quarta-feira, 4 de setembro de 2013

TEXTOS DE NÚMERO 160 A 164



Número 160
CRIANCINHAS MORTAS
Passou por nós carregado
Por quatro outros anjinhos
Desnutridos, esfaimados
Tais quais o pequenino
Caixãozinho improvisado
Sem flores e destampado
Tem um porque... Não me lembro...
Caixão aberto, tão estranho...
Qual o que... Quero apagar
Nas a lembrança me fica
Da criança carregada
Descoberta, enrijecida...
Triste aquela vida
Apagada... fenecida
Que tristeza sinto ainda
Tantos anos são passados
Quero deixar de lado
Mas à tona sempre vem
Tão forte... marcou-me tanto...
Foi pras bandas do nordeste
Na seca braba do agreste
Crianças mortas de fome
Mortinhas de inanição
Serzinho nascido à toa
Mães parindo em vão
Me disseram... só mais um
Fique atenta, lá vem mais
Outro anjinho consumido
Nascido desmilinguido
Passou... fiquei pra trás
Chorando, me consolei
Afagando os meus filhos
Tão felizes bem nutridos
Ah meu Deus...
Tão difícil compreender...
(E ainda tem políticos roubando milhões e absolvidos por seus colegas, com seus mandatos garantidos).
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 Número 161
VIDA DURA

Usei muito fogão a lenha
Lavei louça na bacia
Ariava com areia
Panelas tão cascorentas
Com sabão e água fria
Lavei tanta roupa suja
Puída....bem encardida
Da roça e dos terreiros
Do barro, esterco de gado
Roupas pra todo lado

Não acabavam mais
Pai, mãe, tantos irmãos...
Puxei muita água de poço
Bati roupa no tolão
Corei nas gramas do pasto
Rente, bem rente ao chão
Usei sabão feito em casa
Por mim, de cinza coada
Passei roupa ressequida
Usando um ferro em brasa
Criei ferida nos dedos
Tão jovens dedos miúdos
Branquinhos, bem afilados...
Tinham calos, bolhas, pus
Sangrava o canto das unhas
E se á noite latejava
Punha as mãos na água quente
Chorava quando tirava
Inclemente era a dor
Corria daqui...dali...
Azáfama, vida dura
Travessuras dos irmãos
Mãe doente quase sempre
Quanta coisa pra fazer...
Valei-me, Senhor Jesus
Dai-me força pra aguentar
Tanto irmão pra eu cuidar
Roupa imunda todo dia
Cozinhar, limpar, enfim...
Naquele tempo era assim
Velhos tempos de menina
Quando à luz de lamparina
À noite eu me deitava
E exausta então sonhava
Com uma vida melhor
Velhos tempos...bem lá atrás....

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NÚMERO 162

QUERO DA VIDA

Quero receber da vida
O que a vida tem pra dar
O nascer de um novo dia
O amor do teu olhar
O sol, a chuva, a brisa
O entardecer... e à noite
Quero estrelas pra contar
Tudo aquilo que recebo
Nas graças que ela me traz
Quero nuvens prateadas
Quero a paz da madrugada
E galos cantando ao longe
Anunciando que a vida
Se renova na alvorada...
Quero o renascer bendito
Pra  saudar um novo dia
De esperança, de bonança
De grandezas e chegadas
Quero ver jardins em flores
Estradas que levem longe
Meu amor a todo aquele
Que o amor em mim buscar
Quero gente me cercando
Dividindo seus anseios
Quero abraços, muitos beijos
Quero desejos de paz...
Quero a luz das criancinhas
Seus sorrisos e alegrias
Sua mais pura inocência
Pro meu mundo ser melhor
Quero vida... muita vida
Suavidade, leveza
E o encanto da natureza
Trazendo doces lembranças
Cobrindo qualquer tristeza
Que puder me acometer...
Quero sempre meus amigos
Por perto, pra festejar
Nossos encontros festivos
Sem ter hora pra acabar
Quero minha alma plena
Sempre cheia de amor
Pra ofertar a todo aquele
Que o amor vier buscar...
Quero só os belos sonhos
Pra poder rememorar
Qualquer hora que eu quiser
E torna-los bem reais
Enfim... eu quero da vida
Muita luz, sabedoria
Bendizer a cada instante
A você... vida querida...
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NÚMERO 163
PESSOAS QUERIDAS
Quero chama-las todas
Pra bem perto... bem aqui
Quero tê-las ao meu lado
Segredando o meu passado
Contando o que já vivi
E que estejam sempre junto
No conjunto das lembranças
Rememorando, buscando
Relembrando o que puder...
Quero todas como herança
Pra que eu possa lhes contar
Os meus mais temíveis sonhos
E contando me acalmar...
Quero tê-las bem presentes
Consciente, inconsciente
Consistentes, renitentes
Presenteando o meu viver
Enriquecendo minh,alma
Compartilhando o sabor
Do saber que as fez crescer
Quero dar pra todas elas
O amor bem temperado
O sabor bom do passado
Meu presente tão feliz
E o futuro que há de vir...
Quero ser sem distinção
Sem pudor... de coração
O lado bom desta vida
Dividir minha alegria
Dar a elas meu melhor...
E se não for pedir muito
Peço que fiquem comigo
Mesmo que em espírito
Hoje, por toda a vida
Vocês... pessoas queridas...
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Número 164
VELHA SENHORA
Lá vai a velha senhora
Trôpega em passos lentos
Carregando tão pesado
Seu passado... seus talentos...
Anda lerda, tropeçando
Cumprimenta todo mundo
Desenganos na canseira
Vai feliz, curtida em anos
Lá vai ela sempre amiga
Atenciosa, toda ouvidos
Solícita, generosa
Tem tanto pra ensinar...
Lá vai a velha bondosa
Sábia, silenciosa
Cônscia do seu poder
Carrega aura de anjo
E fartura de saber
Deixa amor por onde passa
Um abraço... um afago
Um conselho se é preciso
Deixa um rastro de grandeza
Nos sorrisos, nos trejeitos
Tem a face tão marcada
Tem as mãos encarquilhadas
Leva um lenço nos cabelos
Rareados, tão branquinhos
Parecendo fios de prata...
Lá vai a nobre senhora
Para... se agacha lenta
Acode um gatinho feio
Desnutrido, magricela
E o bichano vai com ela
Anda mais... um cão vadio
Faminto, cheio de sarna
Tem ração numa sacola
Chama o cão, ele acompanha...
Oferece lá na frente
O gatinho... quer procê?
Não posso levar mais esse
Tenho pouco a oferecer...
Tem uma casa... ou melhor
Um barraco escangalhado
E no seu fogão a lenha
Um feijãozinho mirrado
Mas lá fora, no terreiro
Embaixo de uma mangueira
Vasilhas com água e ração
É pra eles... disse então
Tantos bichinhos tenho
Dou a eles o que posso
Leva um? Te dou aquele
Precisa cuidado urgente
Tão lindinho... leva ele...
(e como não levar?)



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