O OUTRO
Olho o outro e me vejo
Nos seus olhos me espelho
E no espellho eu encontro
As mesmas buscas e sonhos
Somos partes um do outro
Vivemos os mesmos tempos
As dores são tão iguais
As buscas se entrelaçam
No mesmo eterno buscar...
Nossas almas são eternas
Nossos gostos são iguais
Sal, açucar, frio, quente
Temperando tão sómente
Eu aqui...ele acolá
Ah... meu ego é tão igual
Discrepâncias que carrego
Enganos nos meus egos
Nada...tudo...tudo igual...
Vejo o outro, vejo a mim
E assim, olhando o outro,
Me espêlho, me percebo
Ele sou eu... eu sou o outro...
UMA FLOR
Uma flor murchou, eu vi...
Era branca, ficou cinza
Vestiu luto...chorou
Por outras flores perdidas
Murchas, mortas, desditas...
Olhava em volta amiúde
Quando ainda estava viva
Tocava com seu perfume
Outras flores, outras vidas
Se via um tanto sem graça
Pensava não ter valia
Ah, flor.... porque murchaste
Se ainda tinhas vida...
Tinhas botões ao lado
Tinhas sim, tanta valia...
Tira o luto... veste o rosa
Volta, ainda há tempo...
Venha... volte pra vida...
MUNDOS
Ela surgiu toda meiga
Seu carisma transbordando
Tão mimosa, tanto dengo
Menina...flor tão cheirosa...
Tinha ares de rainha
Bela, qual flor se abrindo
Era doce seu caminho
Viu o mundo passando
Por ela, em desalinho
Sentiu um desejo forte
Mudar aquele caminho
Colocar flores, amores
Em qualquer lugar que fosse
Mas o mundo passou adiante
Deixando-a só a pensar
Na vida... busca incessante
Parecia tão distante
O mundo que a viu passar...
Resolveu seguir em frente
Buscando mundos melhores
E o mundo cativante
Depressa a trouxe de volta...
Confusão de tantos mundos
Passando por todos nós
Uns ficam vendo passar
Outros passam, sonham alto...
Mas a menina ficou
E encantada, amou... passou...
CABOCLA
Na beira do caminho
Tem um pé de jatobá
Tem jabuticaba doce
Tem goiaba e araçá
As mangas estão caindo
Amarelinhas que só
Forram doces os caminhos
Cheiram forte...ah, que dó...
Da mulher escorregando
Na casca lisa da manga
Se levanta, leva embora
Amora, jaca, pitanga
Misturadas num balaio
Fartura... olha de soslaio
Leva toda a carga embora
Pega um bocado de amoras
Diz consigo, pensa alto
Vou oferecer pro santo
Tirar todo esse quebranto
Que me faz abrir a boca
Sou cabocla, sou daqui
Sou da roça, da enxada
Pego a estrada, vou pra ali...
Tenho todos os caminhos
Cumpro todos... o que importa
É viver o que comporta
Gosto da vida assim...
Sou caipira... sou da roça....
UM CÂNTICO
Entoei um canto triste
Um canto que não existe
Saiu-me assim sem porque
Cantei o cantar sem quê
Trouxe raso, vi no fundo
Um mundo que não é meu
No canto entoado triste
Por que cantar triste canto
Se tão belo é meu viver...
Mas o cantar não se ia
Eu pensava o que seria
Aquele triste gemido...
Vasculhei os horizontes
Fui buscar atrás os montes
Onde estaria escondido
Meu hoje alegre cantar
Encontrei-o lá quietinho
Observando mansinho
Procurando seu lugar
Espreitando meu cântico
Triste... já se perdendo
Sem ter eco pra ficar
E então entrou em mim
Tão jubiloso cantar
Não o deixei ir embora
Se voltou...tem que ficar....
MEU FILME
Gosto de ver... assistir
Meu filme em retrospecto
Busco longe... é tão antigo
Assisto, insisto comigo
Ver cenas que não me agradam
Persisto... olho sem mêdo
Meu desapêgo é maior
Meu filme não faz sofrer
Não mais... então observo
Relevo certas passagens
Outras olho, mas não paro
Pra sentir antigas dores
Me atenho nos amores
Que a vida me legou
Vejo o filme...
Vem-me o pranto
As lágrimas lavam a dor
Enxugo o rosto
Prossigo...
Assisto em câmara lenta
Meu filme...
Não mais me atormenta
Tem um enredo tão belo...
O filme que eu carrego...
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