quanto sofreu...
Era tudo tão precário...
Tanta falta, nem o básico...
Viver pra sobreviver...
Por isso quando eu via
Sua barriga crescendo
Toda vida....outra vez...
Na impotência, quanta raiva
Eu sentia de você...
Mas enfim, aqui estou
Sã e salva, firme e forte
Estão aí meus irmãos
Todos eles tão felizes...
Mãe...tudo
valeu a pena
Não chamo
isso de sorte
Chamo isso
tão somente
Mistérios
que a vida encena
Plantando
suas sementes
Do amor que
há em nós
Porque do
amor nasce sempre
Mais amor
pra semear...
Beijo e
reverencio seu ventre, mãe Teresa....
...................................................
Número 126
MORANDO EM
VOTUPORANGA
Morava em Urupês
Cidade que sempre amei
Acolhedora, embora pequena
Que portanto, sendo assim
Não havia naquela época
Nenhuma perspectiva
De arrumar algum trabalho
Foi por isso que meu tio
Tão saudoso Antonio Dalto
Morando em Votuporanga
Com anuência da tia Inês,
Foi buscar-me certo dia
Já com emprego arrumado
Pra que eu, com meu salário
Pudesse ajudar no sustento
Da minha numerosa família
Com irmãos todos pequenos
E então, bem à tardinha
Apareceu lá o meu tio
Generoso como sempre
Pra me levar,
não me esqueço...
Chorei ao deixar meus pais
Amigos, irmãos tão novos
Ah...meu Deus... quanta saudade
Sentia dos irmãozinhos...
E ao chegar, sempre me lembro
Tive tão grata acolhida
Me senti depressa aceita
Por todos.... uns tão novinhos...
Idade dos meus irmãos
E ficou, qual fosse hoje,
A lembrança tão feliz
Da minha tia querida
Que embora não muito efusiva
Já que era esse o seu jeito
Me chamando pra jantar
Uma sopa bem gostosa
E curau de sobremesa
Tia... quantas lembranças...
Quanto você trabalhava...
E mesmo assim me acolheu
Agregou-me na família
Me amou, me respeitou
Como fosse sua filha...
Que pena... já não se lembra
De tanta coisa vivida...
Ríamos muito, nós duas
Tio Antonio achava graça
Gostava de nos ver rindo
Me chamava na varanda
E a gente até cantava...
Caprichosa, a tia Inês...
Fazia flores tão belas...
Quantas noivas enfeitou
Com seus buquês e grinaldas
Tinha bom gosto, a danada....
Fez-me tão lindos vestidos
Costurava muito bem
Nunca roupas tão bonitas
Muito, muito bem talhadas
Com decotes que eu amava
Me vestiram em elegância...
Tia....muito obrigada...
Um oásis foi pra mim...
E vocês, primas queridas...
Lourdes, Vani e Cida
Se lembram dos nossos bailes?
Cinema sempre aos domingos
Cida se empolgando
Batia palmas pro mocinho
Nos filmes de bang-bang
Era muito extrovertida
Poxa, Cida... que saudade....
Vani, amiga tão boa
Cúmplice em quase tudo
Chorávamos juntas às vezes
Juntando o bom e o ruim
Mas tudo virava festa
Ríamos tanto nós três
Nem sabíamos do que...
Tempos bons foram aqueles
Pra nunca mais me esquecer...
Lourdes, pouco mais velha
Comandava... nos cuidava
Era rígida, pudera...
Três pirralhas... tanta vida...
Hormônios tão aflorados
Demos trabalho, não querida?
Tinha o Zé... também o Virso
Ficavam sempre de olho
De longe, mas antenados
Tínhamos medo dos dois
Quando os víamos por perto
Fingíamos ser umas santas
Ah... eles eram tão incertos...
Apareciam do nada
E o Virso, principalmente
Fechava bem sua cara
Nem precisava falar
Que o recado estava dado
É que a gente extrapolava
Ríamos de coisas tão bobas
E até de coisas sérias
Ah... Quanta lembrança boa...
Sérgio, lindo, muito bom
Um menino um tanto sério
Mas aos poucos eu fui vendo
Que o usava de parâmetro
Para o Flávio, tão levado...
Ah Flávio...um sapeca tão querido
Como não rir de você
Se era tão engraçado?
E o que dizer do Luiz
Dim, tão grata lembrança
Um garotinho tão meigo
Olhos grandes, riso fácil
Chorava abraçada a ele
E pra mitigar a saudade
Dos meus irmãos tão distantes
Fiz dele o meu consolo
Na falta dos que ficaram...
Silvinha...ah... a Silvinha
Era o xodó da família
Linda.... tão perfeitinha
Mas meio arisca comigo
Por isso sobrou pra você
Luiz Antonio, Dim, Toninho...
É... dariam vários livros
Dos tempos desse convívio
Pois vocês, grande família
Tio Antonio, tia Inês
E meus tão amados primos
Nem imaginam a importância
Que tiveram em minha vida
Sou e serei sempre grata
Obrigada a vocês todos
Beijo e os abraço, queridos...
.................................................
Número 127
NONA CARLOTA
Carlota, mãe do meu pai
De sobrenome De Grande
Se eu pudesse ter escolhido
Teria herdado seu nome
É que sempre o liguei
À grande mulher que foi
A mulher que eu muito amei
Tão inocente... bondade rara
Submissa ao seu marido
Cuidadora dos dez filhos
Só fazia trabalhar
Dizia não ter preguiça
Poucas horas lhe bastavam
Para o corpo descansar
Nunca alguém a ajudou
Na faina do dia a dia
E dos dez filhos que teve
Só lhe veio uma filha
A mais velha, mas foi cedo
Se casou... nunca mais viu
Sua filha tão querida...
Chorava ao falar dela
Ah... minha avó... fosse hoje
Se preciso moveria
Céus e terra pra encontrar
A sua única filha
Sabe, Nona, lembro bem
Quando eu a visitava
Lá em Sales, na fazenda
Numa casinha bem rude
Da colônia em que morava
Tão pobre, nona querida...
Mas você, sempre que eu ia
Me fazia tão feliz...
Quanto agrado você tinha
Comigo, pirralha traquina
Ria de tudo, achava graça
Daquilo que eu aprontava
Me mandava declamar
As poesias que eu sabia
Os pombinhos de Jesus...
O triste carro de boi
A Conceição de Murilo...
Essa tão complicada...
Só depois de muitos anos
Entendi certas palavras...
E você pedia bis
E sempre, sempre chorava
Mas gargalhava também
Nona... será que herdei
De você tantas risadas?
E então, minha Noninha...
Ria tanto... mas de que?
Ah, querida... dura vida
Quantas pedras no caminho...
Quanto ver você sofrer...
Nona, você foi santa
Desde o seu amanhecer
Não a canonizaram
Não sabiam de você
Foi embora... tão sofrida
Morreu quase aos noventa
Num sofrimento atroz
Recebeu parcos cuidados
Mas todos que a conheceram
Filhos, amigos, netos
Dessa família tão grande...
A amaram, respeitaram
Sabiam do seu valor...
Dos legados que deixava
Do amor que ensinou
Nos exemplos de bondade
Que sempre a acompanhou...
Beijo você de joelhos
E me curvo em reverência
A você, avó querida...
Sei que me vê, grande amiga
Que ainda ri comigo...
Mulher santa... nobre dama...
Senhora Carlota De Grande...
Minha Nona, eterna e linda...
................................................
Número 128
UM “ARRAIÁ INCANTADU”
Participei de vários
Nas paragens em que andei
Muitos... que já nem sei
Os lugares que passei
Tantas cidades... lugarejos...
Muito bons esses festejos
Simplicidade emotiva
Mas nem um pouco simplista...
Me lembro de muitos deles
Desde os tempos de criança
Coisas longínquas da infância
Estão nas minhas saudades
São eventos que eu guardo
Aqui dentro... bem guardados
Nas lembranças tão felizes
Distantes... mas bem lembradas...
Porém, por melhor que fossem
Nenhuma enfim, se compara
Ao arraiá tão bonito
Tão festivo e aguardado
No qual tive a alegria
De poder estar presente
Misturado de magia
De amor e fantasia
Trazendo nele em permeio
As memórias do passado...
Estava com a minha gente...
Ah... “qui arraiá mais bunitu”
Tão doce de se lembrar
Tanta alegria... sorrisos...
Risadas...quanta coisa engraçada.....
Gente boa... Gente minha...
Seu sangue correndo em mim...
Tanto amor entrelaçado
Reafirmando que a vida
Vale a pena ser vivida
Relembrada, esmiuçada
Revendo em câmara lenta
Momentos bons e até os ruins
Já que todos os momentos
Fazem parte, moldam o barro
Pra tornar-nos mais perfeitos
Na pura essência de mim
Na pura essência de nós...
Arraiá.... família Dalto....
Grande festa....grande evento....
Emoção....raro acontecimento
Só entende quem lá esteve...
Só quem presenciou compreende....
Tinha algo de sagrado
Tinha sim algo Divino
Tio Antonio e seus irmãos
Nono José, nona Maria
Com certeza estavam lá
Levando com suas presenças
Mais beleza no arraiá...
Até rezaram conosco
Mini terço... mais não dava
Tinha criança com pressa
De comer tanta iguaria
E os adultos já inquietos
Pra dançar a tal quadrilha
Arraiá...festa “bunita”.....
Que será sempre lembrada
Pois em nós, são essas coisas
As coisas que sempre ficam....
Obrigada, família Dalto...
Por terem me convidado
A também participar
E ser feliz com vocês
Nesse “arraiá incantadu...”
Reverencio e agradeço ao tio Antonio e
tia Inês....Sem eles, nada disso seria possível...
(Votuporanga, julho/2013)
.........................................................
Número 129
MENINOS FEIOS
Saía à tarde da escola
Mas antes de ir pra casa
Era costume passar
Na casa do tio Antonio
Lá brincava com meus primos
E antes do escurecer
Muito, muito a contragosto
Pegava então meu caminho
Morava em uma chácara
Distante, se bem me lembro
Dois quilômetros da cidade
Ia sempre pela estrada
Mas estava anoitecendo
Por isso atalhei num pasto
Pra chegar depressa em casa
Morria de medo das vacas
Que pastavam tão tranquilas
Mas tinha pavor do escuro
Cortei então pelo mato...
Carregava bem apertada
Como fosse um troféu
Uma lata grande de toddy
Que a tia Inês me deu
Coisa tão rara pra nós...
Ia feliz com o presente...
Antecipando a alegria
Que os meus iriam ter
Mas eis que não sei de onde
Surgiram à minha volta
Quatro ou cinco meninões
E eu tão miudinha
Nos meus oito... nove anos...
Tive a real sensação
De gigantes me envolvendo
Era o mundo me engolindo...
Foram logo me cercando
Levantaram meu vestido
Me falavam, não entendia...
Diziam... dá pra nós...
Tem que dar pra nós, menina...
E eu, muito inocente
Chorava... até pedia...
Me deixem, não posso dar
Eu ganhei da minha tia...
E eles então se riam
Riam quase até rolar...
Penso nisso, fico pasma...
Me arrepia só em lembrar
A importância que a mim tinha
Defender fina iguaria
Queria sair correndo
Pra salvar aquela lata
Mas eles não me deixavam
Riam, me bolinavam...
E quando me derrubaram
Um deles me levantou
Pediu que eles me deixassem
Foi vaiado... mais, não vi...
Corria já em meio ao pasto
Atravessei e nem senti
O córrego que aí passava
Chorava de soluçar
Que susto, meu Deus passei...
Mas pensava...ainda bem...
Salvei a lata...ah...salvei...
Seria cômico se não fosse trágico...
Manifesto aqui minha mais profunda dor
pelas crianças abusadas...
.................................................
Número 130
NONO DALTO
Era louco por esse nono
Fui tão amada por ele
Cuidada...ah...se me lembro
Com carinho, com desvelo
Punha-me no seu colo
Pra ouvir rádio, ler jornal
Contava-me tanta história
Da sua saudosa Itália
Eu tinha apenas três anos
Mas ele lidava comigo
Quase de igual pra igual...
Misturava no falar
Italiano ao português
E eu entendia tudo
Trocávamos pensamentos
Bastava ele me olhar...
Me chamava de Zelieta
Bonequeta... fioglia mia
Sei que eu era seu troféu
Que o enchia de alegria
E nada faltou pra mim
Quando vivi ao seu lado
Carinho, então, me sobrava
Ah, meu nono tão amado...
Você sabe o bem que fez
Sabe o quanto me amou
E o quanto amei você...
Trago em mim seu sangue bom
Sua gana por leituras
Me ensinou certos requintes
Nono, com quem aprendeu
Se vestir com tanto apuro?...
Tomar vinho em linda taça
Relíquia da sua Itália
Eram duas...uma sua
A outra a noninha usava
Colocava sempre flor
Homenagem à sua Santa...
Acho eu, que só por isso
Você nunca reclamou
De ela usar de vaso a taça...
Me lembro que certa vez
Foi comigo ao dentista
E enquanto eu chorava
Você, nono, me dizia
Se acalma fioglia mia...
Dopo compro uno gelato
Você sempre me acalmava...
Outra vez me levou ao circo
Tão mambembe, pobrezinho...
Mas pra mim nunca, jamais
Outro circo foi tão lindo...
Íamos sempre à missa
Depois me comprava doces
Me trazia comportada
Falava manso comigo
Sentia-me tão protegida
Não tinha medo de nada
Nono, nono... quanta falta
Me fez, quando um certo dia
Se mudou minha família
Me levaram de você
Ninguém me explicava nada
Meu ninho ficou fazio
Tão estranho... outra casa...
Seis aninhos... quanta história...
Chorava da vida inglória
Era como se a morte
O tivesse arrebatado
Arrancado você de mim...
Matando-me também
O desejo de viver
Ah... meu nono... só você
Poderia me entender
Mas então, tempos depois
Dois anos, sei lá se tanto
Você chegou, e ao vê-lo
Agarrei você aos prantos
Veio mesmo pra ficar
Pra viver junto de nós
Dos filhos e outros netos
Mas eu sempre, sempre achei
Que você chegou por mim
Que foi lá só pra me ver...
Isso é muita pretensão?
Não...é amor calado...enfim,
Um amor que só eu sei
Que em você também ficou
Avô, anjo, guardião
Meu nono do coração...
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